“Mas Jesus lhes ordenou: “Deixai vir a mim as crianças, não as impeçais, pois o Reino dos céus pertence aos que se tornam semelhantes a elas”.
Mateus 19:14
Era apenas um menino, não fosse sua condição de refugiado. Era apenas um menino, não fosse o ódio com que nos tratamos uns aos outros.
Era apenas um menino, um corpinho impotente diante da fúria do mar e dos homens.
E aquele corpinho exposto às ondas de nosso descaso, acabou sem vida, de bruços na praia, quando nós é que deveríamos esconder a face diante do horror de nossa vergonha.
Era apenas um menino, mas o fato de ter nascido refugiado o tornou um mártir.
Quantos eram apenas meninos como ele?
Quantos nem sequer chegaram a ser meninos, porque suas mães tiveram seu sonho interrompido pela crueldade da vida?
Eu não sei ao certo se o que me comove de fato é o fato de ser ele apenas um menino, ou se o que realmente me comove é o fato de termos assassinado junto com ele a criança que deveria existir em nós.
Eu não sabia da notícia - sim, porque a morte, mesmo que de uma criança, vira apenas mais uma notícia -, até que minha irmã comentou, com lágrimas nos olhos, sobre a imagem que já havia “viralizado” na internet.
E eu agradeço a Deus por ainda termos lágrimas...
E como o mar deve ter chorado naquele dia em que o corpinho frágil de um menino refugiado se refugiou em suas vagas...
Ele, o mar, o deve ter embalado com a doçura que só as mães têm, e depois, o devolvido à terra firme, onde seus verdadeiros algozes o aguardavam.
Era apenas um menino, dentre milhares que nossa ganância e desamor têm assassinado.
Um menino, um número, um corpinho inerte na praia. A certeza de que alguma coisa anda muito errada. O atestado de nossa completa incapacidade de amar. O assunto pro meu texto dessa semana. Preferia não ter assunto algum.
Preferia falar da vivacidade das crianças e de como consigo enxergar o Eterno nelas.
Preferia não ter que relembrar minha, nossa desumanidade, ao me deparar com a cena tétrica daquele menino na praia.
O Senhor dos Mares o acolhe agora em seus braços ternos. O retira de sua posição de prostração e, delicadamente o coloca em um leito quente e macio. Nele, ele ainda ouvirá algumas maravilhosas histórias, antes de pegar no sono justo e pesado de que só os pequeninos desfrutam; para na manhã seguinte - sim, haverá novas manhãs -, novamente cansar seu corpinho frágil de tanto brincar.
O céu é seu lugar. Finalmente retornou à sua casa.
E é como se no silêncio respeitoso de minha alma eu pudesse ouvi-lo, rindo, feliz por ser apenas um menino, que finalmente encontrou refúgio seguro.
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