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Crônicas de um Sol Nascente

Aos mestres, com carinho!

Leciono no Japão desde o ano de 2011. Antes disso, no Brasil, ao longo de dez anos, fui professor de Literatura em cursos pré-vestibulares. Assim, tendo relativa experiência em dois países com sistemas de educação distintos, eu poderia utilizar esta crônica para fazer uma análise de tais diferenças. Mas, para não transformar o texto em uma dissertação acadêmica, prefiro limitar-me a ressaltar um aspecto, que, como professor, sempre me pareceu muito importante: o da gratidão de meus alunos.

Permitam-me, pois, para dar início ao tema, relatar um fato que ocorreu há aproximadamente sete anos, quando eu era professor assistente de Inglês em uma escola em Tóquio. Era um sábado, e estávamos, minha esposa e eu, retornando de trem para casa. Foi quando percebi que dois garotos, que deviam ter uns doze ou treze anos, olhavam-me enquanto cochichavam um para o outro. Naturalmente, pensei que o que lhes chamava a atenção era o fato de eu ser estrangeiro. Fosse qual fosse o motivo, porém, a verdade era que aquele cochicho começava a irritar-me. E eu já lhes lançava um olhar de reprovação quando, para minha surpresa, a dupla levantou-se e, caminhando em minha direção, disse-me: “Sensei, arigatou!” (Professor, obrigado!). Foi então que me dei conta de que eram dois alunos da escola em que eu trabalhava. Ao escutar, pois, aquelas palavras, fiquei entre o atônito e o emocionado. Tanto que, sem saber o que dizer, fiz apenas um gesto afirmativo com a cabeça. E eles, em seguida, curvando-se levemente, ao modo japonês, desceram em uma estação antes da minha.

O bonito e educado gesto daqueles jovens, felizmente, não foi uma exceção: pois, durante os anos em que tenho lecionado no Japão, desde as crianças até profissionais experientes sempre me disseram um “arigatou, sensei” ao terminar um determinado curso ou o ano letivo. E aqui, lamentavelmente, tenho de falar da experiência diversa que tive no Brasil (sendo que para muitos colegas ainda é uma realidade cotidiana): o do desrespeito em relação aos professores, desde o ensino fundamental até as universidades – professores estes ofendidos, física e verbalmente, em vez de receberem uma palavra de gratidão de seus pupilos quando a missão é cumprida. E como me dói, infelizmente, recordar os tempos como professor em minha querida Manaus, quando eu ouvia frases do tipo “o meu pai paga o seu salário” ou “entro e saio da sala a hora que eu quiser!”. Isso sem contar as inúmeras ameaças de ser agredido “fora do colégio” (o que ainda era leve, considerando-se que, hoje em dia, o professor apanha é dentro da sala de aula!).

E aí fica a pergunta: a educação japonesa é perfeita enquanto a brasileira é o caos? Claro que não: há exceções nos dois lados. Mas, como os “arigatous” ainda são mais numerosos que os “obrigados”, prefiro ficar por aqui... Ganhando o meu sushi em paz!

 

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de trezentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor dos livros “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto Espaço” (2012), “No mínimo, o Infinito” (2013), “Filho da Floresta” (2015), “Trovas escritas no tronco de um bambu” (2018) e “Gotas frias de suor” (2018). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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