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Educação

Aos 41 anos, eletricista celebra duas aprovações em instituições públicas de ensino

Conheça a história de Humberto Redivo Neto, o primeiro colocado nos vestibulares da Fatec e da Univesp em Bragança Paulista

O eletricista industrial Humberto Redivo Neto, de 41 anos, está dando orgulho para muita gente. Isso porque ele foi aprovado em dois vestibulares de instituições públicas com a primeira colocação em Bragança Paulista. Na Fatec (Faculdade de Tecnologia), prestou para o curso de Gestão de Tecnologia da Informação e, na Univesp (Universidade Virtual do Estado de São Paulo), para Engenharia da Computação. Para sua surpresa, foi o primeiro classificado em ambos, e decidiu ficar com a segunda opção.

Foto: Aquivo pessoal

A reportagem do Jornal Em Dia conversou com Humberto, que falou sobre sua formação, as expectativas para esse novo desafio e dicas para quem almeja passar no vestibular.

Formado em Técnico em Eletrônica em uma escola técnica de São Bernardo do Campo, Humberto hoje atua na área de manutenção industrial e decidiu prestar os vestibulares na área de T.I. a fim de aperfeiçoar seus conhecimentos. “Como a tecnologia avançou muito para o lado da informática, senti a necessidade de aprimorar os conhecimentos nessa área, que me levou a prestar os vestibulares na Fatec, para o curso de tecnólogo em Gestão de T.I. e também para a Univesp, que é o ensino EAD (Educação à Distância), também estadual. Para minha grata surpresa, atingi a maior pontuação da cidade nos dois vestibulares”, conta.

Inicialmente, o eletricista se matriculou na Fatec, que divulgou o resultado primeiro, mas depois, cancelou para fazer a matrícula na Univesp. “[Optei] por três motivos: o primeiro é o custo de deslocamento; o segundo, o meu trabalho, que muitas vezes, não me permite sair no horário, o que prejudica o acompanhamento regular das aulas; e em terceiro, porque moro num local isolado e prefiro não ter uma rotina de ausência à noite, deixando família e casa sem proteção”, explica, acrescentando que já havia iniciado o curso de Ciências Biológicas em uma faculdade particular, em 2014, mas não teve condições financeiras de concluir.

Apesar de sempre ter tido interesse pelos estudos, Humberto afirma que não teve uma rotina específica para se preparar para as provas. “Para falar a verdade, não houve nenhum tipo de preparação, nenhuma rotina de estudo. O que acontece é que a vida toda sempre fui um leitor ávido, leio de tudo o tempo todo. Livros técnicos dos mais variados segmentos, também procuro me manter atualizado sobre as notícias do Brasil e do mundo, buscando sempre fontes diversificadas, principalmente dos veículos de mídia internacionais. Isso ajuda muito na leitura geral do mundo, como um todo. Não apenas as palavras escritas, os números, mas principalmente as entrelinhas, o contexto em que as situações estão inseridas”, diz, salientando que o hábito de ler é um de seus aliados desde a infância. “Gostaria de frisar o fato de que devo muito desse perfil de buscar as respostas por conta própria à minha formação familiar e também ao gosto pela leitura ter sido incentivado desde a infância, em casa. Todos os pais deveriam incentivar a leitura  e o contato com os livros em seus filhos”.

Junto com a leitura, o autoaprendizado também sempre faz parte de sua vida. “Nunca me considerei um bom aluno, mas sempre me vi como um estudioso. Em boa parte da vida na escola, tive uma disparidade entre o que era ensinado e o que eu gostaria de estar aprendendo e isso me conduziu, frequentemente, ao autoaprendizado. Também não foi um sonho estudar em escola pública, mas fico muito feliz por existir essa possibilidade, de outra maneira, seria difícil dar esse passo que estou dando”, comenta.

Durante as provas, ter segurança e calma, segundo ele, fez toda a diferença. “Sou muito seguro e metódico. Não tinha ideia do resultado que atingiria, mas busquei manter um estado psicológico favorável ao raciocínio. Ler a prova toda com calma e, quando eu não sabia uma resposta, eliminava as alternativas improváveis e voltava depois nelas, me concentrando nas alternativas que julgava mais próximas da certa”, relembra.

Mesmo seguro, o eletricista garante que não esperava ter esse resultado, que em sua visão, teve um lado negativo. “Foi uma surpresa minha colocação e, para ser sincero, fiquei triste, porque comecei a refletir que a qualidade do ensino está em decadência e um candidato com o meu perfil deveria estar sendo superado por pessoas mais dedicadas ao estudo”, argumenta. Apesar disso, revela que as classificações o trouxeram novas percepções pessoais. “Tive um insight de que o poder pessoal que me levou a querer estudar e a dar o melhor de mim na prova produziu esse resultado nos dois vestibulares”.

Para aqueles que, como ele, almejam ingressar no ensino superior público, ele deixa sua recomendação. “Acho que a dica mais importante que posso passar é que o estudo não deve ser feito para passar em provas, ele deve ser constante e com motivação pessoal, para sanar as dúvidas e curiosidades que surgem em nossas mentes. Cada novo saber configura um aumento na compreensão da nossa ignorância. Quanto mais aprendemos, mais dúvidas surgem. Encarar esse desafio transforma nossa realidade ao longo do tempo. Quem estuda para provas se concentra em gravar na mente conceitos, fórmulas, regras, mas não resulta em compreensão, muitas vezes. Quem estuda para si, com um compromisso pessoal, tem o foco na assimilação do conhecimento e na aplicação dele na vida real. É uma abordagem diferente que produz resultados mais duradouros”, pontua, ressaltando a importância de ter tranquilidade e atenção ao realizar os testes. “Muitos candidatos não leem as provas como se deve. Muitos saem da classe no prazo mínimo de permanência, por isso, outra dica é manter a calma e encarar o desafio do vestibular de maneira tranquila, sem pressão interna”.

Ingressar após os 40 anos na universidade também é um desafio para Humberto, mas ele se considera pronto para superar mais esse obstáculo. “Com certeza, a idade pesa um pouco, principalmente devido ao acúmulo de responsabilidades, mas tenho a mente aberta e não vejo mudanças de forma negativa. Qualquer aprendizado é válido e produz abertura em nossa visão e entendimento do mundo. Estou pronto para começar novamente, ainda mais por ser um campo do conhecimento que vai agregar valor ao meu trabalho e facilitar minha vida. Fui reativo à informática por muitos anos, mas percebi que deveria encarar essa deficiência e desenvolver mais esse ponto fraco da minha formação”, pondera.

Casado, pai de um filho e com três enteados adultos, Humberto tenta passar o gosto pelos estudos e pelo constante aprimoramento. “Cada um deles tem sua própria personalidade e seus objetivos na vida. Eu sempre incentivo a buscarem qualificação, visando ao sustento material e a irem além, em busca de entendimento e crescimento pessoal. Mas assim como eu tive diferentes momentos, respeito o tempo de cada um deles”, fala, relatando que sua família ficou “muito orgulhosa, mas não surpresa” com as aprovações. “Fiquei mais surpreso que eles”, declara.

Dividido entre os compromissos pessoais e profissionais, ele agora tem de arrumar espaço na agenda para a vida acadêmica. “Conciliar novas atribuições sempre é um desafio, e acrescido o fato de o estudo ser EAD, coisa que nunca fiz, acredito que demandará um esforço adicional do que se estivesse fazendo um curso presencial. Mas a flexibilidade de horários ajuda a encontrar um meio termo na rotina”, entrega.

As aulas na Univesp começam neste mês. As datas ainda não foram divulgadas, mas ele se considera “esperançoso”. “Minha expectativa para o curso é a de adquirir base suficiente para avançar em projetos pessoais que exigem, além dos conhecimentos de eletrônica, uma boa dose de informática. Tenho grande interesse pela área de IoT, (“Internet of Things”; em português, “Internet das Coisas”), que, resumidamente, é a interconexão digital de objetos cotidianos com a internet. Hoje, temos tecnologias de baixo custo que possibilitam isso, mas demandam conhecimentos específicos e aprofundados em diferentes áreas e a informática, nesse contexto, é hoje meu ‘calcanhar de Aquiles’”, fala.

A fim de inspirar e motivar pessoas de todas as idades a irem atrás de seus objetivos, Humberto deixa uma mensagem de otimismo. “A mensagem que quero passar é que devemos acreditar em nosso potencial e desejar as coisas com vontade, paixão e nunca desistir. Se a pessoa está distante de onde deseja estar, precisa construir a ponte, abrir sua estrada, criar maneiras de transformar sua realidade, sem duvidar de si mesmo. Dificuldades existem para todos o tempo todo. Com certeza, surgirão obstáculos, mas com fé e perseverança, qualquer sonho pode ser alcançado. Espero que meu mérito inspire outras pessoas, jovens ou não tão jovens, como eu. Sonhar e correr atrás dos sonhos traz outro sentido pra vida. Tudo passa a ser possível quando acreditamos, para isso não tem idade”, encerra.

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