A crise hídrica avança. Sem chuvas que possam mudar a realidade atual, o nível dos reservatórios do Sistema Cantareira vem diminuindo dia após dia. Nesse sábado, 23, o volume operacional da Represa Jaguari/Jacareí era de apenas 3,60% e a capacidade do sistema estava em 11,73%.
Na última semana, a Sabesp anunciou que pretende retirar mais 106 bilhões de litros de água do volume morto da Represa Jaguari/Jacareí. Desde maio, o Sistema Cantareira opera com a primeira cota da reserva técnica desses reservatórios e agora, entraria na segunda cota.
A represa em questão representa 80% da capacidade do Cantareira.
Além disso, no dia 15 de agosto, a Sabesp iniciou o bombeamento do volume morto da Represa Atibainha, localizada em Nazaré Paulista. De acordo com os dados divulgados, esse reservatório tem capacidade de armazenar quase 200 bilhões de litros de água. O volume morto teria 121 bilhões de litros, mas a Sabesp só teria autorização para bombear 76,9 bilhões de litros de água.
O mês de agosto não tem média histórica alta de chuvas no Sistema Cantareira. O índice é de 36,9 milímetros. Até esse sábado, porém, havia chovido apenas 19,2 mm. Já o mês de setembro, por exemplo, tem média histórica de 91,9 mm. Mas, em 2013, o acumulado do mês ficou em 37,5 mm, o que evidencia que desde então a situação pluviométrica já não era boa. Nessa época, a Represa Jaguari/Jacareí estava com menos da metade de sua capacidade, 38,32%.
E não há previsão de chuvas até a próxima terça-feira, 26. De acordo com o CPTEC/INPE (Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a probabilidade de chuvas aumenta na quarta-feira, 27, quando deve ocorrer chuva de curta duração, podendo ser acompanhada de trovoadas, a qualquer hora do dia.
Porém, a situação é passageira e o mês de setembro deve começar sem chuvas.
Diante da persistente e cada vez mais crítica escassez de água, o Jornal Em Dia entrou em contato com o Consórcio PCJ, uma associação de direito privado sem fins lucrativos, composta por municípios e empresas, que tem como objetivo a recuperação dos mananciais de sua área de abrangência.
O Consórcio Intermunicipal das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí tem como base de trabalho a conscientização de todos os setores da sociedade sobre a problemática dos recursos hídricos da região, no planejamento e no fomento às ações de recuperação dos mananciais.
O Consórcio PCJ existe há 25 anos. Os questionamentos feitos pela reportagem foram respondidos via e-mail pelo secretário executivo do PCJ, Francisco Lahóz. Acompanhe:
Jornal Em Dia – O Consórcio PCJ tem dados sobre qual a perda de água tratada em Bragança Paulista?
Francisco Lahóz – Segundo o Plano de Bacias PCJ, Bragança Paulista possui 37% de perdas hídricas.
Jornal Em Dia – Pelos dados que o consórcio tem, há risco de assoreamento do Rio Jaguari?
Francisco Lahóz – Não possuímos dados sobre esse tema.
Jornal Em Dia – O que o Consórcio PCJ tem feito para amenizar o problema da escassez de água na bacia como um todo?
Francisco Lahóz – O Consórcio PCJ emitiu o primeiro alerta sobre a possibilidade de estresse hídrico no Sistema Cantareira e uma possível grave crise hídrica nas Bacias PCJ, em dezembro de 2013. De lá pra cá, a entidade elaborou os 25 mandamentos da estiagem e as 39 ações para superarmos essa crise. O Consórcio trouxe, ainda, consultorias aos 43 municípios e 30 empresas associadas, como a de Rosana Garjulli, que nos contou a experiência do Ceará na alo-cação negociada de água, além de buscar soluções para municípios e empresas para suprir o abastecimento, como também, campanhas de racionalização do uso da água.
Jornal Em Dia – Em Bragança Paulista, temos relatos de que muitos poços estão secando na área rural, o que retrata que o problema não está apenas no Cantareira. Qual a dimensão do problema na visão do PCJ?
Francisco Lahóz – Devido à severa estiagem, o lençol freático está baixo, ou seja, com menos água para poder atender rios, nascentes e, consequentemente, os poços. Pode haver outros motivos que estejam comprometendo as vazões dos poços, para se saber a real situação é necessário um estudo de campo mais detalhado.
Jornal Em Dia – Recentemente, foi prorrogado o prazo de vigência da outorga de direito de uso de recursos hídricos do Sistema Cantareira para a Sabesp. O que vocês acham disso?
Francisco Lahóz – O Consórcio PCJ é a favor do adiamento da renovação da outorga do Cantareira porque não há como se definir novas vazões para a Grande São Paulo e para as Bacias PCJ sem levar em conta os acontecimentos dessa última estiagem, considerada o pior evento climático extremo dos últimos 90 anos. Estamos aguardando o encerramento do atual ciclo hidrológico, que acontece em setembro, para aí sim a Agência Nacional de Águas começar estudos e elaborar um novo cronograma de negociações da renovação da outorga do Sistema Cantareira.
Jornal Em Dia – Alguma coisa muda com essa prorrogação, já que se estudava e se esperava a renovação da outorga?
Francisco Lahóz – Nada muda. A prorrogação faz com que a atual outorga (portaria 1213/2004) permaneça inalte-rada. As novas vazões só serão discutidas na renovação dessa outorga.
Jornal Em Dia – Especialistas dizem que a água do Cantareira dura por poucos meses. Qual a opinião do PCJ sobre isso?
Francisco Lahóz – O Consórcio PCJ tem alertado sobre o exaurimento das reservas do Sistema Cantareira desde dezembro de 2013. Segundo estudos do Consórcio PCJ, o Cantareira só resiste com uma redução de 50% do consumo da Grande São Paulo e das Bacias PCJ.
Jornal Em Dia – A região de Bragança Paulista é considerada produtora de água, o que pode ser feito para garantir que o recurso continue sendo produzido? É possível fazer isso mesmo com a escassez de chuvas? Como?
Francisco Lahóz – O Consórcio PCJ fomenta o desenvolvimento do Ecoturis-mo na região de cabeceira das Bacias PCJ como forma de levar crescimento econômico, preservar nascentes e garantir a qualidade hídrica.
Jornal Em Dia – Os representantes do governo estadual e da Sabesp não admitem que o problema da escassez de água é grave e pode se tornar ainda pior caso não chova o esperado e a população como um todo não se conscientize e economize. Essa postura pode estar dificultando a compreensão da população?
Francisco Lahóz – Desde dezembro de 2013, o Consórcio PCJ tem feito intensa campanha na mídia, em municípios e empresas, buscando sensibilizar a comunidade quanto à gravidade da estiagem e seus reflexos não somente para o abastecimento de água, mas também econômicos. Se a indústria não tiver água, sua produção será afetada e, consequentemente, o emprego para a população. No entanto, a comunidade tem ajudado. Vários municípios registraram queda do consumo de água graças às campanhas de sensibilização. Precisamos continuar com essas campanhas, cada gota economizada fará a diferença na disponibilidade hídrica.
Jornal Em Dia – É possível ver o problema da água isoladamente município a município ou é preciso pensar regionalmente? Como os municípios devem se articular para cuidar da questão?
Francisco Lahóz – Cada município está buscando soluções para a crise atual de acordo com suas condições e realidade para amenizar os impactos aos seus consumidores. No entanto, pensando num horizonte mais amplo com objetivo de se preparar para novas crises, temos de ter em mente o conceito de bacia hidrográfica. As ações que realizo no meu município podem impactar o vizinho, como também, se unirmos esforços pensando numa saída mais macro para as necessidades hídricas, poderemos encontrar uma solução que atenda a demanda de todos os municípios. A articulação entre os municípios já ocorre. Um exemplo disso é a fundação do Consórcio PCJ, em 1989, quando 11 municípios das Bacias PCJ se articularam e criaram nossa entidade para recuperar e preservar nossos rios. Participar e fortalecer o Consórcio PCJ é uma ação de compromisso pela água e é realizada por 43 municípios e 30 empresas associados há 25 anos.
O Jornal Em Dia também entrou em contato com a Sabesp a fim de obter mais dados sobre o problema da crise hídrica, mas a assessoria de imprensa da companhia não respondeu os questionamentos enviados.
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