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Crônicas de um Sol Nascente

Anora

Estreou no Japão o filme vencedor do Oscar de 2025. O que fez com que, depois de muito tempo (em virtude do problema ocular), eu tivesse novamente o prazer de gozar (juro, não foi intencional!) de uma das coisas de que mais gosto de fazer na vida: ir ao cinema.

E fui pelo filme em si, sem me importar com os comentários revanchistas do “Brasil da Internet”, que, com seus pensamentos simplistas, classificaram o filme de “pornô” e, o que é mais ridículo ainda, começaram a atacar a talentosa atriz Mikey Madison (que, agora possuidora de um Oscar, não deve ter perdido um minuto de sono sequer preocupada com os inconformados brasileiros).

Agora, vamos ao que interessa: sobre o filme. Não me decepcionei, já digo de antemão. “Anora” é uma obra que, apesar de alguns classificarem de um roteiro simples (ainda que nenhum roteiro seja algo simples de se escrever – e digo isso por experiência própria...), não é simplista em momento algum.

O filme do criativo diretor Sean Baker – o mesmo do também maravilhoso “Projeto Flórida” (2017) – é, a seu modo, um estudo sobre a desigualdade social, com um enredo que confirma aquela a frase da economista britânica Shahin Yaqub de que “crianças pobres crescem para tornar-se adultos pobres”.

Isso porque, no filme, o conto de “cinderela” de Anora, uma profissional do sexo, é também despedaçado pelo poder do capital – e não digo mais nada além disso para não estragar o prazer dos que ainda não assistiram a essa bela obra cinematográfica.

Madison, aliás, é uma força da natureza, e, sim, mereceu a estatueta (apesar de eu também achar que Demi Moore foi igulamente maravilhosa e também a mereceria).

Porque, sim, Madison, com apenas vinte e cinco anos, brilha num papel que necessita, para dizer o mínimo, de uma grande coragem combinada a um imenso talento – afinal de contas, em mãos menos talentosas que as da jovem atriz norte-americana, corria-se o risco de termos uma Anora sem nuances. O que, de fato, não ocorreu.

Outro que também deu um show no papel do capanga Igor foi o russo Yura Borisov – de quem, confesso, eu desconhecia trabalhos anteriores. Seu olhar, seu gesto contido, fez lembra-me os de um outro grande ator: Ewan McGregor. Um talentosíssimo ator esse jovem russo – e não é fácil ter de atuar em outro idioma (coisa que, aliás, também Madison o fez, diga-se de passagem). De modo que Borisov realmente fez por merecer sua indicação ao Oscar de ator coadjuvante. Vai longe esse rapaz!

Por tudo isso, queridos leitores, recomendo “Anora” e afirmo: se ainda não viram o filme, não percam a oportunidade de vê-lo.

Garanto que sairão da sala de cinema sensibilizados e, mais, refletindo.

Afinal de contas, as lágrimas e os sorrisos de Anora são também as lágrimas e os sorrisos de todos aqueles que, dia a dia, sobrevivem sonhando com um amanhã um pouco melhor.

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quinhentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2024, seu livro obteve o Primeiro Lugar no Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) da UBE-RJ. Também em 2024, foi o roteirista vencedor do “WriteMovies Script Pitch Contest”, nos Estados Unidos. É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

 

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