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Crônicas de um Sol Nascente

Alienação, arigatô!

Se há políticos? Sou contra! 

É até uma ironia começar esta crônica parafraseando Che Guevara, que personificou, por meio de sua luta, a frase aristotélica de que “o homem é um animal político”. Sim, somos todos animais políticos, e sem política não há sociedade. O problema é que a bela frase do filósofo sempre morreu asfixiada no lamaçal que é a “política na prática”: esta dominada pelos políticos profissionais, que, uma vez no poder, têm somente a preocupação de garantir uma lucrativa carreira.

Por isso não confio e muito menos brigo por político algum; pois seja de esquerda ou de direita, ao final, são todos tortos. E traiçoeiros! Inclusive, não os chamo de ratos para não ofender os bichinhos. E aí sei que muitos vão contra-argumentar: mas há exceções – também há políticos bons. Sim, concordo, há também os bons: mas estes ou são cassados... ou caçados – até que desistam ou sejam assassinados. Pois quem tem bom caráter de verdade dura pouco nesse meio. O mundo da política não é para os retos de coração. E se o indivíduo não é podre, se quiser permanecer no meio, tem de apodrecer o mais rápido possível– eis a triste realidade.

Não, como podem perceber, definitivamente não tenho qualquer simpatia por políticos. Por isso, talvez, me adaptei tão bem ao Japão, onde o circo da política tem pouca influência no cotidiano da população. Um país onde o voto sequer é obrigatório: minha esposa, por exemplo, até se esquece do dia da eleição. Isso, aliás, a que alguns chamam de “alienação”, chamo de “desenvolvimento de uma sociedade”: a ponto de não se importar com quais bandidos hão de compor o governo do país.

Então quer dizer que os japoneses não protestam? Não vão às ruas? Basicamente, não. As manifestações aqui, quando surgem, são feitas por meia dúzia de gatos pingados, formadas principalmente por anciãos com bastante tempo (e boa aposentadoria) disponíveis. E o número de participantes, naturalmente, diminuiu ainda mais com a pandemia.

As críticas aos políticos, vindas da parte dos jovens, ocorrem mais por meio da internet: e não chegam a fazer estardalhaço. Estão mais para brincadeiras inofensivas, ridicularizando as mancadas dos parlamentares: como ocorreu na recente abertura dos Jogos Olímpicos, quando um sonolento primeiro-ministro Yoshihide Suga permaneceu sentado, sem perceber, portanto, que o imperador havia se levantado para discursar. Uma quebra de protocolo imperdoável na Terra do Sol Nascente.

De modo que, sendo oriundo de um país em que discussões políticas parecem saídas do filme “Mad Max”, confesso que chego a ter inveja do descaso japonês em relação a essa corja que ocupa as cadeiras do poder. Pois, enquanto o planeta fica se matando para ver se deve reinar o capitalismo ou o socialismo, o melhor dos dois mundos está aqui, no Japão: com saúde, educação, segurança, liberdade... e políticos ignorados. 

***
EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo o mais recente: “Crônicas de um latino sol nascente” (Telucazu Edições, 2020). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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