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Crônicas de um Sol Nascente

Ai

Não, o título da crônica não se refere à nossa conhecida interjeição de dor, mas a um homógrafo japonês desta, que significa: AMOR. Sim, senhoras e senhores, esta é uma crônica sentimental, se assim preferirem classificá-la. Pois nela venho expressar todo o meu carinho e gratidão – elementos, aliás, presentes nessa palavra de significado tão extenso que é o “amor” – pelo povo japonês, com quem convivo há mais de duas décadas. E, em especial, quero dedicar esta crônica a dois japoneses, que são indubitavelmente os maiores amores de minha vida. São estes: minha esposa, Nao, e meu filhinho, Endi.

Minha esposa, Nao Yamada... Ela, que tem sido minha companheira desde 2002, já travou tantas lutas ao meu lado, deixando mesmo sua pátria por um ano, para ir comigo ao Brasil num momento em que passávamos por dificuldades financeiras no Japão. E ela, tornando-se imigrante em meu país, foi à luta ao meu lado para não desistir de nossos sonhos e, principalmente, de nosso amor. Ah, foram tantas os desafios que enfrentamos lado a lado que uma crônica não bastaria para mencionar cada um deles. Como também não há palavras suficientes para expressar neste texto o quanto amo e sou grato a minha esposa por tudo que fez e tem feito por nossa família, nosso lar – que, em 2019, recebeu mais um lindo motivo para celebração e alegria, com a chegada de nosso pequeno Endi. Um par de olhinhos brilhantes que, todas as noites, vem receber-me com um “Okaerinasai, Pappa!” (Bem-vindo de volta, papai!). E não importa o quanto eu esteja cansado da jornada laboral: receber essas palavras ao fim de um dia já são motivos mais do que suficientes para considerar-me uma pessoa feliz!

Ai... Amor... Como é fácil e ao mesmo tempo tão difícil escrever sobre o carinho que tenho recebido de minha esposa e de meu filhinho, mas também de meus sogros, amigos e tantas outras pessoas que conheci neste longo tempo de Japão. Um amor que raramente é expressado por meio de palavras, vale frisar, mas que às vezes é tão ou mais verdadeiro que nossa forma latina de demonstrar sentimentos. Pois, não, você não ouvirá de um japonês um “eu te amo” (sequer eles possuem uma frase similar). Não: o amor japonês encontra-se nos pequenos e silenciosos gestos. Lembro-me de que, certa vez, vendo-me bastante triste, minha sogra, sem me dizer nada, colocou na tevê um filme em inglês que estava passando naquele dia. Ela sabia, então, o quanto eu gostava de cinema; o quanto filmes me faziam (e fazem) sorrir. De minha parte, entendendo a mensagem, disse-lhe, lagrimando, um singelo “arigatô” enquanto o filme 0– um Hitchcock – aparecia na tela. Era uma forma de dar-lhe um sinal de que, sim, eu havia compreendido aquela forma silenciosa de carinho – aquele fabuloso “ai” que minha família japonesa, mais uma vez, acabara de sussurrar-me à alma.

***

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal, é autor de dez livros, sendo o mais recente “Contos de um Brasil esquecido”, lançado pela Editora Folheando (Pará), e finalista do Prêmio Uirapuru. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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