news-details
SUB-VERSÃO

A viola nunca falou tão alto

Domingo. Do quarto, onde quase sempre me dedicava a fazer uma leve arrumação e limpeza, podia ouvir a TV ligada, em volume altíssimo na sala. A música, inconfundível adentrava aos meus ouvidos sempre desejosos de poesia.

E eu cantarolava junto, em alto e bom som, e era como se a vida, naquele breve momento de abertura do programa, tornasse-se um tantinho menos “marvada”.

“É que eu rumino desde menininho, fraco e mirradinho a ração da estrada... E no capim mascado do meu boi, a baba sempre foi sangue purificado...”. Esses versos sempre tocaram fundo meu coração de brasileira, minha alma sensível de mulher interiorana, a quem agradam mais as coisas simples e genuínas que as complexidades da cidade grande.

Eu que gosto da essência pura da gente do campo, do sotaque caipira, que mais soa como um convite para bailar com as palavras, dos causos todos, sempre contados com tanta maestria por ele, que sabia como ninguém prender-nos a atenção e levar-nos do riso às lágrimas em segundos.

Eu, que sou assim, simplória feito prosa à beira do fogão de lenha, sempre me deleitei com a genialidade de Rolando Boldrin. E que falta, que falta me fará sua figura tão emblemática e insubstituível aos domingos.

O “Senhor” Brasil, era isso o que Boldrin literalmente era. Musical feito as violas ponteadas pelos sertões deste país que é todo sertão, alegre, feito o povo corajoso dessa terra, que o põe à prova a todo instante, e a todo instante se surpreende com sua força inabalável. Sábio feito matuto, dono de uma malícia despretensiosa, de um humor inocente, de intelecto sagaz e criticidade afiada.

Os domingos nunca mais serão os mesmos, ainda que haja viola e cantoria e prosa boa. Um pouco do encanto se perdeu com sua partida.

Gosto de pensar, e talvez esse pensar assim poético, também tenha aprendido com ele, que ele apenas pegou a viola e foi viajar. E que pelos muitos profundos sertões por onde passará, levará ainda muitas e muitas vezes o encantamento que só uma alma genuína como a sua é capaz de proporcionar.

O Brasil está órfão de seu senhor maior. A viola chora a ausência de um dos maiores representantes e defensores da cultura popular. O povo, que tantas vezes se reconheceu na imagem do senhor de olhos tão azuis quanto céu em manhã de inverno, chora a falta que esse seu amigo fará.

E que encontro lindo deve estar acontecendo agora no Reino da Poesia, quando do encontro deste, com o meu também muito querido amigo Lourenço. Violeiros da melhor qualidade, almas autênticas, finalmente reunidas!

A roda de viola deve estar linda, a prosa ao calor do fogão à lenha, animadíssima, há riso e festa, há uma alegria tão profunda e genuína como só pode haver no coração daqueles que ousaram honrar sua existência com amor e simplicidade!

Você pode compartilhar essa notícia!

0 Comentários

Deixe um comentário


CAPTCHA Image
Reload Image