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Crônicas de um Sol Nascente

A velha mentalidade

Sabem aquela imagem do ancião japonês, fonte inesgotável de conhecimento, tipo o Sr. Miyagi do “Karatê Kid”? Pois é, no Japão real, a coisa não é bem assim. E antes que me apedrejem acusando-me de tentar destruir mais um dos festejados estereótipos em relação à Terra do Sol Nascente, deixem-me esclarecer que aqui falarei especificamente de um assunto no qual os velhinhos nipônicos têm errado, historicamente, muito mais que os jovens: eleições.

No próximo dia vinte e três de outubro (entrego esta crônica ao jornal um dia antes), o Japão também sairá para votar. Ou quase. Isso porque o voto aqui, para o bem ou para o mal, não é obrigatório. O que significa que pouquíssimos cidadãos se importam com quem vai ou não ocupar as cadeiras no “Diet” (ou “Kokkai”, como é conhecido o parlamento japonês), ou governar as prefeituras das províncias. E quem são esses pouquíssimos cidadãos? Um grupo de abnegados cuja média de idade gira em torno de oitenta... a noventa anos! Isso mesmo que leram: são eles que, arrastando os passos, saem em massa, em dias de eleições, para escolher os mesmos políticos de sempre – leia-se “Partido Liberal Democrático” (Jiyuu Minshu-Tô), o mesmo do falecido ex-primeiro-ministro Shinzo Abe: partido este que, graças aos “bons velhinhos”, ocupa o poder há cinco décadas.

E os jovens, por que não saem para votar? Porque, simplesmente, aqui não se tem uma consciência política de base, ou seja, incentivada nas escolas. Os jovens aqui são preparados apenas para o mercado de trabalho, principalmente no campo de exatas e biológicas. Tanto que matérias como História e Geografia são relegadas a segundo plano no currículo escolar; fazendo, assim, com que o chamado “pensamento crítico” torne-se mesmo um elemento descartável na formação educacional japonesa.

Resultado: com uma juventude alienada, a bola sobra pra quem? Para eles: os velhinhos conservadores, que saem fazendo um estrago em dias de eleições, escolhendo (de novo e de novo e de novo) os “antônios carlos magalhães” nipônicos.

Mas a crise é a mãe da mudança. E, neste ano, com o Japão castigado pela inflação (como havia tempos não se via), talvez a juventude, agora “chacoalhada”, dê um tempo nos celulares para exercitar as pernas e escolher novos rostos (e principalmente novas ideias) para as prefeituras de seu país.

Aqui, em Saitama, temos a chance valiosa de ter pela primeira vez na história da cidade (pasmem!)... uma prefeita: Yuriko Yamakawa. Que, vale frisar, não pertence ao famigerado Jiyuu Minshu-Tô. Que assim seja: mudanças, ao contrário do que prega a velha e perigosa mentalidade conservadora, são sempre necessárias para o bom funcionamento de uma sociedade.

E, quando falo de “velha mentalidade”, não me refiro somente aos conservadores com idade avançada. Afinal de contas, ideias “senis” em um jovem podem ser igualmente ou ainda mais nocivas ao processo democrático. Principalmente quando saem por aí, armados até os dentes e gritando “mitos e améns”.

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal, é autor de dez livros, sendo o mais recente “Contos de um Brasil esquecido”. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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