Quando comento com amigos e familiares no Brasil a respeito dos direitos sociais (saúde, educação, etc.) a que temos acesso no Japão, é comum receber este tipo de resposta de meus interlocutores: “Ah, mas o Japão é rico!”. Confesso que isso me incomoda, e por dois motivos: primeiro porque soa como se, no país, vivêssemos todos nadando em dinheiro – o que é um mito: uma vez que a sociedade japonesa é composta basicamente por assalariados (incluindo quem vos escreve) que, sim, têm de batalhar muito para obter o sustento. E, segundo, porque é uma falta de conhecimento histórico tratar o Japão como um país que parece não conhecer a pobreza. Ora, estamos falando de uma nação que enfrentou duas guerras mundiais (e muita fome!); foi alvo de duas bombas nucleares; e que teve de reerguer-se dispondo de poucos recursos naturais. Um povo que teve de trabalhar: e muito... Principalmente em prol da coletividade!
Brasileiramente, temos essa mania de achar que, quando um povo ou um indivíduo progride, tudo se resume a uma questão de sorte. Como se uma força sobrenatural jogasse os dados e decidisse quem deve ou não ser feliz! Daí outra frase que sempre achei, além de incômoda, inócua: o famigerado “boa sorte”. Claro que sei que o objetivo é o de desejar um bom resultado (como no inglês “good luck”). No entanto, a meu ver, é exatamente aí que reside o problema da expressão: enfatizar o resultado... Não o processo. De tal modo que prefiro fazer uso de um verbo em Japonês: o gambaru (esforçar-se). Uma frase de incentivo que traz em sua essência a seguinte ideia: faça o melhor que puder, independente do resultado.
E foi justamente o “gambaru” que fez o Japão, arrasado por guerras e bombas atômicas, vencer a fome e a desesperança, tornando-se uma potência econômica. Não foi o acaso nem um milagre: mas o simples fato de os japoneses unirem-se para, em grupo, tentar fazer o máximo pelo progresso de toda a sociedade. E, mesmo quando esse progresso parecia distante, não desistiram: o gambaru, esse esforço, foi contínuo. Uma ideia que, tornando-se a principal riqueza nacional, continua sendo transmitida de geração em geração. Por isso, até hoje, nas escolas, as competições entre as crianças são menos incentivadas do que atividades em que todos se esforcem em conjunto: como, por exemplo, varrer a sala de aula. A propósito de tais atividades, aliás, quantas vezes não presenciei alguns de meus compatriotas queixarem-se aos professores japoneses de que seus filhos “não estavam na escola para varrer” – em uma atitude arrogante e irresponsável, enfim, típica de alguém que acha tão bom gozar os frutos de um trabalho coletivo; mas que, na hora de esforçar-se com os demais, fica em um canto, à espera da “boa sorte”.
EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de trezentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor dos livros “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto Espaço” (2012), “No mínimo, o Infinito” (2013), “Filho da Floresta” (2015), “Trovas escritas no tronco de um bambu” (2018) e “Gotas frias de suor” (2018). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases). Em novembro, o autor foi um dos contistas premiados (2º lugar) no X Festival “Pérolas da Literatura” – SP/ 2019.
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