A Renovação Carismática Católica (RCC) começou a ser praticada no Brasil há cerca de 50 anos. Trata-se de um movimento da Igreja Católica Apostólica Romana que surgiu nos Estados Unidos na década de 60 e depois se difundiu pelo mundo todo.
O arquiteto e ex vice-prefeito de Bragança Paulista, João Carlos Monte Claro Vasconcellos, foi um dos responsáveis pela implantação da RCC na cidade. Ele conversou com o Jornal Em Dia sobre o assunto, explicando como se deu seu contato com o movimento e como isso afetou sua vida.
Joca, como costuma ser chamado, já participava do TLC (Treinamento de Liderança Cristã), ligado à Pastoral da Juventude, cujo diretor espiritual era o padre Zecchin na época, e também participava de encontros nos grupos de jovens. “Certa vez, houve uma reunião convocada pelos bispos em Itaici, para avaliação da Pastoral da Juventude no estado. Todas as dioceses foram convidadas. Eu não ia, era outro casal que iria, mas esse casal acabou não podendo ir e eu acabei indo”, contou.

Durante o encontro, Joca teve contato com membros da comunidade de Lorena. Era maio de 1971 e ele passava por momentos difíceis, estava fragilizado por conta de problemas pessoais, como a doença do pai. “Nessa reunião, uma comunidade se sobressaiu de maneira diferente, era a Diocese de Lorena, do padre Jonas Abib. As colocações deles, a maneira deles se portarem, a linguagem toda me chamou a atenção. Senti algo diferente”, disse.
Dois meses depois, Joca foi a Lorena, onde então participou de um grupo de oração e ficou conhecendo o que era a Renovação Carismática Católica. “Até então, não conhecia nada. Comecei a me interessar, participar com eles de algumas coisas e ali conheci a RCC, que era nada mais nada menos que uma corrente de graça, uma atualização do pentecostalismo, movimento que começou no final do século XIX e início do século XX. Isso aconteceu nas igrejas evangélicas e nas igrejas católicas, mais fortemente após o (Concílio) Vaticano II”, comentou.
O pentecostalismo é um movimento de renovação de dentro do cristianismo que dá ênfase especial numa experiência direta e pessoal de Deus por meio do batismo no espírito santo.
Joca afirmou que a experiência pentecostal é uma infusão do espírito santo e dos seus dons, e que isso transformou sua vida. Uma das graças alcançadas por ele foi a cura da surdez de seu ouvido direito, um problema genético que vários de seus parentes têm.
A RCC EM BRAGANÇA
O primeiro encontro de grupo de oração em Bragança aconteceu em 1975, na casa de Joca. Cerca de 15 pessoas participaram na ocasião, entre jovens, adultos e idosos. Atualmente, Joca estima que existam 18 grupos de oração, em quase todas as paróquias de Bragança Paulista, e quase 100 em toda a diocese. “Na primeira reunião, tivemos aproximadamente 15 pessoas. Em um ano, já éramos umas 500 pessoas. Onde estávamos indo, as graças de Deus estavam acontecendo. Onde a gente era chamado, a gente ia e começava um grupo de oração”, lembrou.
De acordo com Joca, os grupos de oração são a base da RCC. Mas também há outras ações dentro do movimento, como o seminário de vida no espírito santo, a experiência de oração no espírito santo, cursos de formação, aprofundamento, cenáculos. Ele citou, inclusive, o 27º Cenáculo Diocesano, ocorrido no último fim de semana, no Ginásio Rubens Batazza, na Planejada II. Ele e outro precursor da Renovação Carismática na cidade, conhecido como Carlinhos, foram homenageados na ocasião.
Mas nem tudo são flores. Joca observou que houve muita resistência dentro da própria Igreja Católica para aceitar a RCC. “Muitas dificuldades dentro da própria igreja, porque não havia o entendimento do clero sobre o que estava acontecendo, essa corrente de graça, que estava acontecendo no mundo inteiro. Muita resistência, por falta de conhecimento, porque era algo novo, porque o espírito santo faz tudo novo, ele sopra como quer, onde quer, isso mexe um pouco com algumas organizações, com algumas estruturas. Foram momentos difíceis, muito difíceis, até para a família compreender o que estava acontecendo na vida da gente, o próprio movimento da juventude, muita dificuldade de entender. Mas as coisas foram acontecendo. Na época, o Dom Lafayette (Dom José Lafayette Ferreira Álvares) era o nosso bispo, me chamou, querendo saber detalhes, literatura, conversamos muito sobre isso, deu sua bênção. Depois, Dom Misiara (Dom Antônio Pedro Misiara) abraçou o movimento e assim foi acontecendo”, recordou.
ALEGRIA E ECUMENISMO
Os grupos da Renovação Carismática costumam ser bastante alegres. Joca explicou que a alegria é um dos frutos do espírito santo, por isso, a presença dela nas reuniões carismáticas é uma característica marcante.
Sobre o ecumenismo, o precursor da RCC na cidade disse: “Quando o espírito santo age, ele traz frutos na sua vida. Esses frutos começam a acontecer, quando você começa a perceber sua vida oracional, a palavra de Deus deixa de ser somente uma letra e você começa a compreender realmente o plano de salvação, a vida de comunidade, a vida ecumênica. O espírito santo é o espírito da unidade, então, há um trabalho muito forte na Renovação para o diálogo com as outras denominações. Temos muito diálogo aqui em Bragança com alguns pastores”.
GRAÇAS RECEBIDAS
Em todos esses anos, Joca disse que teve muitas graças em sua vida. “Participei de vários projetos na Canção Nova, a TV Século XXI. Estou projetando e construindo o Santuário das Mãos Ensanguentadas de Jesus (foto), é uma obra que é o dobro da Catedral, então, são coisas que fui recebendo essa graça de Deus e tendo essa mão dupla, responsabilidade e uma dádiva de Deus participar de uma obra tão grande”, contou.
Sobre a cura da surdez, ele também deu detalhes. “Uma senhora, que se chamava tia Laura, tinha o dom de falar para a comunidade e ela teve esse discernimento e falou ‘uma pessoa está sendo curada do seu ouvido direito’. Naquele momento, veio um estalo, eu percebi que estava escutando, eu estava meio longe e estava ouvindo perfeitamente o que ela estava falando. Eu tinha dificuldade para escutar do ouvido direito, a maioria dos meus parentes, primos, minha irmã, usa aparelho, meu pai usava aparelho, essa surdez é genética. Tive essa graça, muitas pessoas da comunidade foram curadas miraculosamente. Então, é uma graça que o espírito santo derrama nas igrejas, em todo o mundo, a gente percebe”, testemunhou.
CHARIS
Desde dezembro do ano passado, está em vigor de forma experimental um novo estatuto que envolve a RCC. Trata-se do estatuto do Charis, que significa graça ou carisma, e é um organismo que constitui um novo e único serviço internacional para a corrente de graça como é considerada a Renovação Carismática Católica.
Com a criação do Charis pelo papa Francisco, o Serviço Internacional da Renovação Carismática Católica e a Fraternidade Católica das Comunidades e Associações Carismáticas de Aliança deixam de existir, passando a fazer parte do novo organismo, cujo estatuto entra em vigor efetivamente na cerimônia de Pentecostes, a ser celebrada no dia 9 de junho.
Joca contou que estará no Vaticano durante esta solenidade e explicou sobre a nova estrutura da RCC. “Nesses 45 anos que eu estou na Renovação, muitas graças aconteceram e continuam acontecendo. Agora, por exemplo, recebi outra graça, vou representar nossa diocese, no estado de São Paulo, num encontro com o papa, na semana que vem. O papa está fazendo uma reestruturação na RCC. A Renovação cresceu demais no mundo inteiro, e muito rápido. E havia duas organizações representando a RCC no Vaticano. Elas agora vão se unir. Charis, que vem do grego carisma, um novo organismo de serviço, unindo as duas. Um novo estatuto, novas realidades. Nova maneira de se organizar através de serviço, não através de poder. Não tem mais presidente, secretário. Passou a ser uma organização humana. A Renovação não tem um líder que manda, o nosso líder é o bispo, Dom Sérgio é o nosso líder, temos um diálogo permanente do grupo com ele e caminha-se junto. O papa vai homologar esse estatuto e vamos ter quatro dias de retiro com ele, no Vaticano. E eu recebi a graça de ser convidado”, afirmou.
Para Joca, esse novo olhar para a RCC se deve ao fato de a maioria dos grupos estar, de certa forma, acomodada. Ele defendeu que é preciso ir ao encontro dos mais necessitados. “A Renovação Carismática Católica é o Samu espiritual para a Igreja de hoje. Uma das inspirações e missões da RCC é evangelizar e não “invangelizar”. Evangelizar é você ir ao encontro do outro. O papa está dizendo isso desde que ele começou. A Saída da Igreja. Não é sair da igreja, mas sair em igreja. Você ir atrás, ao encontro dos doentes. Acredito na RCC como um Samu espiritual, por que quem que vai atender o que está arrebentado? Não é o cirurgião que está no hospital, não é o especialista que está no consultório. É o Samu. Esse doente que precisa do Samu não tem condição de chegar ao hospital sozinho, o Samu tem que ir até ele. Assim é com a gente, o espírito santo tem que ir até as pessoas. A Renovação, de certa maneira, começou a ficar ali nos grupos de orações, com as mesmas pessoas, os mesmos pregadores. E agora o papa está chamando a atenção a alguns pontos”, detalhou.
Esses pontos serão abordados durante o encontro com o papa no Vaticano. Um deles, apontou Joca, é o batismo do espírito santo, que é uma atualização do batismo sacramental. “É uma experiência pessoal da ação do espírito santo na vida da pessoa e que é transformadora. E é uma experiência pessoal. Não adianta você falar qual o gosto da laranja pra outra pessoa, ela tem que experimentar”, disse.
Outra questão que será debatida é a ecumênica. “O papa está batendo muito forte, dialogando muito e colocou dentro do próprio estatuto a missão ecumênica, porque o espírito santo é o espírito da unidade”, reforçou Joca.
Um terceiro assunto a ser abordado é a oração. “Estamos numa sociedade altamente automatizada, imediatista, onde queremos todos os resultados já e agora. A quantidade de informação que a nossa juventude tem é impressionante e não sabe lidar com essa informação, então, nós ficamos olhando muito para fora e deixamos de refletir, de ter discernimento. Um dos dons carismáticos é o discernimento”, observou.
Assim, Joca declarou que essas são algumas direções que o papa colocou no próprio estatuto do Charis e acredita que “isso vai novamente mexer com toda a estrutura que existe hoje”. Ele também acredita que esse novo olhar vai propiciar um resgate da missão da RCC. “Ir ao encontro do pobre, do miserável, do arrebentado, do drogado, das pessoas que estão passando por dificuldade de depressão, da família, então, o espírito santo está agindo. De certa maneira, com o tempo, a Renovação Carismática começou a ficar dentro da igreja e não fora dela. A nossa missão é fora dela. Pegar o arrebentado e levar para o hospital, que nós chamamos de igreja, paróquia, diocese, aí o especialista, os sacerdotes, os catequistas vão fazer a sua parte”, concluiu.
Para os que tiverem interesse de conhecer mais sobre o trabalho da RCC, basta procurar uma paróquia e pedir informações. A maioria conta com grupos de oração semanais.
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