Acordou naquela manhã indisposta, garganta arranhando, mesmo depois de várias sessões de inalação caseiras, às quais sempre recorria, especialmente no outono, com todas as suas mudanças de temperatura repentinas.
Acordou com medo, e se fosse covid? O medo era agora parte da rotina, e talvez esse vírus tenha mesmo vindo nos lembrar sobre nossa vulnerabilidade. Hoje estamos, amanhã... quem sabe?
No fundo, ela sempre vivera sua vida muito consciente dessa nossa realidade transitória, por isso, talvez tenha sido tão intensa em tudo que viveu. Defeito? Qualidade? Uma característica sua, e tão levada a sério, que jamais deixou uma roupa guardada para ocasião especial. Era comprar, lavar e usar. Afinal, em sua cabeça, ainda que nem todo dia traga consigo alguma boa surpresa, o simples fato de poder desfrutar desse dia já é em si uma dádiva. E presentes... ah... presentes a gente trata é de usar logo, inclusive para mostrar à pessoa que nos deu que gostamos.
Todo dia era esse seu pensamento: preciso viver esse dia de maneira a mostrar a Ele o quanto aprecio essa oportunidade.
Naquele dia, não foi diferente. Mais preguiçoso que os demais, sim, certamente, mas nem o nariz congestionado, nem a garganta inflamada a impediram de viver o dia, que seguiu seu curso com uma visita ao médico. Uma manchinha no pulmão direito, mas não, não era pneumonia. Aliás, essa palavra sempre a remete à infância, quando por conta de uma pneumonia ficara internada por uma semana. Semana muitíssimo produtiva aquela, já que ficara ouvindo histórias inventadas pela mãe a fim de distraí-la. Talvez daí seu apreço pelas palavras e histórias que residem em cada um de nós.
Teste negativo para Covid. Ufa... pensou ela, mais uma vez me safei.
Afinal, em que onda estamos? Parece que é chegada mais uma, não é mesmo? Quarta? Quantas ainda virão? A quantas sobreviveremos? Ao menos já estamos vacinados, os sintomas são mais leves.
O que não se torna mais leve é o fardo de sermos humanos. O que não se torna mais leve é o fardo de sermos brasileiros e estarmos vivendo dias horrendos.
O preço do óleo não está mais leve. O preço do gás não está mais leve. Do combustível, da carne...
Tem brasileiro se alimentando de sopa de ossos, pensava ela, enquanto devorava o prato de comida, sob a desculpa de precisar se alimentar melhor por estar doente.
O Brasil está doente. E quantas ondas ainda se abaterão sobre ele, até que lhe seja encontrada a cura?
Ela aguarda pela chegada da próxima, e da próxima e da próxima onda, enquanto escreve esse texto um tanto passional. Mas que sejam ondas de lucidez, ondas de mudança, ondas de humanidade!
E, enquanto elas não veem, que sigamos cuidando uns dos outros, absolutamente cientes de que o dia de hoje é um presente.
0 Comentários