Dos vários distritos que compõem a complexa capital japonesa, um costuma exercer um fascínio especial sobre os visitantes, digamos, um pouco mais consumistas: Ginza (lê-se “Guinza”).
Isso porque Ginza é considerado o ponto “chique” de Tóquio: o lugar, por exemplo, de marcas famosas como Chanel, Gucci, Hermes e afins... Parada obrigatória, enfim, para a turma com um “bom trocado no bolso”. Não faz muito tempo, inclusive, a seleção brasileira de futebol, aproveitando um amistoso com os samurais azuis, resolveu dar um passeio nas imediações: fato flagrado pela câmera indiscreta de um de meus colegas de trabalho, que, tão logo me viu, veio correndo avisar: Sabe quem acabou de passar aqui em frente do nosso prédio? O Neymar! Informação esta que eu, somente pelo fato de ser brasileiro, tive de receber fingindo entusiasmo...
Mas de volta ao tema “Ginza”, o que talvez poucos saibam é que, apesar dessa fama de chique, Ginza, na verdade, tem uma origem nada nobre. A palavra “gin” significa “prata”, pois foi no referido distrito que se começaram a cunhar moedas (de prata, logicamente) para circularem por um país ainda em formação. No início do século XVII, porém, quando começou a produção dessas moedas, Ginza ainda se chamava Shin-ryogae-cho e era habitada principalmente por artesãos, mercadores e agiotas, considerados a classe social mais baixa do período – isso porque se tinha então o pensamento de que as referidas profissões, ao contrário dos agricultores, não produziam bens essenciais à sociedade japonesa.
O “status pobre” de Ginza somente começou a mudar por volta de 1715, quando uma poderosa família conhecida como “Goto” mudou-se para onde hoje se localiza Ginza 1-Chome (Distrito UM de Ginza). Respeitados pela elite japonesa da época, os Gotos, exímios fabricantes de katanas (espadas), começaram a atrair outras famílias abastadas para consumirem nas lojas de Ginza. E foi assim que o antigo “bairro dos rejeitados” tornou-se o “ponto comercial dos ricos”: imagem preservada até os dias de hoje.
Bom, essa é a história oficial. Mas, conversando outro dia com um aluno que cresceu nos arredores de Ginza, este me revelou detalhes um pouco mais sórdidos desse “conto de fadas” do referido distrito. Segundo ele, a história de Ginza estaria atrelada à máfia local, que, nos tempos pobres do bairro, dava proteção aos mercadores. Havia sido, portanto, a Yakuza (ou algo do gênero) a responsável por permitir que a elite da época “descesse” para comprar em Ginza. Algo nos moldes do “chefão do morro”, figura com a qual já estamos acostumados no Brasil.
Não duvido da história contada por meu aluno. Afinal de contas, não é de hoje que dinheiro e crime passeiam de mãos dadas por estradas de tijolos dourados.
Então, caros leitores, toda vez que vierem a Ginza, achando que desfilam por uma “Tóquio superior”, lembre-se de que Cazuza estava certo: e de que nem todo o chanel do mundo conseguirá disfarçar o fedor da burguesia.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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