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Geral

A pedagogia da impunidade

Orelha não morreu apenas como um cão. Morreu como símbolo. Símbolo de uma juventude rica, entorpecida pelo privilégio, que brinca de ser Deus porque nunca conheceu o peso real de uma consequência. Orelha foi vítima de um jogo sujo em que pais se tornam cúmplices, passadores de pano profissionais, incapazes de ensinar decência, limites ou respeito. Ao contrário: escondem o crime, ameaçam o porteiro que viu tudo, e transformam a violência em rotina doméstica.

Esse episódio, microscópico em escala, é um retrato fiel de um macrocosmo perverso: uma elite que acredita estar acima da lei, que confunde poder com imunidade e que educa seus filhos a repetir a mesma lógica podre. Não é generalização – é constatação. Há exemplos sólidos que ecoam como cicatrizes na memória coletiva: a morte brutal do índio Galdino, queimado vivo por jovens de classe alta em Brasília; o espancamento covarde de moradores de rua, tratados como lixo humano; os estupros em festas de ricaços, onde a violência é mascarada de diversão; as meninas assassinadas em Pernambuco, com a culpa convenientemente jogada sobre perueiros, quando na verdade estavam na casa de abastados.

Cada caso é uma peça de um mosaico vergonhoso: a pedagogia da impunidade. Pais que deveriam ser espelhos de ética se tornam instrutores de cinismo. Filhos aprendem que dinheiro compra silêncio, que ameaças apagam testemunhas, que a vida dos outros vale menos que o status herdado. Orelha, o cão, é só mais uma vítima dessa engrenagem. Sua morte não é apenas a morte de um animal – é a prova viva de que a elite, quando se recusa a respeitar limites, mata símbolos, pessoas, histórias.

E o mais cruel é que, enquanto a sociedade se indigna por alguns dias, eles seguem brindando em suas varandas, ensinando aos filhos que tudo pode ser apagado com um advogado caro e uma ameaça bem direcionada. Orelha não morreu sozinho. Morreu acompanhado por Galdino, pelas meninas de Pernambuco, pelos moradores de rua espancados, pelas jovens violentadas em festas. Todos eles, diferentes em contexto, iguais em significado: vítimas de uma elite que se julga eterna, mas que carrega em si o germe da própria decadência.

Paulo Bressane é historiador, pedagogo e mestrando em Políticas Públicas em Educação.

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