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SUB-VERSÃO

A Menina-borboleta

Era preciso educar almas, mas como fazê-lo se o corpo, essa casca que as resguarda a salvo do mundo encontra-se tão fragilizado a ponto de roubar-lhes a energia, a atenção, a própria capacidade cognitiva?

Essa dualidade corpo/alma nunca se mostrou tão clara quanto naquele dia em que a encontrei: A Menina-borboleta, foi assim que decidi chamá-la, primeiro com o intuito de preservar-lhe a identidade, depois, porque metáfora mais adequada não havia; ela era frágil como uma borboleta, mas guardava consigo a força e a coragem necessárias para a metamorfose que antecede o voo libertador.

Residente da zona rural, a Menina-borboleta já chegava cansada na escola. Tinha de acordar muito cedo, tamanha era a distância de sua casa até a escola. Trajeto difícil, impossível em dias de muita chuva.

Engana-se quem pensa que as distâncias nesse país foram encurtadas, quando se trata de educação. O caminho ainda é muito dificultoso e repleto de entraves. E a Menina-borboleta quase sempre o fazia de estômago vazio. Não dava para ouvir a barriga roncando, o barulho se misturava às vozes animadas dos outros estudantes que comiam e também ao barulho do motor do velho ônibus escolar.

Ela concentrava-se nesses outros, numa tentativa de usá-los para abafar o que sua barriga infantil produzia. E sonhava...

Sim, a Menina-borboleta ousava sonhar. Nos seus sonhos, ela era livre e quase sempre havia muita comida. E não havia nunca, nunca mesmo a presença do padrasto. Uma das vantagens de sonhar é permitir-se imaginar só aquilo que nos agrada, nosso mundo particular e ideal.

Nos sonhos da Menina-borboleta, sua barriga não doía, nem doía lá embaixo também. Em seus sonhos, ela não precisava lavar-se toda vez depois que o padrasto entrava em seu quarto, nem chorar baixinho para a mãe não ouvir.

Nos sonhos da Menina-borboleta, nem dor havia. Era só comida, alegria, e quase sempre a presença reconfortante da Professora Maria, sua favorita.

Um dia, enquanto sonhava, vencida pelo sono que a fome e a fraqueza podem causar, ela sofreu sua redentora metamorfose.

Numa curva fechada da estrada, o motorista perdeu-se. A menina franzina, que não usava cinto de segurança (ninguém de fato usava), foi arremessada contra o pára-brisa do veículo.

Viveu feito borboleta, uma vida frágil e breve. Morreu feito borboleta também, estatelada contra a força e a crueldade impostas pela vida, sempre injusta vida!

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