Esperança
Mário Quintana
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...
Essa menina... ah, essa menina! Tão graciosa e sagaz, de uma vivacidade incrível. Sempre menina. Sempre necessária. E como eu gosto de brincar com ela, contar-lhe meus segredos, porque estar em sua companhia é como respirar ares de surpresas agradáveis e belas.
Estou sempre com ela, e na maioria das vezes, quando não nos entretemos com as flores ou algum pequeno inseto que as visita, estamos mesmo é falando da vida.
A vida que se renova e insiste em ser vida, apesar das ameaças de morte iminente. E viver, como diria o genial Guimarães Rosa, ah... viver é muito perigoso! Deliciosamente perigoso, ouso acrescentar. É preciso grandes doses de ousadia para essa travessia, é necessário exercitar a paciência, o “logus”, mas também o descuido do amor. Que a gente é feliz mesmo é nesse descuido.
E ter na consciência a ideia bem clara de que tudo isso aqui, toda nossa pretensiosa existência não passa de um sopro, uma baforada leve e quente do Altíssimo. Que então seja leve e quente e doce, como costumam ser as palavras daqueles que se amam.
Que a esperança, essa menina encantadoramente travessa, venha sempre brincar no nosso quintal, que ela nunca encontre travas nas portas da nossa alma, para que nos ofereça a fé de dias melhores e mais felizes.
Sempre criança, como nós também devemos ser, como Ele nos ensinou a ser, com o espírito tranquilo daqueles que em si mesmos nada reconhecem de valor, mas que encontram no Amor um tesouro oculto.
E sigamos a travessia-sopro partilhando amor em cada gesto e com todos, porque são todos nossos semelhantes, co-participantes da graça da vida, tão breve e tão arrebatadora.
Enquanto vos escrevo ela sussurra em meu ouvido que talvez já seja hora de brincar de novo, ela é mesmo insistente nisso. Ela está completa de razão nessa sua insistência pueril. E então, vos convida para brincar conosco também. Brincadeira simples, coisa de criança. Simples travessia, que nada exige além de espírito e alguma inocência. Quer brincar conosco?
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