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SUB-VERSÃO

A lição da arnica

O alaranjado dos tijolos da imponente construção contrastava lindamente com o azul do céu daquele dia de intenso calor. Estava na cidade de Itu, passeio de férias, e um dos locais a serem visitados era a Fábrica São Luiz, a primeira fábrica a vapor do estado de São Paulo, hoje, um belíssimo espaço histórico, onde são realizados diversos eventos, como feiras e casamentos.

Mais quente que o dia, só mesmo minha perna esquerda, a panturrilha marcada por uma enorme roda vermelha e latejante, resultado de uma reação alérgica à picada de um inseto, dias antes. Inseto, sim, porque infelizmente não tive o prazer de encontrá-lo após esse furtivo momento que tivemos, ele com seu ferrão e eu com uma dor lancinante.

Estava num café, no centro da cidade, quando, de repente: - Ai, que dor! Alguma coisa me picou! E um arrepio tomou meu corpo inteiro. Nossa! Que dor!

Giro meu corpo para trás a fim de enxergar melhor a cena do crime, e lá estava ele, um ferrão, que rapidamente tratei de retirar. Feito um amante apressado, pouquíssimo sensível, aquele ser, cujo nome não cheguei a saber, havia ido embora, sem nem ao menos se despedir, deixando em minha pele parte de si e um veneno poderoso.

Deixei o ferrão em cima da mesa do café, não me perguntem o motivo. Acho mesmo que por conta da raiva que senti, como se o estabelecimento tivesse alguma culpa pelo incidente e pela inexplicável atração que exerço sobre abelhas, vespas e afins. Sim, não é a primeira vez que sou atacada durante uma viagem.

Segui caminhando, como costumo fazer e bastante durante viagens. Uma parada na farmácia: - Moço, alguma coisa acabou de me picar e acho que sou meio sensível. A essa altura, a vermelhidão já aumentara e vez por outra sentia como se estivesse novamente sendo visitada por meu amante. O que eu posso tomar pra não piorar?

Antialérgico comprado. Água, comprimido goela abaixo. Não costumo tomar remédios, mas confesso que senti algum medo, tava feio demais. Três vezes por dia, por sete dias. Entendido.

Segui viagem, afinal, um serzinho tão pequeno, ou pelo menos era isso o que eu supunha, não iria atrapalhar minhas andanças. Parava de vez em quando para coçar, era impossível não fazê-lo; colocava a garrafinha de água gelada e sentia algum alívio. Percebia um ou outro olhar assustado.

Mas o alívio só viria mesmo na Fábrica São Luiz, onde entrei receosa, sem saber ao certo até onde podia ir, até que uma voz me questionou: - Você já foi até lá o fundo ver as caldeiras, moça? Ao que respondi: - Não. Pode? Não sabia se podia entrar lá, e sorri.

- Pode sim.

Na volta, lá estava ela novamente, interessada agora em saber se havíamos gostado do espaço, eu e minha amiga. E como não gostar? Estávamos diante de um cenário histórico.

Não sei ao certo por que fui na sua frente, me dirigindo à saída, ainda apreciando a beleza do pátio da fábrica e o contraste belíssimo que sua cor promovia com o céu mais azul que já vira. E isso foi o suficiente para que ele notasse minha perna.

- Moça, o que picou sua perna? Foi aranha?

- Não, aranha, não. Acho que foi uma abelha, porque retirei um ferrão, respondi de pronto, enquanto meu cérebro, tomado por certo medo,  raciocinava, emburrecido,  tentando me convencer:  “É... aranhas não deixam ferrão, né?”.

Ela se abaixou, olhou mais de perto. - Tem certeza?

- Tenho. A essa altura, já não tinha, e meus professores de ciências que me perdoem por isso.

- Mas tem umas bolinhas, né? Olha só... (Mostrando para minha amiga)

- Você não quer passar arnica? É muito bom, eu tenho aqui!

- Eu quero! Mas não vou atrapalhar a senhora?

- Não, de jeito nenhum.

Assim que passei a solução de arnica na perna, um alívio tomou conta de mim. Imediatamente, a auréola que se formara em torno da picada diminuiu de tamanho. Impressionante!

Mais impressionantes ainda foram a gentileza e a generosidade daquela senhora, compartilhando com uma estranha seus conhecimentos e a cura que só a natureza é capaz de oferecer.

Além do alívio imediato, ainda levei para o hotel uma garrafinha com o conteúdo bendito, a fim de seguir reaplicando-o, e vários galhos da planta, a quem ela cuidadosamente me apresentou e arrancou dos vasos cultivados por ela mesma. Ah, e a receita também, que já está curtindo aqui em casa.

O Altíssimo é mesmo muito cuidadoso comigo, providenciando alívio através de pessoas tão incrivelmente sábias e generosas quanto aquela senhora.

Essa situação me ensinou que a dor é momentânea, mas o zelo e o cuidado dELe para conosco são perenes.

Nunca vou me esquecer da visita à Fábrica São Luiz, nem do poder dessa planta maravilhosa chamada arnica, que eu só conhecia em pomadas, e que aquela senhora cujo nome não sei, mas que estará sempre em minhas preces, me apresentou em sua forma mais autêntica e natural.

Pretendo voltar lá um dia e agradecê-la direito, pretendo também levar um vidrinho com a solução nas próximas viagens. Não pretendo revisitar o café, desculpem.

Hoje, mais de uma semana depois da picada, minha perna ainda tem uma manchinha, pasmem, mas nada de inchaço ou coceira. Devo mesmo ser mais sensível a incrivelmente atraente para esses serzinhos. Em contrapartida, sou infinitamente grata e amada por Ele!

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