Tenho sido estrangeiro há quase duas décadas. Ou, provavelmente, a vida toda, se forem considerados os muros e os preconceitos existentes entre as regiões brasileiras: afinal de contas, que levante a mão o amazonense que, em algum momento da vida, não escutou a palavra “índio” sendo proferida pejorativamente por naturais de outros estados do Brasil (principalmente os do sul e do sudeste).
Seja como for, o fato é que, oficialmente, tenho sido estrangeiro, no sentido estrito da palavra, desde que comecei a morar no Japão, em dois mil e um. E, aqui, claro, como todo imigrante em qualquer parte do mundo, também já fui alvo de preconceitos em relação a minhas origens (a denominada “xenofobia”). Mas nem sempre, vale frisar, tais comportamentos xenófobos foram motivados pelo ódio: às vezes, a ignorância também fez com que até pessoas gentis fossem preconceituosas sem perceber. Explico dando-vos um exemplo. No Japão, há o termo “Gaijin”, originado da palavra “Gaikokujin”. Gaikoku significa, literalmente, “país de fora”; e jin, “pessoa”. Gaikokujin seria, portanto, “pessoa estrangeira”. Até aí, tudo bem. Ocorre, porém, que, quando a palavra “koku” (país) é suprimida, o vocábulo “gaijin” torna-se, simplesmente, “pessoa de fora”. E, se o termo é usado pela maioria sem se dar conta do preconceito, há também o caso de alguns japoneses que, conscientes, usam o termo “gaijin” realmente para ferir: passando a mensagem de “você, estrangeiro, não pertence à nossa sociedade”. E isso dói. A exclusão sempre dói.
Por outro lado, para ser justo, o Japão pode até ser considerado um país de “xenofobia mais sutil”. Já escutei relatos de estrangeiros na Europa e nos Estados Unidos que são mesmo agredidos fisicamente. Aqui, para falar a verdade, não se chega a tal ponto. O povo japonês preza pela harmonia: raramente veremos loucos ultranacionalistas tentando bater em um estrangeiro nas ruas. Infelizmente, o oposto (estrangeiros agredindo e até assassinando japoneses) já ocorreu mais vezes. O que, porém, presencio muito aqui – e este dado é até cômico – é o “nariz sensível” dos japoneses em relação ao “odor do estrangeiro”. Certa vez, um chefe disse-me que um colega reclamava do meu cheiro (detalhe: eu era o único estrangeiro no escritório). Estranhei aquela reclamação: uma vez que, como é hábito brasileiro, sou do tipo que toma muitos banhos ao dia (talvez até mais vezes que o colega que reclamou!). O mais irônico, porém, foi que o patrão que veio falar-me isso tinha um odor de tabaco e um hálito insuportáveis. Mas nem por isso desmaiei. Enfim, somente pude concluir, naquele momento, que eu era alvo de uma “sutil xenofobia”. Não obstante, relevei a ofensa. Afinal, recordei que, como muitos brasileiros, também já ri, em rodas de amigos e familiares, das piadas a respeito dos aspectos físicos dos japoneses. E, tratando tais piadas como “algo inocente”, também ali tive – tal qual o meu colega de olfato sensível – minha parcela de imperdoável preconceito. Ah, mas alguns dirão que os dois casos não podem ser comparados: e que a piada é realmente algo “leve”, sem maldade... Vejamos, então: leve xenofobia? Ora, isso não existe! Pois xenofobia, caros leitores, sempre terá um peso esmagador sobre a alma de quem a sofre.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de trezentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor dos livros “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto Espaço” (2012), “No mínimo, o Infinito” (2013), “Filho da Floresta” (2015), “Trovas escritas no tronco de um bambu” (2018) e “Gotas frias de suor” (2018). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases). Em novembro de 2019, foi o vencedor, na Espanha, do 13º Concurso de Microcontos do Festival de Cine Terror de Molins.
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