Fotos:Guaíra Maia/ISA
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Meio Ambiente

A importância da visibilidade indígena no Brasil

“Quando você nasce como indígena, você já nasce com o desafio de defender seus direitos, de preservar sua cultura e defender seu meio ambiente”.

A fala é de Oreme Ikpeng, jovem ativista ambiental, técnico em agroecologia e também indígena do povo Ikpeng.

De acordo com os dados do Censo 2010, realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Brasil possui 896.917 pessoas que se declaram indígenas. Essa população se divide em 305 etnias e fala ao menos 274 línguas, podendo estar tanto na cidade quanto no campo ou nas aldeias. Esses dados apresentam, de forma explícita, a complexidade da realidade indígena no país, contrariando a visão errônea que os generaliza enquanto passado e a uma coisa só.

Pensando justamente nessa diversidade, foi criado o Dia Internacional dos Povos Indígenas, em 9 de agosto. A data, que vai muito além de uma mera comemoração, também é considerada um dia para celebrar a resistência dos diversos povos indígenas do Brasil, que assim como afirmam as palavras de Oreme, seguem lutando por direitos inerentes à sua existência, como a demarcação de terras, a inclusão na sociedade e a preservação ambiental e cultural de seu povo.

Oreme Ikpeng tem 28 anos e vive na Moygu, uma das 120 aldeias localizadas no Parque Indígena do Xingu (MT), que atualmente abriga cerca de oito pessoas de 16 diferentes povos e que falam pelo menos 16 línguas distintas entre si. Antes de viver ali, o povo Ikpeng ocupava a região dos rios Jatobá e Batovi, afluentes do rio Xingu. Porém, devido às doenças e ameaças de garimpeiros que invadiam a região, os Ikpengs acabaram sendo transferidos para o Parque em 1967, três anos após o primeiro contato com os não-indígenas, e fundaram a aldeia Moygu, em 1985. Com isso, sua antiga região se tornou alvo de fazendeiros e desmatamento, o que só reforça o desejo de muitos deles de recuperarem a terra da qual são originários e possuem direito.

No início, Oreme conta que sua família queria que ele trabalhasse na área da saúde, devido às necessidades da aldeia, porém, o que sempre chamou a atenção do jovem Ikpeng foram as questões sociais e de políticas públicas. “Alguma coisa me falava que em um futuro próximo precisaríamos de mais ativistas, defender mais o meio ambiente e o direito dos povos indígenas”, explica. Com apenas 16 anos, Oreme participou pela primeira vez de um curso de agente socioambiental, depois se formou em técnico de agroecologia e, desde então, vem se destacando na área. Já participou de muitos projetos, iniciativas, seminários, conferências, etc., em prol da preservação ambiental e direitos dos povos indígenas.

Uma das iniciativas em que sua atuação se destaca é a Rede de Sementes do Xingu, da qual Oreme é técnico há mais de dez anos e trabalha com o reflorestamento de áreas degradadas por meio da comercializa-ção de sementes e plantio de árvores. Tudo começou graças à busca de uma solução para o desmatamento desenfreado que acontecia nas nascentes e cabeceiras do Rio Xingu, e após 16 anos de existência, a iniciativa cresceu muito. Um de seus frutos foi a formação do grupo de mulheres coletoras de sementes Yarang, que Oreme acompanha desde o início, realizando a triagem das sementes que chegam da coleta.

MAWO - CASA DE CULTURA IKPENG

Além de todas as funções citadas, Oreme também é arquivista da base de dados da Mawo – Casa de Cultura Ikpeng, inaugurada na aldeia Moygu em 2010, em parceria com o Instituto Catitu – Aldeia em Cena. Pensando na importância de preservar a cultura Ikpeng e de fazer com que os próprios indígenas possam contar sua história, a Mawo é um espaço onde trabalham realizadores e cineastas indígenas, com computadores com banco de dados na língua Ikpeng em que ficam armazenados arquivos de vídeo, áudio, fotos, etc., que auxiliam as novas gerações a conhecerem e preservarem sua cultura. Isso se torna muito necessário tendo em vista a perda de pessoas mais velhas que possuem conhecimento de seus costumes ao longo dos anos. Atualmente, o banco de dados da Mawo está parado enquanto o local busca apoio para realizar a manutenção dos computadores e voltar com as atividades.

O QUE A HISTÓRIA NÃO CONTA

Muitos dos estereótipos a respeito não só dos povos indígenas, mas também de outras minorias, acontecem por causa da visão colonial e racista que se arrasta há muito tempo no Brasil. Basta olhar para os livros de história para perceber que, na grande maioria das vezes, os acontecimentos não são contados pelo ponto de vista das pessoas negras ou indígenas. Por esse motivo, Oreme também pontua a razão pela qual defende não apenas a bandeira do seu povo e do meio ambiente, mas de todas as minorias.

“A gente vê monumentos e museus em homenagem aos heróis nacionais. É como se nós indígenas e negros fossemos os vilões e eles os heróis de verdade. Mas na verdade eles são os vilões e nós somos os heróis, porque estamos resistindo até agora “, conclui Oreme.

INDICAÇÕES: VALORIZANDO VOZES INDÍGENAS

Livros: “Ideias Para Adiar o Fim do Mundo” (Ailton Krenak); “A Queda do Céu” (Davi Kopenawa e Bruce Albert); “A Cura da Terra” (Eliane Potiguara);

Música: Katu Mirim; Kunumi MC;

Filmes: Instituto Catitu; Vídeo nas Aldeias;

Informação: Rádio Yandê; APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil); ISA (Instituto Socioambiental); Mídia Índia.

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