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Crônicas de um Sol Nascente

A Hora do Espanto

No dia oito de julho de 2022, ao ligar a tevê, voltei deliciosamente ao passado. O motivo? Estava sendo exibido “A Hora do Espanto” (título original: Fright Night). Os leitores mais jovens certamente conhecem apenas o remake de 2011, e devem estar se perguntando sobre o porquê de um “filme de vampiros” merecer esse frisson da parte do cronista. E a explicação não tem, de fato, nada de especial: somente porque esse “A Hora do Espanto”, o original de 1985, acabou marcando muito minha pré-adolescência. Não pelo roteiro em si, que era simples (ainda que cativante): um jovem estudante desconfia que o seu vizinho é um vampiro – e descobre que, sim, a suspeita tem fundamento. Mas, prosseguindo, direi agora porque esse filme foi tão importante naquela fase de minha vida. Porque foi para vê-lo que adentrei pela primeira vez uma sala de cinema – eu tinha então dez anos de idade, estando, portanto, impedido de entrar em filmes de terror (e somente consegui fazê-lo graças ao meu irmão mais velho, que, vendo a cara de decepção do caçula, convenceu o bilheteiro). E valeu a pena o esforço, pois, naquele ano, o sucesso de “A Hora do Espanto” foi mesmo estrondoso: a ponto de as discotecas da época oferecerem, à entrada, “caninos de borracha” para a juventude ir dançar ao som da música-tema do filme. Enfim, uma verdadeira febre entre os jovens de então. E, no meu caso, foi também por meio do referido filme que tomei gosto pela escrita de terror: uma paixão que mantenho até hoje e que já me deu mesmo algumas grandes alegrias; como, por exemplo, vencer o “Festival de Cine de Terror de Molins de Rei”, na Espanha, em 2019.

Ufa! Sei que o parágrafo anterior foi longo. Mas eu precisava explicar em detalhes por que rever “A Hora do Espanto” trouxe-me tanta nostalgia. Porém, como observaram no início do texto, fiz questão também de registrar a data em que assisti novamente à obra vampiresca: oito de julho de 2022. Isso porque, naquele mesmo dia, o Japão também vivenciava a sua própria “hora do espanto”, por meio do chocante assassinato do ex-primeiro-ministro Shinzô Abe. Um choque que, como sabem, acabou se propagando para o restante do planeta, deixando-nos a todos com uma pergunta: como isso pôde ocorrer em um país em que o número de assassinatos por armas de fogo, entre 2017 e 2022, foi “apenas” nove (comparado aos mais de trinta mil dos Estados Unidos no mesmo período)? E, claro, ficamos (e continuamos) sem resposta para tal indagação. Como também ficamos sem respostas nem palavras adequadas diante das muitas outras barbaridades que as notícias têm nos trazido cotidianamente. E a lista é imensa: crianças mortas pelos próprios pais; líderes religiosos violando fiéis; anestesistas violando pacientes; entre outras monstruosidades. Eu escrevi “monstruosidade”? Errei. Porque os monstros que aprendi a adorar nos filmes de terror são muito mais sensíveis e éticos do que essas “coisas” da vida real... fantasiadas de seres humanos.

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal, é autor de dez livros, sendo o mais recente Contos de um Brasil Esquecido, lançado pela Editora Folheando (Pará), e finalista do Prêmio Uirapuru. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

 

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