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Olhar Social

“A história que a história não conta”

“15 de julho de 1955 – aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia comprar um par de sapatos para ela. Mas o custo dos gêneros alimentícios nos impede a realização dos nossos desejos. Atualmente somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar”.

Esse é o relato de Carolina Maria de Jesus (nascida em 14/03/1914 em Sacramento/MG; falecida em 13/02/1977 em São Paulo) em seu registro diário presente no livro “Quarto de Despejo: diário de uma favelada”, publicado no Brasil em 1960 e traduzido ao menos para dezoito idiomas. Mulher negra, mãe solo, favelada, escritora, intelectual, que merece destaque – como tantas outras personalidades negras, que não foram devidamente reconhecidas e prestigiadas ao longo de nossa história, fruto do racismo estrutural, que assola esse país e alimenta uma abissal desigualdade racial. 

A narrativa da autora, que conta sua luta cotidiana pela sobrevivência, retrata o racismo, a fome, violência, abandono, dor, preconceito, desemprego e toda forma de flagelo vivido por quem se encontra em condição de pobreza e miséria, intensificada pelo componente racial. Sim, a pobreza (e suas manifestações) têm cor! 

Seus primeiros escritos, em papéis retirados do lixo, retrata um país que poderia fazer parte dos dias atuais, rememorando o 20 de novembro – Dia da Consciência Negra, quando relembramos o assassinato de Zumbi dos Palmares, ocorrido em 1695, e toda sua história de luta e resistência contra a escravização do povo negro. Luta que se estende aos dias atuais, não se resume ao dia 20 e é de toda sociedade.    

É difícil –  ou melhor, impossível –  não haver consequências, graves e estruturais, da escravização do povo negro no Brasil atual, sobretudo reconhecendo que a “abolição da escravização”, que vigorou por mais de 300 anos, seguiu pela ausência de qualquer forma de reparação, apoio, políticas públicas, que permitissem a esse povo acesso às condições mínimas e dignas de vida. É importante que se diga que o Brasil recebeu o maior volume de africanas e africanos escravizados, cerca de 5 milhões, e conta hoje, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2019, com 56,2% de brasileiros pretos e pardos, em sua somatória.  

Tratados como mercadoria, os negros protagonizaram inúmeras rebeliões, enfrentamentos e resistências em prol da abolição, “história que a história não conta”, como dizia o samba-enredo da Mangueira de 2019 ao narrar as “páginas ausentes dos livros de história”; os donos do poder, por outro lado, resistiram até o último momento em reconhecer essa liberdade. Não à toa, fomos o último país ocidental de tradição cristã a abolir a escravidão e acumulamos, em nossa história contada, mais tempo como um país escravizador do que país livre e digno para todos!

Nesse sentido, a exclusão do povo negro atravessa os séculos e se manifesta no Brasil atual quando identificamos a realidade dramática e perversa que essas pessoas ainda enfrentam. São elas as maiores vítimas da violência, desemprego e empregos precarizados, a viverem em condições de subsistência e moradia insuficientes, detentoras dos menores níveis de renda e escolaridade, entre outros, cujos indicadores sociais que podem ser consultados nos institutos de pesquisa do país. A pandemia agudizou uma realidade que é estrutural – não à toa, a população negra foi a mais atingida, acometida e afetada pela crise sanitária. É simbólico que a primeira morte “oficial” de Covid-19 no Brasil seja de uma trabalhadora doméstica negra do Rio de Janeiro!

Ainda que de forma lenta e tardia, políticas públicas de ações afirmativas e proativas buscam contribuir para reverter esse legado de abandono, marginalização e exclusão do povo negro, relegado e subjugado ao longo da história. A defesa, reconhecimento e importância das cotas étnico-raciais, por exemplo, é de todos nós, defendendo que uma sociedade justa e igualitária passa, necessariamente, pela superação de nossa desigualdade racial. 

Quando, de fato, a cor da pele em nosso país, efetivamente, não for mais um limitador de acessos, alvo de preconceitos, crimes e exclusão; quando for possível um país distinto do que viveu Carolina Maria de Jesus, ao permitir condições dignas para que as pessoas consigam realizar seus desejos. E como cantou a Mangueira no carnaval de 2019: no Brasil... “desde 1500, tem mais invasão do que descobrimento, tem sangue retinto pisado; atrás do herói emoldurado, mulheres, tamoios, mulatos, eu quero um país que não está no retrato”.

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo

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