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SUB-VERSÃO

À Henriette Effenberger

Quando uma mulher escreve,
espíritos ancestrais escrevem,
a negra, a índia, a virgem e
a prostituta escrevem com ela.
Quando uma mulher escreve,
a própria força motriz da vida se levanta,
a mãe natureza grita,
o útero generoso de onde nasceram todos os seres,
sangra.
Quando uma mulher escreve,
esteja certo disso,
não é só com tinta,
mas com sangue que ela macula o papel.

(Ana Raquel Fernandes)

Ainda me lembro do meu nervosismo ao encontrar-me pela primeira vez com ela, encontro esse que já havia adiado. Afinal, quem era eu diante daquela mulher? Uma pretensa aspirante à escritora, enquanto que ela, ela sim era dona de todas as palavras e seus encantos. Ela as sabia usar para a beleza, e não somente para a beleza, e talvez fosse isso o que mais me encantasse; ela as usava para tratar de chagas de nossa sociedade patriarcal, ela as escancarava com uma elegância que jamais havia visto. Até mesmo no nome já carregava uma espécie de elegância. Nome de escritora, pensava eu.

Sua literatura era intensa como ela, passional. Foi essa a mulher que encontrei sentada à mesa, sozinha, na sede da Ases, naquela noite. “Por que você não veio na outra reunião? Eu até cheguei mais cedo para poder recebê-la”, disse ela. Senti-me envergonhada pela minha falta de coragem, mas essa sua fala também aumentou minha admiração, afinal, uma escritora daquele porte dignar-se a me esperar... E foi aí que conhecei mais duas de suas muitas qualidades, a generosidade e a gentileza.

Henriette Effenberger, essa canceriana de coração generoso, é, de fato, uma das mulheres mais admiráveis que já tive o privilégio de conhecer. Escritora corajosa e talentosa, e o mais importante, um ser humano extraordinário.

Alguns anos se passaram desde esse nosso primeiro encontro, e confesso que vez por outra ainda me sinto constrangida em sua presença. Diante da grandiosidade de Henriette, sinto-me apenas uma menina aprendendo as primeiras letras, aprendendo também da vida e dos desafios que ela nos impõe. Me pego desejando ter a coragem e a força de Henriette, ser uma mulher à altura da que Henriette é.

Talvez ela não saiba, mas é uma inspiração para mim. Muito mais do que apenas escrever, o serviço que Henriette presta ao mundo é uma espécie de lembrete da necessidade de sermos autênticos, fiéis a nossos princípios, desejosos por justiça social e igualdade de oportunidades a todos.

Seu anel de tucum, companheiro inseparável, é ele próprio um lembrete, um sinal desse seu compromisso com o próximo. Sua risada, que sempre começa pelos olhos, é mais do que necessária em dias tão tristes como os que vivemos. Que ela continue a ressoar na Ases, e em todos os lugares por onde essa mulher maravilhosa passar.

Que a vida lhe retribua em sorrisos autênticos tudo o que você é, minha querida! Que venham ainda muitos livros (minhas lições de casa de aprendiz de escritora). Que venha logo outubro e que possamos comemorar juntas.

Enquanto isso, eu sigo sendo só uma menina absolutamente encantada, quando diante de uma escritora formidável, de uma mulher arrebatadora, de um ser humano absolutamente necessário.

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