É uma tremenda falta de respeito, repetia ela, mentalmente. Um absurdo! Inadmissível! Começou a gritar, enquanto as amigas tentavam, em vão, acalmá-la.
Cidinha sempre tivera gênio forte, característica essa que fez inclusive com que selecionasse sempre muito bem suas companhias. Era do tipo que não se misturava com qualquer um, não.
As amigas, essas que agora faziam de tudo para acalmá-la, sabiam bem disso. E havia até mesmo um certo orgulho e um ar de superioridade em cada uma delas por se saber escolhida a dedo por ela.
Cidinha era feminista, ativista, à frente de seu tempo, sempre antenada a tudo, possuía uma capacidade enorme de mobilização. As outras talvez não a compreendessem muito bem nesse seu espírito vanguardista e passional, mas ainda assim, deixavam-se encantar pela destemida colega.
Havia também quem julgasse suas atitudes exageradas. “Ela faz muito caso por pouco”, diziam algumas mais conservadoras. Cidinha não lhes dava ouvidos, até porque, para ela, conservadorismo agora era sinônimo de omissão ou, ainda pior, má índole.
O fato é que há tempos Cidinha vinha sentindo-se incomodada por aquela situação. E era jornal, revista, a TV virava e mexia noticiando... E Cidinha não suportava mais. Não suportava mais aquela situação completamente vexatória, tampouco a total apatia de suas colegas. Afinal, não estavam todas elas na mesma situação? Cadê a consciência de classe, gente? O que atinge a uma não atinge a todas?
E Cidinha sentia-se ultrajada por aquele desrespeito. Sempre fora honesta, trabalhadora, como é que ia agora admitir ter sua reputação vinculada à de um larápio qualquer?
Não, jamais!
Então, quando já não conseguia mais lidar com aquela situação infame, Cidinha articulou o movimento que posteriormente ficaria conhecido como o Levante das Laranjas Honestas.
Sim, Cidinha era um exemplar lindo da espécie das citrus sinensis e já não podia aceitar mais o fato de que seu nome popular sempre fosse atrelado a pessoas de má índole, usadas em situações inescrupulosas.
O último deles, sim, porque nesse nosso país já houvera vários, era esse tal de Queiroz. “Mas que inferno!”, pensava ela em seus gomos! “Que inferno esse homem ser chamado logo de laranja! Nós, laranjas, não merecemos esse insulto! Nós damos nosso suor para alimentar esse país, e agora me veem chamar esse cara de “laranja”, logo laranja? Como é que fica nossa reputação? O pessoal do varejão já está comentando, as mexericas já me olham torto faz tempo... E o que eu fiz para merecer isso?”
Não, não, isso não pode continuar assim.
E já se preparava para rolar do alto de seu monte, pondo em prática seu plano, juntamente com suas companheiras, quando de repente...
“Esperem! Seu Takashi ligou a TV!” – E elas todas se ajeitando para tentar enxergar alguma coisa na velha TV de tubo do japonês dono do horti-fruti.
“O quê? Ahhhhh, estão vendo só? Até que enfim foi preso! Queiroz o nome dele, ouviram? Queiroz! Vamos ver se agora vocês param de uma vez com essas brincadeirinhas bestas! Ele foi preso. Ponto final. Chega dessa história de laranja!”
O abacaxi, experiente em assuntos brasileiros como ele só, resmungou ao fundo: “ Coitada, Cidinha é mesmo muito inocente. Onde já se viu achar que acabou essa história de laranja, só porque um foi preso. Hello, Cidinha, aqui é Brasil, meu bem!”
O noticiário terminou, Seu Takashi, exausto de mais um dia de trabalho, desligou a TV, apagou as luzes e quase que pensou ter ouvido uma voz dizendo baixinho: “E vê se vão dormir, não quero mais ouvir falar em laranja!”
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