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A crise do pobre no neoliberalismo é ideológica

O capital está disfuncional, mas o capital não sofre. Quem sofre é o povo, a maioria, os pobres, a classe média (que pensa que é rica). Efetivamente, não vivemos mais em um capitalismo pós fordismo, no qual dava-se ao povo o direito que pleiteava como forma de evitar a revolução.

Isso porque a ideologia neoliberal está arraigada na concepção dos indivíduos, de tal sorte que passaram a, inconscientemente, não desejar a revolução. Tal fenômeno é fruto da pressão ideológica perpetrada pela elite dominante que possui os melhores aparelhos ideológicos, concentrados, em especial, nas mídias, redes sociais e nas religiões. Assim difundem a ideologia neoliberal.

Segundo Marx, a concepção de mundo, aquilo pensamos sobre ele, não se explica por si só. As causas materiais daquilo que pensamos encontram-se nos processos de produção de bens produzidos na sociedade em que o indivíduo está inserido.

Marx já desvendou e explanou com maestria, conforme seu sistema filosófico, o fato de que a infraestrutura do pensamento é econômica, onde a felicidade é a satisfação de desejos. O homem passou a pensar economicamente recentemente, com a ética da reforma protestante, onde a riqueza é sinônimo de alegria, e a alegria aproxima o homem de Deus.

Até então, tinha-se, praticamente, que não se poderia consumir o lucro daquilo que se produzia, haja vista a vigência de uma moral católica castradora e impeditiva do desenvolvimento do pensamento e prática que veio a culminar no modo de produção capitalista.

Após a reforma protestante, acaba-se a moral castradora e passa-se ao consumo - não mais se priva do consumo – e os indivíduos, com o decorrer do tempo e com o desenvolvimento da máquina capitalista, passam a levar uma vida de consumo e de excessos.

Entramos em uma nova concepção de moral. Assim, o novo pensamento moral consumista é consequência do próprio sistema econômico capitalista e nele se sustenta.

Com a ideologia neoliberal entranhada e as subjetividades constituídas pela lógica da acumulação, os indivíduos operam no mundo do capital de forma a corroborar com a ideologia de forma totalmente alienada, pedem o Estado mínimo, defendem a reforma trabalhista e previdenciária, quando na verdade deveriam se levantar contra o sistema de forma contundente e revolucionária.    O Brasil, assim como o resto do mundo, vive uma pandemia que, por sua vez, é o prelúdio de uma crise econômica. E a preocupação dos indivíduos, de forma geral, é com a manutenção do sistema. É um pensamento ideológico tão arraigado que beira à esquizofrenia.

Isso porque o capitalismo é exploração, e uma ótima situação para exploração é a situação de caos social e de crise econômica. É onde a elite, o 0,01% que representa o capital mundial enriquece em detrimento dos demais operando nas bolsas de valores.

Do outro lado, reféns do capital, os pobres não têm os recursos, seja em forma de recursos materiais ou ideológicos, para combater a barbárie social e econômica causada pelo próprio sistema. Diferentemente do que ocorreu na crise de 2008, com o avanço da ideologia neoliberal e com a vigência, ao menos assim divulgada, do Estado mínimo, não haverá por parte do governo grandes atuações para contenção da crise que está por vir. E isso muito interessa ao capital.

Basta uma pequena análise para se verificar que, ao passo em que os pobres sofrem com a ideologia neoliberal arraigada, bem como a ausência de discurso ideológico contrário que incentive a movimentação das massas, esses indivíduos estão reféns do capital e de si mesmos. 

A exemplo disso, vemos que as crises mundiais mais recentes do sistema capitalista não geraram resistência por parte do povo, de tal infortúnio que a elite rica do mundo e o capital em si saem ilesos de todos os males por eles causados, e sem qualquer risco de levante popular. No mais, os poucos que se arriscam em grupo ou isoladamente são recebidos à bala. (vide o tratamento dado à manifestação dos servidores públicos de São Paulo)

A força ideológica neoliberal é tamanha que os indivíduos da classe média (que pensa ser rica e capitalista) vivem na ilusão, no desejo erótico (amor de Eros) de ter o plano de saúde que lhe permita poder morrer sozinho em quarto particular sem nenhum pobre ao lado, na ilusão da camisa de marca que custa quatrocentos reais, na ilusão do carro do ano, do grafiato laranja na parede porque “Orange isthe new black” conforme preconiza a Netflix,  e demais idiotices, dominadas pela ideologia capitalista neoliberal, continuam sendo explorados, tolhidos e alienados, pois não conseguem sair da armadilha ideológica.

Os pobres, os mais humildes, ainda mais reféns da ideologia neoliberal e do modo de produção capitalista, pois têm pouco ou nenhum acesso à informação ou ensino formal de qualidade, além de sofrer com o distanciamento social e econômico imposto pela classe média, vive na mesma ilusão daquela, ou seja: no sonho de ser tão rico quanto a classe média (que não é rica, é enganada e está satisfeita com isso), e ter os mesmos luxos, ou seja, o relógio de marca, a roupa, o carro, etc.

Contudo, a frustração do pobre é ainda maior, o que gera certa indignação e até mesmo doenças psicológicas. É a doença causada por não conseguir levar a vida de mentira que o capitalismo sugere como sendo a felicidade em si mesma, pois, como disse no começo do texto, nesta lógica do consumo, consumir é alegria, é o sentido da vida e aproxima o homem de Deus. Que diga Edir Macedo como o dinheiro pode te “aproximar de Deus”.

Infelizmente, todo este desconforto gera indignação, doenças psicológicas, suicídios, mas não levante popular, pois este espírito está dormindo em sono letárgico causado pelo efeito da ideologia neoliberal.

O fato é que as crises atuais eclodirão diante de um povo pacífico, manso, alienado e sem voz. O que precisamos é cultivar o sonho de um dia ouvir o povo dizer: chega! Nesse dia, o mundo todo, que vive na mesma ilusão do capitalismo, no mesmo sofrimento causado pelo desejo de consumir, mas tolhido pela própria mecânica do capital, se levantará com ânimo libertador e transformarão a história. Talvez seja apenas um sonho, mas o que somos nós senão genuínos sonhadores?

Régis Fernandes é advogado e professor, pós-graduado em filosofia e em direito imobiliário, membro das comissões de Direitos Humanos e Assistência Judiciária da 16ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil.

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