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Crônicas de um Sol Nascente

A cidade do riso

No Japão, resido em Saitama desde 2005. E é claro que tenho grande carinho por esta cidade que já posso chamar de “meu lar” (falando francamente, muito mais que Manaus, onde sempre me senti “estrangeiro”). Porém, se me perguntarem qual é a cidade que realmente mora no meu coração, a resposta é... Osaka.

E isso por diversos motivos. Primeiramente, foi em Osaka que eu morei quando cheguei ao Japão em 2001. Também foi na Universidade de Osaka que fiz pesquisa e, posteriormente, o mestrado entre os anos de 2001 e 2005. E, principamente, foi lá, na mesma universidade, que conheci o amor de minha vida: uma bela moça natural de... Osaka.

Osaka é, portanto, minha família e minha vida. Tanto que em nossa casa, naturalmente, o japonês falado é o denominado “Osaka-ben” (traduzindo: dialeto de Osaka), que tem lá suas peculiaridades. Por exemplo, enquanto se usa, na maior parte do Japão, a expressão “damê” para rejeitar-se algo indesejado, em Osaka a palavra usada é “akan”. Como podem perceber, duas formas bem distintas de falar-se o mesmo Japonês – fica aqui a dica para quem pensa errônea e preconceituosamente que japonês “é tudo igual”.

E não é só na linguagem que Osaka é diferente. Seus habitantes são também conhecidos por serem demasiadamente emotivos para os padrões japoneses. Isso quer dizer que riem e explodem de raiva com a mesma facilidade. Ou seja: são basicamente “latinos” – e falo isso de cátedra: minha esposa é, muitas vezes, mais latina do que eu.

Mas, quando riem, ah, que sorriso espontâneo tem o povo de Osaka. Talvez seja por isso que os melhores comediantes japoneses costumam vir de lá, onde rir é o que importa.

Minha esposa disse-me certa vez que, para as “garotas de Osaka”, o segredo do sucesso de um paquerador era “fazer rir” mais do que ser propriamente “ser bonito” – por isso, provavelmente, a coisa funcionou para o “tom cruzes” que vos escreve. É o que se chama em “Osaka-ben” de “ochi ga aru” (algo como: ter um ponto no caráter que divirta os demais).

E, talvez também por isso, a seriedade do povo de Tóquio seja uma coisa tão sem graça para quem conhece Osaka. Esse, aliás, também é meu sentimento. Lembro-me de que, quando chegamos pela primeira vez à Estação de Tóquio, minha esposa e eu sentimos até um mal-estar vendo ao redor esse povo de cara fechada... Mas hoje sabemos que, sendo Tóquio a capital econômica do país, é mesmo natural que o estresse faça parte do seu pacote de promessas.

Bem, voltando aos atrativos Osaka. Lá também a culinária é de lamber os beiços, principalmente pelo seu delicioso “okonomiyaki” (espécie de panqueca recheada com frutos do mar e outras maravilhas)...

Mas isso é um assunto para outra crônica, pois bateu a fome e minha esposa acaba de preparar mais uma das iguarias de Osaka. Dá licença... Fui!

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quinhentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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