As favelas não surgiram do nada. Foram paridas pela traição. No final do século XIX, soldados enviados para massacrar o povo de Canudos – um dos episódios mais brutais da história brasileira – receberam a promessa de terras como pagamento. Acamparam num morro onde crescia uma planta chamada favela. Quando voltaram, não receberam nada. Foram jogados à própria sorte nos morros do Rio, ocupando encostas, zonas de deslizamento, lugares onde o Estado só chegava com a omissão. Ali começou o que hoje chamamos de favela.
Junte-se a isso os escravizados “libertos” pela Lei Áurea — sem terra, sem indenização, sem política pública. Foram empurrados para longe dos olhos da elite, para os cantos onde a cidade fingia que não existiam. Ao longo das décadas, esses territórios receberam centenas de milhares de pessoas sob o olhar indiferente de uma política que nunca enxergou moradia como direito, mas como problema a ser contido.
Brizola tentou romper esse ciclo. Levou o Estado para dentro das favelas, com escolas, serviços, presença institucional. Tentou mitigar o que todos sabiam que viria: o domínio do abandono. Mas os governos que o sucederam desmontaram tudo. E o que o Estado abandonou, o crime organizado ocupou. Não só com drogas – mas com gás, internet, TV a cabo, transporte. Um Estado paralelo que cobra caro por aquilo que o Estado oficial nunca entregou.
Mas não se engane: os Docas, Marcinhos VP, Nem da Rocinha e tantos outros são apenas os gerentes da lanchonete. Os verdadeiros donos do restaurante estão longe dali. São os engravatados do mercado financeiro, os deputados que legislam em causa própria, os generais que fazem vista grossa nas fronteiras por onde entram armas e munições. Os tubarões não moram no morro – eles o exploram de cima, com vista para o mar.
E então vem a chacina. Mais uma. Com a desculpa esfarrapada de “combate ao crime”, jogam policiais despreparados como bucha de canhão em operações atabalhoadas, sem inteligência, sem estratégia, mas com muita sede de manchete. É a política do espetáculo: corpos no chão, helicópteros no céu e manchetes para alimentar o sadismo de quem aplaude a morte como se fosse justiça.
Se você comemora mortes indiscriminadas, pense nas balas perdidas que encontraram corpos inocentes: gente indo trabalhar, crianças dormindo, mães fazendo café. Isso não resolve nada. Isso é um ciclo de insanidade. Uma guerra contra as drogas que já foi desmascarada por especialistas do mundo inteiro como uma guerra contra os pobres – e um negócio bilionário para quem lucra com o caos.
Enquanto a sociedade aplaudir o massacre e se recusar a olhar para a raiz histórica do problema, continuaremos enterrando inocentes e fingindo que isso é segurança. Não é. É barbárie com CNPJ.
Paulo Bressane é mestrando em Políticas Públicas, historiador e pedagogo.
***
0 Comentários