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Olhar Social

A cegueira da mente

Há um ditado muito popular que diz: “o pior cego é aquele que não quer ver”! Para além da patologia física em si – congênita ou adquirida – aqui se refere a uma espécie de cegueira moral ou social, quando se fecha aos olhos ao que está ao redor, em que se enxerga apenas o que é desejável ou conveniente.

Em 1995, o escritor português José Saramago (1922-2010) escreveu o clássico “Ensaio sobre a cegueira”, adaptado em 2008 para o cinema pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles. Na obra, a epidemia de uma cegueira física generalizada que se instala sobre uma cidade gera o caos e aflora uma espécie de instinto animal pela sobrevivência, dando vida, ao que é de fato, a essência humana, no que há de mais mesquinho, perverso e cruel.

A narrativa gera uma verdadeira aflição e sofrimento ao ver – e parecer sentir – a agonia em estar cego e, talvez mais que isso, reconhecer do que o ser humano é capaz.

Na vida real – ou no Brasil de 2022 – é gerador de inquietação identificar certa cegueira que parece ter acometido uma parcela da população do país. Uma espécie de epidemia generalizada, que vai contagiando um a um – como na ficção de Saramago, só que na vida real – em que as pessoas não veem ou não querem ver a realidade que estamos vivenciando, exposta a tantas mazelas, precarização e atentado à vida.

Uma espécie de cegueira incondicional, acima do bem e do mal, quer seja pela omissão e indiferença; por apoio e adesão aos feitos e desfeitos realizados; ou, ainda, por espelhar-se em mitos construídos, expoentes de quem se é, em sua essência, ou se deseja ser, algo que o educador Paulo Freire diria com maestria: “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor”.

Afinal, enxergar dói. E identificar tantas pessoas cegas face a barbárie social é doído demais. Cego ao outro, ao próximo, ao diferente, ao imperfeito, ao que não se aceita, recusa ou discrimina.  Dizia Saramago: “a pior cegueira é a mental, que faz com que não reconheçamos o que temos à frente”.

Como na obra no escritor português, também hoje prevalece a centralidade no indivíduo, o qual é incapaz de se colocar no lugar do outro, sentir compaixão e empatia ao próximo. O que importa é ter suas necessidades atendidas, afinal, como dizem por aí “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Enquanto enfermidade, ainda que houvesse cura para tratar a cegueira, haveriam de negá-la, negligenciá-la, ignorá-la. Afinal, não negaram a pandemia, a vacina e o próprio coronavírus?

Os malefícios desse distúrbio, para além de irresponsáveis ou inconsequentes, são imensuráveis e desmedidos.                    

As escolhas feitas no primeiro turno do pleito deste 2022 para ocupar as cadeiras do parlamento – Câmara e Senado Federal – terão suas consequências, ao lembrar que, a título de exemplo, representantes fundamentalistas da bíblia estarão – ou permanecerão – de costas aos direitos humanos, imprimindo um ser celestial, cujo amor é condicional ao seus mandos e desmandos.   

Cegueira que julga, criminaliza, mata; fomenta o ódio, a indiferença e o preconceito: de classe, gênero, raça e etnia... É alimentada por mentiras – ou fake news – preceitos religiosos fundamentalistas; ignorância – letrada ou não; e pela estrutura desigual, reacionária, patriarcal e racista do nosso país, em especial num momento de ascensão do conservadorismo e desmantelamento estrutural do conhecimento técnico-cientifico.

Felizmente há pessoas que não estão – e nunca estarão – infectadas por essa cegueira generalizada; são e estão conscientes do mundo em que vivemos; pessoas que sangram todos os dias justamente por enxergar; estão feridas, machucadas, mas são incapazes de cruzar os braços e assim seguirão, sobretudo porque reconhecem que “nenhum médico é capaz de curar a cegueira da mente”.

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.

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