A BANALIZAÇÃO DA MORTE

Todo dia morre gente. Todo dia. Gente que trabalha, gente que não trabalha, gente grande, gente miúda, gente que nem sequer teve tempo de ter consciência de ser gente e parte integrante desse vasto universo de gentes. Gente, no sentido de gente humana.

Todo dia morrem seres humanos ao redor do mundo. E todo dia me pergunto o que torna um ser humano mais importante que o outro na hora da morte. Isso é para mim algo ilógico, afinal, não é ela que nos iguala a todos, reduzindo-nos à nossa essência original?

Somos pó, não se deixe enganar. Com e apesar do seu carro zero ou dos cifrões da sua conta bancária, tudo o que somos se resume a pó.

Então, por que até na ocasião tétrica da morte ainda insistimos em fazer diferença entre as pessoas? Por que a morte de um é mais digna de comoção que a do outro?

Porque os anônimos têm sua passagem ignorada em meio a tantas outras e os “famosos” têm sua morte exposta e usada pela mídia como assunto enfadonho para as tardes de ócio de alguns?

A meu ver, há duas situações de desrespeito nisso tudo. A primeira diz respeito à superexposição da morte alheia, objetivando audiência. A outra diz respeito à banalização da morte ou ao simples ignorar da dor do outro.

Por essas e outras é que desacredito cada vez mais em nossa humanidade. Aquilo que seria em nós uma marca visível do Eterno, uma centelha de nossa semelhança com Ele; o que temos de sagrado, estamos perdendo.

Temos nos tornado imunes à dor do outro, enquanto supervalorizamos nossa própria. Parece mesmo que estamos tão entorpecidos por nosso ego e vaidade fugazes, que nos tornamos insensíveis. Tornamo-nos seres grotescos.

Um exemplo disso é o desrespeito para com a família do cantor Cristiano Araújo, que teve sua morte trágica exposta e explorada nas redes sociais, como se não fosse gente, como se todo aquele pudor e todo aquele temor que tínhamos da morte tivesse se transformado em mero espetáculo para entreter olhos famintos por morbidez.

Estamos banalizando a morte, e isso é para mim um sério indício de que também não andamos valorizando a vida. E me refiro aqui à vida de qualquer ser humano, seja ele “famoso” ou não.

Não conhecia o referido artista, nem tampouco me apetece o gênero musical que ele fazia, no entanto, me incomoda profundamente ver tanta gente compartilhando imagens de seu corpo aberto durante a realização da necropsia, por meio da internet. É horrível, é desrespeitoso, fosse com quem fosse. É lamentável!

É isso mesmo, eu lamento aquilo em que nos tornamos. Lamento que alguns demonstrem tanto interesse por morbidez e tão pouco pela dor do outro.

Talvez não tenham compreendido ainda que não há dor do outro. Somos todos próximos, vulneráveis a sofrer das mesmas dores, igualmente falhos e igualmente pó.

E se alguém é incapaz de demonstrar o mínimo de respeito diante da morte, talvez esse alguém nem seja digno da dádiva da vida.

 

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