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Olhar Social

A balbúrdia continua...

Enquanto boa parte da população sonha e deseja adentrar no Ensino Superior, prevalece no imaginário de uma minoria, numa sociedade moldada pela moral e bons costumes, a ideia distorcida de que as universidades – em especial as públicas – são verdadeiros antros de balbúrdia, que corrompem seres retos para um suposto caminho do mal, tornando-os promíscuos, de esquerda ou comunistas. Ainda que não se saiba muito bem explicar o que isso signifique!

Para além desse rótulo irreal, causa estranheza a apatia do “cidadão de bem” – e parte da própria opinião pública – face a informação que a balbúrdia, na realidade, tem ocorrido no interior do próprio governo federal. Primeiro – talvez não só – nos quartéis, basta lembrar a aprovação da compra pelas Forças Armadas, junto ao Ministério da Defesa, de mais de 35 mil comprimidos de Viagra, medicamento popularmente usado para disfunção erétil; depois o anúncio que o exército gastou cerca de 3,5 milhões na compra de próteses penianas; e por fim, a licitação aprovada para a compra de gel para lubrificação íntima, num montante de 37 mil reais.

E agora, mais recentemente, vemos a balbúrdia que vem ocorrendo junto ao Ministério da Educação (MEC), quando vimos seu último ex-ministro (Milton Ribeiro) – além de pastores e assessores ligados a ele – ser preso após denúncias de tráfico de influência e cobrança de propinas para liberação de verbas junto às prefeituras. Uma silenciosa, ardil e orquestrada destruição da política de educação, camuflada por um “homem de Deus”, de modo a ignorar que o Estado é – e de ser – laico, ao parecer criar um trato próprio na fusão do campo religioso com a área estatal.

É presente nos protestos em defesa da educação, manifestantes bradar que “o governo não investe em educação, porque a educação derruba o governo”. A retórica procede quando se identifica que – por essência e excelência – a educação estimula a formação do pensamento crítico e libertador, como defendeu Paulo Freire; permite questionar mitos, coachings e influenciadores picaretas – algo tão ascendente atualmente; indagar as bases de uma sociedade – como a brasileira – excludente, racista, machista, sexista, aporofóbica e homofóbica. Dizia o mestre “educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”.

São lastimáveis os recorrentes cortes orçamentários que as universidades públicas têm vivenciado, realidade que a leva a um futuro incerto. Sua sobrevida coaduna com um país que parece estar retrocedendo no tempo, ignorando importantes avanços e conquistas científicas; superdimensionando um fundamentalismo religioso que ignora a produção do conhecimento; e esvaziando o dever público-estatal em prover políticas públicas como um direito de todas as pessoas. Sem orçamento público, não há política pública, não há universidade pública!

Enquanto um lugar em disputa, ela tem ampliado seu acesso a pessoas que outrora ficavam de fora, como a população negra, por exemplo, fruto de muita luta e pressão, materializada por meio de conquistas efetivas, como as políticas afirmativas – espaço onde se tensiona o debate de temáticas consideradas indigestas a uma sociedade conservadora, retrógada e moralista – é vista como área rentável aos olhos brilhantes do mercado, com potencial de produzir conhecimento que atenda a seus interesses; e ainda lócus privilegiado de fomento do saber, da ciência, da diversidade, do pluralismo e da sociabilidade humana – inclusive com festinhas, por que não?

Retrato que permite compreender os ataques que sofre, já que a educação como um todo, e as universidades em especial, tem o potencial ímpar em sacudir as estruturas de uma sociedade. Defendê-la, portanto, é e deve ser um compromisso de toda uma sociedade, sobretudo por ser parte da mesma e ter a primazia de defender seus interesses.

Defesa essa que deve ser pautada de modo permanente e constante, em especial em ano eleitoral, como em 2022, rememorando os personagens que a atacam. Nossa memória não pode nos trair a ponto de esquecermos seus traidores e as balbúrdias que tem ocorrido.

“Quando a esperança está dispersa, só a verdade me liberta”, cantou Renato Russo e sua Legião Urbana, em “Perfeição”, verdade essa que nos permita enxergar as imperfeições existentes que precisamos enfrentar!

 

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.

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