A 14 dias de deixar a Prefeitura, Jango faz balanço de governo, relembra fatos marcantes e pede perdão pelo que não conseguiu fazer...

A exatamente 14 dias, 2012 terminará e, junto a ele, também findará o mandato dos prefeitos e vereadores que governaram o município desde 2009.

Em Bragança Paulista, o prefeito João Afonso Sólis (Jango) deixará a Prefeitura, a qual governou nos últimos sete anos. Ele assumiu o comando do município em 2005, de forma conturbada, após a Justiça Eleitoral e o TRE (Tribunal Regional Eleitoral) terem cassado o mandato do então prefeito Jesus Chedid, por abuso de poder político e econômico, e foi reeleito em 2008.

Jango conversou com o Jornal Em Dia, na última sexta-feira, 14, no Gabinete da Prefeitura. O local que já esteve bem mais movimentado nos últimos meses, agora, já apresentava os sinais de final de mandato, com poucos funcionários.

O prefeito relembrou de fatos marcantes, fez desabafos e afirmou que sai de cabeça erguida, com a sensação de dever cumprido. Jango ainda pediu perdão à população por não ter conseguido fazer tudo o que almejava ou o que a população esperava dele.

Acompanhe:

 

Jornal Em Dia – Prefeito, Bragança Paulista completou, nesse dia 15, 249 anos de fundação. O senhor governou a cidade nos últimos sete anos. O que faria diferente se pudesse voltar no tempo? E o que faria exatamente igual?

Jango – Diferente seria uma palavra que eu não gostaria de colocar. Eu diria que algumas ações, algumas decisões que eu tomei, talvez eu mudasse o rumo. O que está acontecendo hoje no nosso país são as dificuldades que você encontra dentro da administração pública por causa do Tribunal de Contas, do Ministério Público, do Poder Judiciário, da Câmara Municipal. Há uma interferência muito grande, há uma fiscalização que é feita ao órgão público, à administração pública. Tudo aquilo que eu prometi, se você pegar meu plano de governo de 2008 e fizer uma análise, 90% daquilo que eu prometi, eu cumpri. Se for comparar em obras, eu fui o prefeito que mais fiz. São 321 obras feitas na cidade de Bragança Paulista nesses sete anos. Em termos de verbas, Bragança Paulista é a quarta cidade do estado de São Paulo que mais recebeu verbas do Governo Alckmin e do Governo Serra. É a 13ª do governo federal que mais fez convênio e recebeu dinheiro. Quer dizer, tudo isso, além do orçamento do próprio município.

 

Jornal Em Dia – A criação do Diário Oficial e a indicação para o comando das Secretarias de Educação e Saúde por meio de listas tríplices foram bandeiras que o senhor levantou na sua primeira campanha para prefeito, em 2004. Por que o senhor não as colocou em prática? Houve pressão política?

Jango – Houve vários fatores. A questão da lista tríplice para a Educação era o meu desejo e a minha vontade, mas houve um consenso do pessoal que coordenava a Secretaria de Educação, no segundo mandato que eu assumi, para que deixasse como estava porque a Educação estava caminhando bem e a prova é que, graças a Deus, a nossa Educação é muito bem-avaliada. Eu acabei não fazendo. A questão do Diário Oficial era meu desejo, era meu sonho, mas eu tive dificuldades internas, aqui dentro da própria Prefeitura, de seguimentos e setores que não quiseram assumir comigo esse compromisso de fazer o Diário Oficial. Chamei o pessoal da chefia de Governo, do Jurídico, o próprio pessoal da Imprensa, gente especializada e todo mundo achou dificuldade de montar uma equipe para diagramação, para isso ou aquilo, teria que contratar profissionais, aí tinha aquele TAC (Termo de Ajuste de Conduta) com o Ministério Público que não podia contratar gente que não estivesse dentro daquele quadro de funcionários. Houve vários empecilhos e acabou não acontecendo. Eu tentei durante esses sete anos aqui e chamei até pessoas que conhecem jornal, que são sócios de jornal, o Zé Omair, para que me ajudassem nisso. Era meu desejo, pode ter certeza, eu não nego isso, porque haveria uma liberdade muito grande para todos os demais veículos. Aqui em Bragança era assim, eram dois jornais, um pegava a Câmara e outro pegava a Prefeitura e os dois ficavam felizes. Com a vinda de um terceiro e um quarto jornal, criou-se toda essa expectativa. Então, isso realmente ficou uma situação que, entre aspas, acabou dividindo. Aí, a Câmara Municipal abriu outra licitação, um dos dois jornais que sempre predominou na cidade acabou perdendo e aí começou a pressão de outros jornais. Mas eu tenho certeza que o próximo prefeito vai ter que fazer o Diário Oficial. Vence o contrato agora em março. Acho que é obrigação do município, o custo é muito menor. Até desvincula um pouquinho a história de dizer que tal jornal é ligado à administração.

 

Jornal Em Dia – O senhor pode dizer então, por não ter conseguido tirar do papel iniciativas que prometera em campanha, quando ainda não era prefeito, que na prática a teoria é outra?

Jango – É, é uma coisa interessante. As pessoas que estão lá fora não têm realmente noção de como funciona a administração pública. Muitas vezes falam que o prefeito não fez porque não quis e não é assim. Você acaba, dentro do contexto de uma administração, envolvendo vários palpites, vários segmentos e vários interesses. Essa é a grande verdade. Você vê que eu fui o prefeito que mais fiz, que mais realizei em obras, em tudo que você possa imaginar em Bragança e, às vezes, eu sou tachado como o prefeito que não fez nada. Falta realmente informação. Por quê? Porque antigamente, qualquer coisa que se fazia era uma revolução.

 

Jornal Em Dia – O seu governo foi marcado por uma constante troca de secretários. Por que isso ocorreu e de que forma o entra e sai de secretários atrapalhou o andamento dos projetos?

Jango – Atrapalhar não. Teve alguns secretários que saíram porque foram para uma situação melhor. Hoje, por exemplo, o salário de um secretário é R$ 9 mil. Para você arrumar um bom engenheiro para ocupar uma Secretaria de Obras ou uma Secretaria de Serviços, esse profissional, se ele tiver um know how, tiver um nome na cidade, ele ganha muito mais no escritório dele. O advogado do Jurídico, idem. Então, você acaba realmente ficando numa situação difícil para você pegar um advogado de ponta, de renome, para vir ocupar um cargo de assessoria aqui. Um advogado bom, em qualquer causa, ganha uns cinco, dez mil reais. Se ele pegar duas, três causas por mês, ele fica no escritório dele, sentadinho, sem dor de cabeça, e ganha mais do que ficar aqui. Aqui é dia e noite, não tem hora, não tem dia, não tem sábado, não tem domingo, não tem feriado. Então, o que eu vejo, dentro da máquina administrativa, é essa questão, a valorização desses profissionais que trabalham. O Mário Sobrinho, por exemplo, estava comigo aqui. Aí apareceu para ele uma proposta de trabalhar em Atibaia, onde o salário é maior, ele acabou deixando aqui para ir para lá. Teve outros secretários também que a gente percebeu que não estavam dando conta do recado e preferiram sair. Isso é uma coisa normal, faz parte da administração, o governo do estado troca secretários, o governo federal troca ministros, faz parte da rotina. Não houve retaliação a ninguém. Alguns secretários saíram agora, nesse momento da última eleição, por questões políticas, não quiseram ficar comigo porque não queriam apoiar o candidato que eu apoiava. É um direito que eu respeito. Então, a gente teve que dar essa liberdade.

 

Jornal Em Dia – O que levou o secretário Sérgio Pereira a ser um dos únicos que permaneceu desde o primeiro dia de governo?

Jango – Não foi o único, tem o Rauf, a Valquíria, a Marilene Aguirre. O Sérgio, eu não o conhecia. Naquele momento que eu assumi, que não sabia se ficava ou não ficava, tive dificuldades, nos dois primeiros anos do meu primeiro mandato, de ter gente que se sacrificasse para vir para o governo sem saber se a decisão não iria mudar em Brasília, como nós estamos vivendo hoje esse momento na cidade novamente. Essa instabilidade cria também essa dificuldade de ter gente que venha para um projeto de quatro anos ou de três anos. O Sérgio foi, na época, indicado pelo Dr. Aguirre e pelo PSDB para vir ocupar essa pasta de Segurança e Trânsito porque ele trabalhou com isso a vida toda. E ele veio e fez esse trabalho todo. Tem alguns que aprovam, outros não, mas aí é uma questão de opinião pessoal. Eu tenho certeza que ele fez um belo serviço nessa questão toda da segurança, como a implantação do monitoramento eletrônico, a criação da Cavalaria, do Canil, a sede da Guarda Municipal. Todo mundo tem seus defeitos, ninguém é perfeito.

 

Jornal Em Dia – Há rumores de que a primeira-dama costumava dar ordens a funcionários da Prefeitura e que, inclusive, chegou a demitir alguns. Isso é verdade?

Jango – Não. Tentaram carimbar a Kátia como mandona, nada disso. A Kátia cuidou da parte dela. Não é porque é minha esposa, não preciso jogar confetes e nem flores nela, mas se você olhar o trabalho de todas as primeiras-damas, não desmerecendo nenhuma, jamais farei isso porque não é do meu feitio, mas foi uma primeira-dama presente, que realizou coisas que nunca ninguém fez. Está lá o Fundo Social como exemplo, a Casa de Geração de Renda I e II, que acabaram virando modelo para o Via Rápida do governo do estado, o Caminhão Solidário, essas campanhas que ela faz, do brinquedo, do agasalho, foram marcos diferenciados para a cidade. Então, as pessoas tentaram passar uma imagem da Kátia. Ela é sincera. Se ela não gostar de você, ela cumprimenta por educação, mas não é de falar. Ela tem esse estilo. Quando ela gosta da pessoa, ela senta e conversa e você pode conversar com todas as pessoas que trabalham aqui que vão dizer que esse é o estilo dela. Ocorreram vários comentários maldosos, mas ela nunca mandou nada. Ela montou uma equipe que é dela. Lá no Fundo Social, os cargos de comissão devem ser um ou dois, são todos concursados, pessoas que gostam dela. Ela fez um belo trabalho. Algumas pessoas podem questionar a questão dos votos das Eleições 2010, mas eu não queria que ela saísse. Eu sempre achei que o Jango é o Jango e a Kátia é a Kátia. O voto é uma coisa intransferível. Eu não queria que ela saísse porque eu achava que não era o momento dela porque ela nunca foi candidata a nada e sair de cara a deputada, falei para ela que era um vôo que ela não deveria tentar. Eu avaliei, falei, mas ela acabou realmente insistindo e, a pedido do diretório estadual, saiu candidata.

 

Jornal Em Dia – Nesses anos, outra afirmação que se ouviu com frequência, inclusive dos vereadores, é que o senhor não tinha comando, pulso firme para lidar com seus funcionários. Existiram mesmo “prefeitinhos” que pretendiam ou até mesmo chegavam a mandar mais que o senhor?

Jango – A Câmara Municipal de Bragança, esses vereadores que estiveram lá nesses anos, vão ter saudades de mim. Nunca, nunca um prefeito atendeu tanto os vereadores. Você vê que as obras boas que saíram eram dos vereadores, não eram do prefeito, e as coisas ruins eram do prefeito. Pode pegar os jornais dos últimos sete anos. Quando o asfalto era bom, tinha vereador tirando foto lá. Deitaram e rolaram. Tiveram toda a liberdade comigo, tiveram pessoas indicadas aqui dentro que eu acolhi. Eles nunca mais vão ter essa liberdade, seja quem for o próximo prefeito. Eles vão ter saudades de mim. Eu fui vereador e sei da ansiedade e da vontade do vereador de conquistar alguma coisa, de buscar alguma coisa para a comunidade e depender do prefeito para isso. A função maior do vereador, que nenhum deles faz, é legislar e fiscalizar. E quando fiscalizaram, fizeram de uma forma até ostensiva, maldosa em alguns pontos. O caso do transporte escolar, do Colégio São Luiz, uma denúncia que fizeram ao Ministério Público da minha secretária Valquíria porque ela tinha passado num concurso e tinha um processo, quer dizer, são coisas que não precisava chegar a esse ponto. Mas isso foi pela democracia, pela liberdade que eu dei, porque no passado as pessoas nem a boca abriam, ficavam caladas, sofriam quietas aqui. Quem veio me procurar aqui, me achou, eu nunca escondi a cara, nem nos momentos mais difíceis. Não tenho nada para esconder. Posso ter errado aqui, com certeza errei, mas também acertei, só que os acertos e as coisas boas que foram feitas, as pessoas procuraram encobrir. Faltou para mim um direcionamento de marketing, propaganda, para divulgar as boas ações, isso faltou. Se um dia eu pensar em voltar a disputar um cargo no Executivo, uma das primeiras coisas que vou pensar é essa questão de planejar o esquema de marketing para mostrar as coisas boas.

 

Jornal Em Dia – Sobre o trânsito, prefeito, que está caótico no município, foram gastos milhões com empresas com a promessa de projetos que resolveriam o problema. Aliás, o secretário Sérgio Pereira chegou a exibir um projeto de modificações do trânsito na Câmara. Por que ele não foi implantado efetivamente?

Jango – Não saiu do papel porque havia a questão das obras da Sabesp na Avenida dos Imigrantes, que é a principal via que íamos mexer. Por causa dessas interferências da Sabesp, que rasgou a Imigrantes e agora está refazendo, não fizemos. Os emissários da Estação de Tratamento de Esgotos passam todos pela Avenida dos Imigrantes. Todo o esgoto de todos os bairros vai entrar naquela rede, por isso, teve que rasgar a cidade de ponta a ponta, vários bairros, para chegar nesse tronco. É lá que vai receber todo o esgoto e levar para esses emissários, os quais vão conduzir o esgoto até a Estação de Tratamento, na Planejada II. Essa obra da Sabesp acabou impedindo algumas alterações no trânsito. Na Santa Luzia, por exemplo, conseguimos dar uma amenizada naquele trecho ali da Felipe Siqueira. Vão ocorrer mais algumas mudanças, só não sei se vamos ter tempo, mas a intenção é fazer duas interferências ali perto do Fórum. Esses pontos estão dentro desse projeto.

 

Jornal Em Dia – E o viaduto que se pretendia construir no Lavapés? O projeto foi pago? Por que ele foi abortado?

Jango – Não foi pago. Foi-se levantada a ideia da criação do viaduto e aí entraria a questão da desapropriação de alguns imóveis e uma série de questões. Então, a gente lançou o edital, teve a empresa que ganhou, mas a gente não pagou, não fez o projeto. Eu acredito que viaduto para Bragança Paulista não é a solução. Essa é a minha opinião, por ser uma cidade montanhosa, por ter uma topografia com fundo de vale, não vejo isso como alternativa. Essa é minha opinião pessoal. Senão você vai criar como se fosse um minhocão como tem em São Paulo. As pessoas sofrem naquela região lá. No começo foi lindo e maravilhoso, mas depois começaram a sentir os efeitos da velocidade, do barulho, da poluição. Então, essa é uma questão que realmente abortamos.

Jornal Em Dia – O que o senhor tem a dizer dos projetos que foram rejeitados pela Câmara cuja elaboração foi paga a FGV (Fundação Getúlio Vargas)?

Jango – Fizemos um contrato com a FGV e isso realmente me estranha. A Fundação Getúlio Vargas faz projetos para o Brasil inteiro e até para a América Latina. E aqui em Bragança, todos os projetos que a FGV fez a nossa Câmara acabou realmente criando várias dificuldades para não aprovar. Eu sinto muito. O Código Tributário, por exemplo, seria uma alternativa de você eliminar principalmente aquelas pessoas que não têm condição de pagar IPTU, às quais você acaba dando remissão todos os anos. Criaria um limite de R$ 70 ou R$ 80 mil do valor venal e eliminaria o IPTU dessas pessoas. Agora, qualquer um pode comprar pelo valor venal do imóvel, mas quem é que vende pelo valor venal? Ninguém. Se você pegar a defasagem, é 100% do valor venal. Eu tentei fazer uma justiça tributária e não consegui. Teve também o Plano de Cargos e Carreiras, que era um desafio, um sonho. A Guarda Municipal fez e ficou feliz. A Educação também, mas os demais não e ficou aí para o próximo prefeito. Espero que o próximo prefeito aproveite porque é um belo material, um estudo feito com muita racionalidade e seriedade.

 

Jornal Em Dia – Falando sobre a evolução dos professores, que foi uma grande polêmica, como o senhor avalia tudo o que ocorreu?

Jango – A brecha na lei criou essa oportunidade para que os professores evoluíssem. E a gente só conseguiu perceber isso no concurso de 2010, quando nós chamamos os professores e, de um ano para o outro, eles saíram do nível I e foram para o VII. E isso nos espantou. E se criou toda essa situação, essa polêmica e começamos realmente a verificar. E levantamos em torno de 400 professoras que estão nessa condição. Daí tem o processo, tem uma ação civil pública e se elas receberam indevidamente, vão ter que devolver dinheiro aos cofres públicos, não adianta dizer que não.

 

Jornal Em Dia – No seu governo, houve casos emblemáticos. Um deles foi a licitação do transporte escolar. Os vereadores encontraram indícios de superfaturamento, realizaram uma CEI (Comissão Especial de Inquérito) e enviaram os documentos ao Ministério Público. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

Jango – Achei, no fundo, mais uma política. Porque Bragança Paulista é muito grande em território. Quando você abre uma licitação para o transporte escolar, as linhas boas todo mundo quer. Linhas boas que eu digo são aquelas onde a estrada é boa, onde os veículos rodam tranquilos, sem problemas. E tem algumas linhas que são chamadas deficitárias. São linhas em locais mais longe, com poucos alunos, que ninguém quer. Então, você é obrigado a fazer emergencial e aí apareceram algumas linhas que o pessoal veio e deu o preço lá em cima. E o que eu faço numa situação dessas? Não levo as crianças para a escola? Deixo de transportar, se a lei me obriga a transportar? São todas pessoas aqui de Bragança. Então, se alguém falar que houve superfaturamento, quem é que levou? Tem que citar. Eu tenho certeza que para mim não veio e para ninguém da Prefeitura veio.

 

Jornal Em Dia – Houve também o encontro de farinha vencida na Divisão de Merenda. Foi apurada falha dos funcionários desse setor?

Jango – Não houve nada. Aquilo foi um negócio montado, organizado. A prova é que nós mandamos a farinha para fazer perícia e não ficou comprovado nada. E outra coisa, quando falaram que era farinha da merenda é mentira porque a merenda é terceirizada e quem entrega nas escolas é a empresa ganhadora da concorrência pública que serve a merenda. A farinha que é usada hoje lá na nossa padaria é para os cursos de confeitaria do Fundo Social, é para o biscoitinho que nós comemos aqui, para o pãozinho que é servido aqui na Prefeitura e em algumas secretarias. Além de tudo, a farinha tem um período de validade e na perícia que fizemos constatamos que havia alguns bichos lá que nem de farinha eram. Então, não vou entrar nesse mérito.

 

Jornal Em Dia – E a questão do remédio de farinha, que aconteceu em seu primeiro mandato?

Jango – Isso aí acho que foi mais um desabafo do Dr. Márcio Villaça. A lei 866/93 é a lei das licitações, que diz que você tem que comprar pelo menor preço e não pela qualidade. Aí você compra tinta que é água, você compra remédio que pode ser farinha, mas tem que provar. Então, nós mandamos os remédios para análise e não ficou comprovado nada.

 

Jornal Em Dia – E a permuta que foi feita e depois desfeita com o empresário Ussein, o conhecido Passarinho? Quem errou? De quem é a responsabilidade pelas obras que foram feitas na Praça dos da Fraternidade e que, por não terem sido finalizadas, descaracterizaram o espaço público?

Jango – Ali houve um entendimento do Jurídico que poderia ser feita aquela permuta desde que houvesse autorização da Câmara. Porém, foi-se aventado que uma das partes daquela área tinha sido doada à Fanfacali. E aí gerou toda a polêmica. Chamei o Ussein aqui e expliquei toda a situação, mas ele já tinha começado o movimento de terra lá. Aí foi criada aquela CEI (Comissão Especial de Inquérito) na Câmara, que acabou sendo depois resolvida porque eu acabei revogando a lei da permuta. No local, nós temos um projeto para construir uma escola, que está no FDE (Fundação para o Desenvolvimento da Educação), do governo do estado. Ali precisa de uma nova escola porque a escola Antonieta, que tem ali embaixo, é muito acanhada, é muito pequena, não comporta aquela região mais.

 

Jornal Em Dia – Outro episódio que mobilizou a imprensa foi o descarte de livros feito em uma empresa de reciclagem por funcionário da Prefeitura. O que se apurou desse caso?

Jango – Está até hoje na delegacia. O que mais me estranha de tudo isso é que havia livros de 7ª e 8ª séries, que não é de competência do município. Começa por aí. Tinha lá dois pacotes de livros que eram da Escola Padre Donato Vaglio, que eram livros que tinham erro de português. E a Prefeitura, nesses casos, não tem como dar para o aluno. E esses livros, não sei como, não me pergunte por que, foram parar lá. Tinha 150 livros, não tinha mais do que isso e do município acho que não tinha 100, o resto é de 7ª série e do Ensino Médio, que nem é da Prefeitura. Não sei por que estavam no meio.

 

Jornal Em Dia – Sobre as famílias que vivem na antiga Austin e a cessão daquele terreno ao município, o que de concreto foi feito? Por que ainda há famílias morando lá?

Jango – Houve uma invasão ao Bragança F, em 2010. As famílias da Austin terão residência lá. Entreguei 84 casas e as outras 290 estão em construção. Antigamente, se fazia casa popular e depois você punha água, luz, asfalto, esgoto. Agora, com uma mudança do CDHU e do Minha Casa Minha Vida, primeiro você implanta a infraestrutura e depois você faz a casa. Eu acho que é o correto, você dá dignidade para as famílias. O terreno foi doado ao município e a ideia é ocupar aquela área, com o sambódromo ou um centro cultural, uma escola. São dez alqueires, é muita terra e uma área muito nobre.

 

Jornal Em Dia – Como presidente do PSDB local, qual sua avaliação sobre a participação do partido no último pleito eleitoral? O senhor acredita que o mau desempenho do candidato tucano se deve a ele ou à má avaliação do seu governo?

Jango – Eu acho que são fatores que podem ser somados. Não me excluo da responsabilidade. Eu vejo que a população de Bragança Paulista, durante esses sete anos, avaliou da seguinte maneira. Como eu fui muito criticado pelos órgãos de imprensa, por jornal, por rádio, por televisão, quase todo dia, não tinha nada de bom, tudo o que fiz é ruim, então ficou essa imagem que o prefeito não fez nada. E o candidato em si acabou não absolvendo uma questão dele também, de que fosse a pessoa que fosse resolver ou fosse alterar, fosse mudar. A prova é que o PT, com o Fernão Dias, acabou ganhando a eleição. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Volto a dizer, o voto acaba sendo não transferível. Por mais que você peça para a pessoa dar o voto para o seu candidato, se o eleitor não gostar da pessoa não vota, não é porque o Jango pediu que vai votar. Eu tenho minha culpa sim, mas também o candidato tem os seus problemas, é uma soma de fatores.

 

Jornal Em Dia – O senhor ficou chateado de não ter participado efetivamente da campanha do candidato do PSDB?

Jango – Fiquei. Fiquei porque realmente gosto de política, gosto de estar na rua, gosto de andar, andei bastante, não vou negar, visitei mais de dez mil casas, entregando jornal, prestando contas do que eu fiz. Mas andei com candidatos a vereador. Enfim, o resultado da eleição quem julga realmente é o povo, a gente não pode discordar, ou analisar e dizer que eu fui o cara e a pessoa não reconheceu. Só o tempo vai dizer. Eu sempre falo isso aqui, o tempo é o senhor da verdade, não somos nós. A gente quer às vezes um resultado imediatista, mas nem sempre você consegue. Eu vi que nesta eleição houve polarização por causa daquela própria pesquisa do Ibope, que acabou influenciando nisso. Infelizmente eu digo isso porque se colocasse um outro candidato em segundo lugar talvez ele teria chegado a esse objetivo que o Fernão chegou. Essa é minha opinião pessoal, não é o prefeito falando.

 

Jornal Em Dia – Até o seu governo, Bragança vinha mantendo apenas dois grupos políticos no comando, Chedid e Lima. O senhor acredita que conseguiu formar um terceiro grupo político na cidade?

Jango – Não consegui. Se eu disser que consegui montar um grupo político, não. Não consegui por interesses que não vou entrar no mérito aqui, mas de pessoas que estavam em outros partidos e que só vieram participar aqui por interesses pessoais de emprego ou outras questões. Então, não consegui fortalecer e formar um grupo. Eu sempre digo que sou igual ao Jango Goulart, sou um populista. Logicamente que tem pessoas que vieram comigo e somaram, são companheiros que nunca tiveram chance na vida política ou na vida pública e estão comigo hoje. Mas formar um grupo de liderança política não consegui por vários fatores. Um por não ter mídia, segundo por não ter recursos financeiros, porque tudo isso depende de dinheiro, vários fatores que acabaram influenciando nisso.

 

Jornal Em Dia – Como o senhor avalia o trabalho do deputado Edmir Chedid, no que se refere a colaborar com a Prefeitura de Bragança Paulista, já que apenas na última eleição, dos 104.602 votos, ele teve mais de 40 mil de eleitores bragantinos?

Jango – Se eu for falar de Prefeitura, aqui para o município, ele mandou uma verba de R$ 150 mil, nos sete anos, e quatro kombis. Isso foi realmente o que ele mandou para o município de Bragança Paulista nesses sete anos. Isso está em dados comprovados, pode levantar. E se quiser o número de verbas enviadas por outros deputados eu dou.

 

Jornal Em Dia – O senhor ficou sem líder na Câmara por um bom tempo e sabe-se que a sua relação com o Legislativo não foi das melhores, especialmente nesse último ano de mandato. A que se deve esse fato?

Jango – São vários fatores. O primeiro deles foi aquela questão do Tribunal de Contas, que apontou a devolução da verba de gabinete dos vereadores. Desde aquilo eu comecei a enfrentar dificuldades de relacionamento com vários vereadores. Eles não queriam devolver, não assinaram o TAC e achavam que eu podia segurar aqui e dar um jeito com isso. Eu não tinha como fazer isso, tenho de cumprir a lei. Há uma determinação do Tribunal de Contas que mandou realmente devolver o dinheiro, como eu paguei, o João Soares pagou, o Mário Rizzardo, a Sônia Villaça, o Dorico, eles vieram aqui e pagaram, dentro daquele prazo legal. Depois, o juiz moveu a ação de improbidade contra aqueles que não quiseram pagar, aí vieram um ou dois agora na última eleição e acabaram parcelando e pagando também. Eu tive apenas que cumprir a lei aqui e isso gerou realmente um mal-estar com a Câmara Municipal e é um dos motivos que levou a esse desencontro entre a Câmara e a Prefeitura.

 

Jornal Em Dia – Como o senhor vê a cidade vivenciar novamente esta briga na Justiça Eleitoral para definir quem será o próximo prefeito?

Jango – Com tristeza. Falo isso porque passei por isso. Apesar de serem circunstâncias diferentes, porque na época o Jesus ganhou, foi diplomado, empossado e depois, logo em seguida, veio a cassação, quer dizer, um momento diferente. Mas se você olhar dentro do contexto político da cidade criou-se a mesma expectativa. A população hoje passa por essa situação. Como vai ser? Quem vai ser? E quem vai decidir é a Justiça. Eu torço para o bem da cidade, venha quem vier, que faça, que continue as obras que eu iniciei, porque eu vou deixar para o próximo prefeito, brincando, brincando, umas 20 obras para ele inaugurar e fazer festa e soltar foguete ou fazer o que ele quiser. Eu não tive isso lá atrás, mas o próximo prefeito se ele quiser, no primeiro ano, até já brinquei, ele pode tocar e dizer que foi ele que fez.

 

Jornal Em Dia – Qual a sensação de pegar a Prefeitura das mãos do Grupo Chedid e, até este momento, ter de devolvê-la para o mesmo grupo?

Jango – Com a maior tranquilidade do mundo. A prova disso é que quando assumi não tinha essas informações que estou passando hoje, o governo de transição, criei uma lei para isso, que está transcorrendo na maior democracia, sem problema nenhum. Espero que não haja perseguição, nem vingança, porque acho que isso não leva a nada, só prejudica a cidade e a população. Estou recebendo aqui a equipe do governo de transição com a maior naturalidade, como já tinha feito com a equipe do Fernão Dias. Não vejo dificuldade. Torço pelo bem da cidade porque sou bragantino, gosto da cidade e logicamente quero o bem dela porque ela estando bem, eu também estou.

 

Jornal Em Dia – E quem é a imprensa maldita da qual o senhor afirma ter sido vítima nesses anos?

Jango – Todo mundo sabe, só não sabe quem não quer, quem não ouve rádio em Bragança. É uma rádio aí que fala dia e noite de mim, é a FM 102 e o Canal Direto. Vou esconder o quê? É a pura realidade. Dia e noite, eles não falam nada de bom, tudo está ruim. Então, isso me fez mal. Sou radialista, sou jornalista e fico triste com isso. Fui de rádio a vida inteira, escrevi em jornal como articulista, e nunca fui dessa coisa mesquinha, essa coisa pessoal. Acho que nós que militamos nessa área de imprensa temos que falar, emitir opinião, mas tem que ter um bom senso, não fazer virar coisa pessoal para a administração pública. Eu até aceito e gosto da crítica quando ela é construtiva, agora, quando a crítica é só por maldade, isso não leva a nada, destrói a cidade e cria algumas situações delicadas. O José de Lima sofreu também. A cidade só ficou boa quando foi administrada pela Família Chedid, aí tudo eram mil maravilhas, essa é a realidade.

 

Jornal Em Dia – A partir de 1º de janeiro de 2013, o senhor não será mais prefeito. Acredita que cumpriu seu dever, sua missão? Que avaliação o senhor faz do governo que se encerra?

Jango – Saio feliz, com a cabeça erguida, apesar de todas as dificuldades, as adversidades que eu passei aqui, eu deixo a cidade muito, mas muito melhor do que eu peguei. É só pegar os dados, os números, vocês vão ver. Nós fizemos uma revolução na área social e Bragança teve vários avanços, até porque a cidade se situa geograficamente e estrategicamente próximo de São Paulo, Campinas, do Vale do Paraíba, do porto de Santos. A cidade é muito bem localizada, com rodovias importantes, como a Fernão Dias, Dom Pedro, Anhanguera, que cortam aqui e dão para Bragança uma visibilidade. E também tem a questão da qualidade de vida, nosso ar, por sermos uma Estância Climática. Vejo a cidade de Bragança como uma cidade do futuro. Tentei, busquei contribuir da melhor forma possível. Poderia ter feito mais? Com certeza. Mas não dependeu só do Jango, do Gonza, dependeu de outros setores da sociedade, que de uma forma ou de outra acabaram não ajudando, não participando, e depois que tudo acontecia, aí vinham com a solução.

 

Jornal Em Dia – Fique a vontade para suas considerações finais.

Jango – Acima de tudo, quero agradecer toda a população de Bragança, quero mesmo agradecer as pessoas que me recebem com carinho nas ruas. E pedir perdão, com toda humildade, dentro da minha fé cristã, daquilo que eu não consegui fazer e que as pessoas esperam de um homem público, acham que ele resolve tudo, que ele é a solução de tudo. Não. Ele é apenas um agente transformador que depende de outros setores para que ele possa realmente fazer algo. Fico feliz de ver os conselhos funcionando hoje, todos eles com a maior liberdade do mundo, de ter implantado as Leis de Incentivo à Cultura e ao Esporte, de as entidades terem mudado sua cara, por meio do suporte dado pela Prefeitura. Foram várias e várias conquistas, mas volto a frisar, o tempo é que vai dizer o que o Jango fez de bom ou de ruim. O político nem sempre é avaliado naquele momento. Quero nesse momento agradecer a vocês do Jornal Em Dia também, mandar um abraço a todos, dizer que nunca me neguei a dar qualquer informação. E dizer que a partir de 1º de janeiro sou um cidadão comum, estou aberto, volto à minha vida como professor, como comerciante, ou talvez eu volte com a minha caravana, que é meu sonho, voltar a animar a minha caravana. Sempre eu digo, a Deus pertence o meu futuro, Deus sabe realmente o que vai me oferecer. Tenho certeza que eu, minha família, buscamos fazer o melhor, se não conseguimos fazer, tenha certeza que não dependeu só de mim. Na administração pública, o prefeito não consegue fazer as coisas sozinho, mas eu saio de cabeça erguida, com o dever cumprido de uma missão que não foi fácil. Eu sofri muito nesses sete anos.

 

Jornal Em Dia – Valeu a pena, prefeito?

Jango – Valeu. Valeu a pena de eu ver hoje as crianças todas de uniforme nas escolas, de ver uma boa merenda, de ver a fanfarra, a Banda Marcial, de ver as crianças tocando violino, violão, viola caipira, no judô, capoeira, handebol, natação, basquete, a Banda Sinfônica. Tudo isso foram conquistas do meu governo. E de ver essa juventude hoje com oportunidades na cidade, com Fatec, com Senai, Universidade Aberta, coisas que não tinham na cidade. Então, só por isso, valeu a pena o esforço, a vontade, a dedicação de oferecer oportunidades às pessoas que não tinham.

 

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