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28/06: Dia do Orgulho LGBT+

Por que celebramos?

No dia 28 de junho é celebrado, no mundo todo, o Dia do Orgulho LGBT+ (lésbico, gay, bissexual, transgênero, e mais). O dia remonta a um episódio que ocorreu em 1969, na cidade de Nova Iorque. Naquele momento, não ser heterossexual era crime nos Estados Unidos. Em Nova Iorque, se você não estivesse com pelo menos três peças de roupa “apropriadas ao seu gênero”, poderia ir preso (e meias não entravam nessa conta).

Por conta disso, havia fiscalização constante em lugares frequentados por pessoas LGBT+. Eram batidas policiais violentas, nas quais as pessoas não só muitas vezes iam presas como também sofriam violência e humilhação. No dia 28 de junho de 1969, o bar Stonewall Inn, em Nova Iorque, foi alvo de uma dessas batidas. Não era a primeira vez que aquilo acontecia, mas algo diferente aconteceu naquele dia: lideradas por mulheres trans, as pessoas que frequentavam o bar se rebelaram contra as forças policiais que as reprimiam, resistindo e impedindo as prisões e as violências. No ano seguinte, na mesma data, dez mil pessoas se reuniram para comemorar um ano daquele dia, naquela que hoje se considera a primeira parada LGBT, que agora completa 50 anos.

A ideia de “orgulho” surge dessa mudança: quem se sujeitava à humilhação e sentia vergonha, passa a afirmar e defender sua existência e sua condição. No mundo hoje existem incontáveis paradas do orgulho, que dão visibilidade para essas existências e para a diversidade sexual e de gênero – e não é diferente em Bragança Paulista, onde acontece em novembro.

E por que, hoje, passados 51 anos da revolta de Stonewall, ainda precisamos dar visibilidade à essa questão e manifestar publicamente nosso orgulho? Porque, apesar de não ser mais ilegal, ser LGBT+ ainda envolve se deparar com inúmeros obstáculos e violências, como opressões quando há demonstrações de afeto em público, discriminação no mercado e no ambiente de trabalho, ofensas verbais e físicas, inclusive por familiares, entre outros. No ápice dessa violência, o dado mostra que, no Brasil, a cada 26 horas uma pessoa LGBT+ é assassinada ou se suicida, vítima da LGBTfobia, segundo o Relatório de Mortes Violentas de LGBT+ no Brasil – 2019, do Grupo Gay da Bahia, em estudo coordenado por José Marcelo Domingos de Oliveira (doutor em Ciências Sociais pela UniAGES) e Luiz Mott (doutor em Antropologia pela UFBA).

Em 2019, o número absoluto foi de 329 pessoas LGBT+ mortas, sendo 297 homicídios (90,3%) e 32 suicídios (9,7%). Isso faz de nosso país o campeão mundial de crimes contra as minorias sexuais.

Esses números revelam que lutar pelos direitos das pessoas LGBT+, a começar pelo mais básico – o de existir – não é mera vitimização ou “mimimi”, como a retórica de alguns grupos visa a enquadrar. É uma população que precisa de políticas públicas que resguardem e defendam seus direitos. Trata-se de um tema que precisa, por exemplo, estar presente na educação para que tenhamos uma sociedade mais aberta à diversidade, para que a compreensão desta impeça a discriminação e a violência de ocorrer. O ato discriminatório e violento contra essa população é o ápice de um processo que começa na visão estrutural heteronormativa e cisgênera de nossa sociedade, ou seja, na compreensão de que ser heterossexual e corresponder às expectativas do gênero que lhe foi atribuído ao nascer é o normal, é a regra, e aquilo que foge disso, portanto, é anormal, desviante. Somente ao questionarmos essa visão e apresentarmos outra mais inclusiva e tolerante é que podemos começar a construir indivíduos que não discriminem ou violentem alguém por ter uma sexualidade ou uma identidade de gênero diferente da sua.

Há, também, outras medidas que podem ser implementadas, como atendimento psicológico, centros de acolhimento a pessoas LGBT+ vítimas de expulsão de casa ou violência – muitas vezes cometidas por familiares –, bem como espaços de convivência para essa população, que carece de contextos nos quais possa construir vínculos sociais e afetivos. Além disso, projetos de inclusão poderiam ser desenvolvidos nas mais diversas áreas, como esporte, lazer e cultura.

No Brasil, avançamos um pouco em relação aos direitos das pessoas LGBT+, sobretudo a partir de interpretações da Constituição pelo Judiciário, o que nos garantiu, por exemplo, a união estável, o casamento e a adoção por casais homossexuais, a mudança de nome e a retificação do gênero no registro civil de pessoas transexuais e travestis, além da recente criminalização da LGBTfobia. Em Bragança, no entanto, temos feito muito pouco com relação a tudo isso em âmbito local. Nunca tivemos entre nossos representantes políticos alguém que assumisse a defesa dos direitos da população LGBT+ como pauta, que propusesse ou defendesse medidas como as listadas anteriormente. Em nossa cidade, portanto, pessoas LGBT+ ainda estão em vulnerabilidade, sem ter um espaço seguro para procurar em caso de discriminação, violência ou abandono.

Talvez ainda faltem por aqui em nosso contexto local pessoas e lideranças políticas sensíveis a essas questões. Ou talvez falte ainda um pouco daquele orgulho que falamos e que este dia celebra: pessoas que afirmem e defendam sua existência, sua condição, para que possam lutar pelos direitos que são seus e de sua comunidade, a começar pelo mais básico: o de existir e ter uma vida digna, sem discriminação e violência.

É para incentivar esse sentimento e, mais do que isso, para lembrar que não estamos sós, e que não há motivo para baixar a cabeça e se envergonhar, que este dia existe. É para isso que lembramos das pessoas que se orgulharam e se rebelaram em Stonewall.

Feliz Dia do Orgulho LGBT+.

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