Fotos: Arquivo Pessoal
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Uma negra em movimento: mulher que resiste

Neste domingo, 25 de julho, é Dia da Mulher Negra, Latina e Caribenha, data que simboliza a resistência das mulheres negras. Lembrar a data se faz necessário porque é preciso dar visibilidade e reforçar a luta histórica dessas mulheres por sobrevivência em uma sociedade estruturalmente racista e machista.

De acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mais da metade da população brasileira é negra, No entanto, é essa população, com destaque às mulheres, que protagoniza os piores indicadores sociais do país. Segundo o Atlas da Violência de 2019, 66% de todas as mulheres assassinadas no Brasil no ano eram negras. Outro dado, da última Síntese dos Indicadores Sociais do IBGE, mostra que 63% das casas chefiadas por mulheres negras estão abaixo da linha da pobreza. E, mesmo com conquistas, como o fato de, pela primeira vez, os negros serem maioria nas universidades públicas, como mostra a pesquisa Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil, do IBGE, ainda assim, mulheres negras continuam recebendo menos da metade do salário de homens, brancos, negros, e de mulheres brancas no Brasil, e isso independe de sua escolaridade.

Instituído em 1992, no 1º Encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas, na República Dominicana, o Dia da Mulher Negra, Latina e Caribenha surgiu, portanto, para dar visibilidade à luta das mulheres negras contra a opressão de gênero, a exploração e o racismo. No Brasil, a data homenageia a líder quilombola Tereza de Benguela, símbolo de luta e resistência do povo negro. Ela ajudou comunidades negras e indígenas na resistência à escravidão no século XVIII. Após a morte do marido, José Piolho, assumiu o comando do Quilombo Quariterê e o liderou por décadas. Ficou conhecida por ter uma visão vanguardista e estratégica. Sua liderança se destacou com a criação de uma espécie de parlamento e de um sistema de defesa.

Teresa de Benguela é o símbolo e a homenageada da data, mas muitas mulheres negras lutaram e resistiram, depois dela. Em 1950, foi fundado o Conselho Nacional de Mulheres Negras no Rio de Janeiro. Já o Feminismo Negro, no Brasil, enquanto movimento social organizado, teve início na década de 1970 com o Movimento de Mulheres Negras (MMN), a partir da percepção de que faltava uma abordagem conjunta das pautas de gênero e raça pelos movimentos sociais da época. Nas décadas 1980 e 1990, pensadoras como Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro contribuíram para a consolidação das pautas das mulheres negras por meio de suas atuações acadêmicas e políticas. E, mais recentemente, em 2015, a 1ª Marcha das Mulheres Negras levou milhares a Brasília para reivindicar direitos e se tornou um marco da mobilização dessa pauta. 

Em Bragança, quando se fala em luta antirracista da mulher negra, o primeiro nome que vem à mente é o de Izilda Toledo. Não há como falar da pauta sem falar dela e com ela. Por isso, o Jornal Em Dia conversou com Izilda, que contou sua trajetória e mostra que além da resistência, é preciso insistência. 

AQUILOMBAMENTO

“Tenho 69 anos, sou filha de mãe preta doméstica, neta de avó preta, ama de leite, criada basicamente por mulheres pretas, assim como a maioria das mulheres pretas de minha geração. Mãe de um casal de filhos, avó de uma menina preta. Não sou bragantina, mas tenho um carinho especial por essa cidade de minha mãe, que me acolheu com tanto carinho, me permitindo tornar-me a mulher em quem me transformei. Sou pedagoga, bolsista do Prouni, docente do Ensino Superior, especialista em Educação Étnicorracial, estou cursando Filosofia. Sou ativista nos movimentos Negro, Educacional, de Mulheres Negras. Faço parte da Comissão da Verdade Sobre a Escravidão Negra, da OAB de Bragança Paulista, e Promotora Legal Popular. O dia 25 de julho não é uma data para ser comemorada, pois representa a reflexão, o fortalecimento e a visibilidade das lutas contra a condição estereotipada a que fomos submetidas durante todo o processo escravagista, que ainda insiste em nos silenciar. Não queremos vingança, queremos justiça para nosso povo. Hoje me considero uma intelectual, sim. Foi fácil? Não, até os dias atuais, a inteligência e potência da mulher preta incomoda. Sempre citei em minhas palestras o quanto os olhares nos ferem e tentam nos des-qualificar. Vivemos em uma sociedade cruel, racista, sexista, generalista, homofóbica, e que tenta a todo o tempo nos invisibilizar e nos silenciar. Fui protagonista da formação de um aquilombamento, iniciado no final  dos anos 1980 e durante os anos 1990. Esse aquilombamento teve a duração de quase 30 anos e foi denominado Associação Recreativa e Cultural Afro-Brasileira (Arcab). Transformei minha casa em um espaço de formação de novos cidadãos e cidadãs, aptos a buscarem um posicionamento diferenciado na sociedade. Todos que chegavam eram acolhidos de maneira única e amorosa, não havendo distinção, tampouco questionamento sobre cor, credo ou orientação sexual. Tiveram a oportunidade de conhecer e assumir a sua identidade real. Foram muitos. Hoje posso fazer um feedback e entender a missão que me foi transferida pelos meus ancestrais”, reflete.

“Sendo uma mulher preta que atuou e aposentou na área da Saúde, exerci várias outras profissões. Fui a primeira negra a atuar na recepção da Santa Casa local, em seguida fui para a área de enfermagem no setor de Ginecologia e Obstetrícia. Ingressei no serviço público na área da Saúde, me especializei na área do Atendimento Integral da Saúde do Adolescente, entre outros. Sempre muito atenta com a Educação, onde praticamente dediquei minha vida. Durante todo esse tempo de aquilombamento, mais de 27 anos, tive um cuidado especial em promover, além de todos os outros segmentos oferecidos, o de conhecer suas raízes na construção de identidade, o do aumento da autoestima, cultura, esportes, lazer”, conta.

CARREGAR A CHAVE

Pioneira, Izilda não apenas sonhou em abrir portas, mas abriu, literalmente, as portas de sua própria casa para que outras mulheres, e homens também, tivessem uma perspectiva de vida diferente da que ela e outras de sua geração tiveram. Ela é uma daquelas pessoas que “carrega a chave” há anos.

“Não se acomode na situação em que se encontra atualmente. Você que conseguiu certa posição social, acha que é suficiente. Não é. Você tem que entender que a educação em todos os segmentos para nós, pretas, tem que atingir o nível mais elevado possível. Por meio desse alto nível alcançado, você estará apoiando e incentivando as que estão chegando e as que estarão se preparando para chegar. Estaremos lá, na banca de mestrado ou doutorado, para incentivá-las e apoiá-las, pois, em sua maioria, essas bancas são compostas pela elite branca que tenta nos silenciar o tempo todo. Daí, vocês me dirão: ‘fui buscar esse nível mais alto e não estou conseguindo atuar no segmento que tanto lutei para chegar, será que realmente vale a pena?’ É isso que o Racismo Institucional tenta fazer com você. Afirmar o tempo todo que você não tem o direito de estar onde eles, a elite branca, estão. Entendam que estamos sendo silenciadas há mais de 500 anos. Somos resistência, e como tal, buscamos essa liberdade de expressão, esse lugar de fala, esse empoderamento, esse poder que nos é negado, essa visibilidade e esse protagonismo de mulher preta. Não parem, não desistam de seus sonhos. Sim, eu afirmo: você pode ser o que você quiser, chegar onde você quiser e falar o que você quiser. Ubuntu: eu sou porque nós somos. Salve Tereza de Benguela!”.

UMA SOBE E PUXA AS OUTRAS

Izilda faz questão de destacar o nome de diversas mulheres, profissionais das mais variadas áreas, que vivem e atuam em Bragança Paulista. “É de suma importância o município saber que elas existem, que Dona Izilda não é só”, diz.

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