Viagens internacionais e animais de estimação: necessidade de documentação específica pode causar dissabores aos proprietários

As viagens internacionais estão cada vez mais presentes e acessíveis aos brasileiros. A Organização Mundial do Turismo, agência especializada das Nações Unidas, aponta que isso se deve ao aumento da renda, mobilidade social e iniciativas que favorecem o turismo e o crédito.

Para se ter uma ideia, o número de viagens dos brasileiros para o exterior cresceu 62% de 2000 a 2010, ano em que chegou a 5,3 milhões. No mesmo período, os gastos dos turistas brasileiros cresceram 325%. Já em 2012, os brasileiros bateram um recorde: gastaram US$ 26 bilhões em viagens no exterior, considerando gastos com passagens.

Os dados da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) apontam que a quantidade de passageiros transportada em voos internacionais cresceu 128%, passando de 8.093.938, em 2003, para 18.510.995, em 2012.

Mas, para muitos viajantes, um dos empecilhos para tomar a decisão de passar dias, semanas e até meses longe de casa são os animais de estimação, considerados por muitos como efetivos membros da família.

Sem opções de onde deixar os animais e até pela falta que sentirão dos pets, muitos proprietários acabam optando por levá-los junto.

O que muita gente não sabe é que há a necessidade de documentação específica para o transporte de cães e gatos em viagens internacionais.

Para transitar entre países com os pets é necessário possuir um documento emitido pela autoridade veterinária do país de origem e aceito pelos países de destino, que ateste as condições e o histórico de saúde do animal, assim como o atendimento às exigências sanitárias do local para onde se pretende ir.

No Brasil, os documentos aceitos são o Certificado Veterinário Internacional (CVI) e o Passaporte para Trânsito de Cães e Gatos, que são expedidos pelo Sistema de Vigilância Agropecuária Internacional (Vigiagro), órgão vinculado à Secretaria de Defesa Agro-pecuária (SDA) do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

Porém, cada país tem requisitos específicos para autorizar o ingresso de cães e gatos em seu território. Por isso, o Vigiagro alerta para que o proprietário planeje com antecedência a viagem do animal de estimação, e assim tenha tempo suficiente para atender a todas as exigências do país de destino, o que às vezes pode requerer alguns meses.

De acordo com o Sistema de Vigilância Sanitária, é responsabilidade do dono do animal procurar, junto à embaixada ou consulado do país para o qual está viajando, informações sobre a documentação exigida.

Um casal de brasileiros que viajou com sua cachorrinha de estimação da Bélgica para o Brasil neste ano enfrentou transtornos ao descobrir que a documentação que possuíam não era suficiente para retornar à Europa.

O Jornal Em Dia conversou com Wolf Leme Fontana e Silmara Cristina do Couto, que contaram um pouco sobre a experiência. Confira:

A VIAGEM DE JOULIE

Falta de informação não deveria ter afetado a viagem de Wolf e Silmara, que moram em Bruxelas, na Bélgica, e viajaram ao Brasil em junho deste ano para rever a família com a pequena Joulie Cristina. Porém, mesmo buscando informações sobre os procedimentos necessários para a viagem, eles não conseguiram obter todos os dados dos quais precisavam e acabaram tendo dissabores no embarque de volta à Bélgica.

Silmara contou que desde que ela e Wolf decidiram vir ao Brasil sabiam que também trariam Joulie, pois são muito apegados. Assim, ao comprar as passagens, já trataram de reservar um lugar para a cachorrinha na cabine junto ao casal.

Em seguida, Wolf e Silmara procuraram o veterinário que atendia Joulie em Bruxelas para pedir informações sobre o passo a passo que deveriam seguir. O casal conta que o veterinário informou a necessidade de Joulie ter chip de identificação (medida obrigatória em toda a Europa) e colocar em dia as vacinas, em especial a da raiva. O profissional ainda indicou que Wolf e Silmara procurassem o Consulado Brasileiro na Bélgica para obter mais informações.

A orientação foi atendida e os responsáveis por Joulie também procuraram se informar no site do Ministério da Agricultura do Brasil. Ficaram sabendo, então, da necessidade do preenchimento de papeis pelo veterinário e da autenticação deles em pelo menos três órgãos responsáveis.

Os procedimentos foram seguidos, Joulie foi vacinada contra raiva, teve seu passaporte emitido e ela já tinha o chip de identificação. Era só fazer as malas então.

Silmara contou que cada companhia aérea ter normas específicas para as viagens com animais, como tamanho da casinha de acordo com o peso do pet, exigência de que ele não esteja no cio e não seja filhote.

Wolf e Silmara saíram de Bruxelas e fizeram escala em Portugal. Depois, seguiram para o Brasil. No total, foram 15 horas de voo e Joulie não dormiu, pois o casal não conseguiu dar o calmante indicado a ela.

A primeira semana de estadia em solo brasileiro foi de adaptação para a cachorrinha, que tinha medo de sair na rua e não estava acostumada a tantos latidos. Depois, Joulie se ambientou, tanto com os novos integrantes da família e amigos de seus donos como com outros animais, já que os pais de Wolf têm uma cachorrinha chamada Akina.

“Tudo estava indo muito bem, até que na penúltima semana de férias no Brasil fomos nos informar sobre o que precisávamos fazer para embarcamos com Joulie de volta à Bélgica”, disse Silmara.

O casal, então, explica que ligou no Ministério da Agricultura a fim de agendar um horário para o atendimento. Wolf e Silmara descobriram, nessa ocasião, que além do passaporte, da vacina contra a raiva (três meses antes de viajar) e da autorização do veterinário, eles precisariam que Joulie tivesse um exame chamado sorologia da raiva.

Conforme explicaram os proprietários de Joulie, o exame de sangue é feito depois da aplicação da vacina contra a raiva para verificar se ela fez efeito no animal. A medida não é exigida no Brasil, mas na Bélgica e em todos os países membros da União Europeia sim.

“Ficamos desesperados porque o veterinário da Bélgica deveria ter nos informado sobre isso, já que ele sabia que iríamos voltar, mas não informou”, recorda Silmara.

Além disso, após o exame, seria necessário esperar três meses antes do embarque e a viagem de volta já tinha data marcada para as próximas semanas.

Wolf e Silmara procuraram o Ministério da Agricultura por diversas vezes e também o Consulado Belga, em São Paulo, onde não foram bem atendidos, conforme relataram. Mas as tentativas de encontrar uma solução foram frustradas.

Assim, Joulie acabou ficando no Brasil com Silvana Aparecida Souza Leme Fontana e Admílson Fontana, os pais de Wolf, que, com Silmara, embarcou de volta para Bruxelas em 29 de julho.

“Foi muito difícil pra nós, pois temos a Joulie como nosso bem mais precioso. Sabíamos que ela ia ficar em boas mãos, na casa da minha sogra. Ela já tinha se adaptado e tudo, já não dormia mais com a gente, só com meu sogro, os dois se tornaram grandes amigos. Enfim, ela ia ficar bem, mas nós íamos chegar em casa e não íamos ter mais nossa menina”, recordou Silmara.

Foram três meses até que Joulie pudesse voltar à Bélgica. Em 5 de novembro, Admílson e Silvana embarcaram com ela e a entregaram a seus proprietários. “Ela voltou graças à minha sogra e ao meu sogro, que se ocuparam de fazer o restante do procedimento”, disse a dona de Joulie.

A experiência poderia ter sido bem menos traumática se todo o procedimento tivesse sido detalhado ao casal, mas, em 2015, Wolf e Silmara planejam fazer nova viagem com Joulie. “Na próxima viagem ao Brasil, Joulie também irá, é claro, mas agora já estamos cientes de todos os procedimentos necessários. Uma informação que falte pode mudar todo um projeto. Para as pessoas que desejam viajar para outros países com animais de estimação, meu conselho é que se informem no Ministério da Agricultura e nos órgãos competentes do país de destino, para evitar grandes problemas como o meu”, finalizou Silmara.

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