Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
João Cabral de Melo Neto
A onda de manifestações preconceituosas que invadiu a internet após as eleições, a meu ver, só delata uma grande verdade: o ser humano está sempre à espera de algo que se pareça com uma oportunidade para lançar todo seu ódio e preconceito para fora. Somos maus, essa nossa natureza parece estar adormecida, mas ao menor sinal de “oportunidade” se manifesta e com fúria tal, que chega a enojar.
Parece mesmo que temos, ou muitos de nós têm, um preconceito tão arraigado com relação a algumas questões, que palavras de ódio se confundem com palavras de ordem, e sentenças que nunca, jamais deveriam ser proferidas tornam-se verdades absolutas.
Sofremos do pior tipo de preconceito, que é aquele que fica encubado, quietinho, pouco se deixa transparecer, enquanto sorrimos sorrisinhos gentis e fingimos que amamos nosso próximo.
Tenho pra mim que é uma espécie de recalque de que sofremos. Colonizados como fomos, às coxas e aos saques, explorados até a alma, ainda hoje ansiamos pelo lugar de dominador, e se ele não chega, que o imponhamos, fazendo-nos, segundo nossas palavras e atos, melhores que nossos compatriotas.
Há quem sugira dividir o país, quanta bobagem! Estes que defendem essa ideia absurda e retrógrada, mal sabem que há tempos já estamos divididos e que todas as políticas e ideologias sempre trabalharam para esse fim. Somos um povo dividido pelo nosso próprio preconceito e por paixões tão baixas, que nem aos menos deveriam ser assim chamadas.
Fico chocada ao ler certas afirmações, porque as pessoas as defendem com tanta paixão, que pouco ou nenhum espaço sobra para a razão e o bom senso.
Meus caros, quanto gasto de energia pra se defender o indefensável, quanto ódio pra justificar nossa maldade... Quanta desculpa pra aniquilar com o conceito de democracia. Estão vocês, porventura, saudosos da Ditadura?
Ou é só recalque mesmo? Recalque do oprimido, que vez por outra, inflama-se no desejo de ser, ao menos uma vez, o opressor?
Sinto vergonha daquilo que nos tornamos, sinto saudades do Lar.
Sim, porque não pertenço a esse reino terrestre, nem muito menos aos poderes podres que o governam. Eu pertenço ao Reino. E fico imaginando como meu Rei e Senhor deve estar triste conosco, afinal, nos fez irmãos, paulistas, mineiros, gaúchos, nordestinos...
Ah, como eu anseio pelo dia em que o Reino, único e verdadeiro instaure-se de uma vez e para sempre... Mas enquanto espero, trabalho diligentemente para que o valores dele sejam estabelecidos aqui. Acho que seja essa a vontade do Pai.
Aquele que nos fez irmãos deseja encontrar-nos em amor.
Então, engula esse choro, engula seu ódio e depois o regurgite, e celebre, celebre a vida e a democracia, afinal, somos todos Severinos!
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