Porque eu gosto de cinema...

Opto essa semana por escrever sobre o filme “Querida, vou comprar cigarros e já volto”, que tive a oportunidade de assistir na terça-feira, na sede da Ases.  A exibição fazia parte do projeto “Cineclube”, realizado pela Edith Cultura, em parceria com a já citada Ases.

Assumo o risco de parecer patética ou ainda pretensiosa, mas o que quero não é tecer uma crítica ao referido filme, já que não teria competência para tal, mas apenas e tão somente registrar algumas impressões que o ele causou em mim.

E começo contrariando algumas críticas que me dispus a ler antes de ir à exibição. Em sua maioria, elas ressaltavam que o filme utilizou-se de um argumento já muito recorrente no cinema, que é o da possibilidade de fazer uma viagem no tempo. Um exemplo do uso desse enredo encontramos em nosso cinema nacional, com “O homem do futuro”, por exemplo. E, obviamente, esses críticos não estão errados ao afirmarem isso, mas tenho pra mim que essa não é a característica que mereça destaque, até porque e apesar do uso desse argumento já tão “batido”, os autores o fizeram de forma diversa, eu diria mesmo, de forma magistral e diversa.

E arrisco dizer que não, a história não se concentra na possibilidade da viagem temporal, mas, sim, na mediocridade da vida humana. E é justamente isso que fascina no filme, a possibilidade de nos reconhecermos na mediocridade de seu personagem principal. A vida que segue e suga aquilo que somos.

Ou será que nós é que nos superestimamos quando nos consideramos diferentes, extraordinários, num mundo marcado pela mediocridade?

O fato é que o filme me conduziu, e acredito que a mais alguns expectadores também, a esses e outros questionamentos. Marcado pelo humor, pela ironia com que são retratadas as situações com as quais podemos alguns de nós nos identificar, o filme atinge o público, porque é, ao menos ao meu ver, inteligente e verossímil. (Ah, os palavrões em espanhol dão um charme a mais às falas).

Talvez chamá-lo e ao seu enredo de “verossímil” pareça exagerado a alguns, talvez seja obra de meu cérebro e visão um tanto quanto esquizofrênicos, mas, quem é que nunca se propôs em pensamento poder reviver fases da vida, a fim de modificar algumas ações? E o personagem, Ernesto, ganha essa possibilidade, aliás, não apenas essa possibilidade como também a de se tornar um milionário em função dela.

Ele é convidado a voltar no tempo e reviver esse tempo com sua mentalidade atual, com toda a bagagem de experiências que acumulara, na sua maioria, malsucedidas. E eu me pergunto: O que afinal, aprendemos com o tempo? Ouso eu dizer que desaprendemos mais que aprendemos.

Essa sua volta duraria anos nessa outra realidade, mas na atual, seriam apenas alguns minutos, daí o título “Querida, vou comprar cigarros e já volto”. A pergunta que o expectador é convidado o tempo todo a se fazer durante o filme é: Será que Ernesto, esse cara medíocre, derrotado, conformista, vai conseguir mudar alguma coisa em sua vida? E a resposta que o filme e a vida nos dão é: Não. E confesso que isso muito me agradou, porque e ainda que, obviamente, essa possibilidade não exista de fato nessa nossa realidade desse plano, há quem sonhe com isso. Eu, honestamente, nunca fui desses. Tenho pra mim que o vernáculo “se”, essa conjunção condicional, devia mesmo ser extinguida de nosso idioma. Pasmem, o “se” não existe! Normalmente, é utilizado para dar vazão aos devaneios dos covardes e medrosos. O “se” existe?

Talvez essa pergunta ainda paire sem resposta, talvez o filme seja bom, porque somos maus e maus conosco mesmos. Talvez tenhamos perdido a capacidade de imaginar, e uma das falas iniciais do autor do argumento questiona justamente isso. Talvez o tempo e a vida e a eminência da morte, e a sociedade com suas coerções todas e seus códigos de moral e seus não-me-toques e suas proibições tenham paulatinamente nos transformado a todos nós, com raras exceções, em Ernestinos, e parece mesmo que não há nada de anormal nisso.

Aproveito para parabenizar a Edith Cultura e a Ases pela iniciativa!

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