Pensando sobre o que escrever essa semana, um anjo desses adeptos da poesia sussurrou em meu ouvido: escreva poesia! E, obediente como sou aos espíritos da inspiração, logo pensei: está aí, será a poesia meu tema.
Mas quase que imediatamente também foi que me censurei, como é que alguém pode pensar em poesia, em meio a um mundo truculento como o nosso, vivendo num país como o nosso, às vésperas de sediar um evento tão grandioso quanto às críticas a ele?
Como pode? Eu devo ser mesmo uma alienada... Como pensar poesia, enquanto a fome bate à porta de milhões, e o alimento que lhes falta sobeja na mesa de homens ímpios... Como pensar poesia, enquanto somos roubados em nossa dignidade e direito diariamente? Como?
A poesia é o que me salva da vida. E sempre foi assim. Ela é meu refúgio, e ao mesmo tempo, minha arma. Inútil, eu sei. Mas a amo. E amor genuíno é assim mesmo, não carece de muito motivo ou explicação. A gente ama porque ama.
Então, em tempos de desamor e torpor, quase que absoluto, de maldade e pouca esperança, reafirmo minha paixão pela poesia. E com esse olhar desde sempre esquizofrênico que tenho, enxergo sua beleza onde muitos nada veem, e insisto em ver flores nascendo do asfalto.
Segue o texto que o anjo sussurrou-me:
Sei que minha existência representa um fardo pesado pro mundo,
E se não mudo, é justamente por ter essa consciência,
De que desagrado e incomodo e difiro e contesto,
E estou sempre à margem,
À margem desse lamaçal de mentira, medo e ódio.
No meu caminho há flores, que poucos enxergam,
Há leveza e beleza suficientes para torná-lo mais ameno.
Há fé e esperança, que tornam meu semblante menos grave,
E me fazem destoar do restante dos transeuntes.
Porque para mim, a vida soa urgente e viva,
E não há nela lugar para protocolos e burocracias.
Esse espaço todo está devidamente preenchido pela poesia,
Minha poesia pobre, livre e tão necessária à minha humanidade.
Estou cercada e alicerçada por crenças infantis aos olhos do mundo,
Esse mundo adulto, adulterado, que não me apetece em nada,
Com suas dúvidas eternas e filosofias delirantes,
E todas as dores que estas lhe trazem...
Tenho dores também, às vezes elas são necessárias,
Mas em contrapartida, tenho antídotos e bálsamos em minha alma.
Entendo a vida, repudio a existência.
Sobrevivo ao caos, como o sol,
No seu exercício diário de pontualidade e benevolência.
Sofro de um tipo raro de esquizofrenia chamado poesia,
Jamais ousei buscar sua cura,
Esse constante estado diverso de beleza e consciência crítica
Que ela me proporciona
É tudo quando mais desejo.
Logo, aceito meu fado de doente crônica com um prazer absurdo,
E sigo vivendo, não apenas existindo, nesse nosso mundo de absurdos.
Viver implica dizer não ao conformismo:
- Sim, eu vejo flores nascendo no asfalto!
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