O encantamento de Francisco

O poverello de Assis sempre me comoveu, e acredito que às almas mais delicadas, também. Às mais desajustadas ao mundo, então...

Ah, o santo andarilho de Assis serve de modelo e inspiração. Sua devoção e sua entrega ao Senhor a quem serviu em flagelos e entre os flagelados marginalizados nos constrange a repensar nossa própria existência e razão de ser no mundo.

O encantamento de Francisco e sua figura magnética, por amorosa que era, nos convidam de maneira extremamente doce a amar também. Seu desapego nos envergonha a nós que temos aprendido e ensinado a acumular bens como promessa de conforto, segurança e algum prazer.

A segurança de Francisco estava na dependência absoluta da providência do Altíssimo; seu conforto, no desconforto de se deixar confundir com a escória da sociedade; seu prazer, em servir. E eu poderia continuar escrevendo sobre esse choque de consciência e encantamento que o santo de Assis quase sempre provoca, inúmeras e apaixonadas linhas, mas alguém, contraditoriamente, roubou-lhe minha atenção, como que desviando-me dele, ao mesmo tempo que, humildemente, me remetia por semelhança aos passos do companheiro de Clara.

Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, o representante máximo da Igreja Católica, me encantou, e isso desde o anúncio de sua eleição, desde o momento em que optou por intitular-se Francisco, numa clara homenagem ao maltrapilho de Assis, e mais ainda, quando convenceu-me, e ao mundo de suas semelhanças com ele.

Seus atos e palavras realmente fazem jus à escolha do nome e todo esse seu magnetismo só pode ter sua fonte no amor daquele a quem Francisco amava insanamente. É nítido, quem conhece e se permite envolver pelo amor absurdo do Cristo de Francisco, reluz! Não há como ocultar o brilho do olhar daquele que tem a convicção de ser imerecidamente amado. E aqui, registro um pleonasmo, porque amor, em essência, é sempre imerecido.

Não há como agir diferente dos Franciscos, quando fulminantemente atingido por tal amor. Agir de outra forma seria hipocrisia, e para os discípulos do Cristo de Francisco essa palavra há tempos perdeu por completo seu peso e significado. O fariseu dentro deles foi morto pelo desprendimento e pela liberdade que a graça traz.

O amor imerecido com que Deus nos ama, vê-se refletido em ambos os Franciscos e isso me encanta, comove e constrange.

 

AO CRISTO DE FRANCISCO

 

Naquele em quem todos nós nos movemos e existimos,

desde o mais céticos aos mais piedosos,

Nele estejam nossos atos e pensamentos.

 

...

Nas mãos que destroem as fachadas dos suntuosos templos

de nossa ilusão cômoda,

as mesmas mãos que o Senhor convoca ao trabalho diligente de amar.

 

Nos pés que, ainda que cansados,

escolhem seguir o caminho mais laborioso,

que é sempre aquele que nos conduz ao nosso semelhante.

 

Na boca apta tanto à boa palavra,

como à bênção do ósculo.

 

Nos olhos que nos permitem contemplar a excelência da simplicidade,

Nas mil estrelas dos olhos de Clara,

janelas nas quais o Espírito penetrou,

a fim de que, através delas, o mundo fosse visto sob a ótica do amor

do Cristo de Francisco.

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