Em mim

Foi em meio a um sonho que ele me apareceu. Ou, aparentemente em meio a um sonho. Mas que importa? O que é nossa vida se não um breve sonho...?

E com a voz suave e forte que só ele sabe ter, disse-me, ao que reagi imediatamente com um salto da cama:

- Aninha...acorde! Precisamos conversar.

E eu, já desperta, mas com a preguiça de uma criança, respondi:

- Agora? Não pode ser depois, não?

- Não, minha querida, sente-se, que preciso revelar-lhe alguns segredos.

Pronto, ouvir a palavra “segredos”, assim tão docemente pronunciada por aquele que em si concentra todo o segredo do mundo, foi o que bastou para que meus grandes olhos se abrissem um pouco mais, tomados por uma curiosidade infantil.

-O que é? Perguntei, aflita. Por acaso o senhor veio aqui falar-me de tristezas ou dor? Ou veio tecer algum aviso, não sei, vai acontecer algo de ruim? É comigo? Porque se for comigo, tudo bem, mas se não... Ah...

Uma gargalhada cortou minha fala, dividindo-a entre antes de eu me sentir uma boba e depois disso. Ele ria e era um riso tão gostoso, que acho mesmo que foi essa a melodia que se ouviu quando ele criou o cosmos.

- Aninha, minha pequena grande menina, você e seus irmãos são tão pessimistas e curiosos e bobos. Não, eu não vim aqui tecer advertências, nem tão pouco trago más notícias. Eu, hein, vocês têm cada ideia!

Eu trago vida e você já devia saber disso, disse, enquanto acariciava meu rosto.

Quero contar-lhe uma história. E ela começa há exatos trinta e um anos atrás. Talvez já lhe seja conhecida. Ah, Aninha, como é que vou eu tentar fazer suspense se sei que é uma leitora ávida e já deve estar a adivinhar de quem falo.

Sim, você sempre foi assim apressada, aflita por conhecer o mundo e as possibilidades de vida que espalhei cuidadosamente por ele, tanto, que nasceu aos oito meses de gestação. Sim, tudo providencial, afinal, coitadinha da minha querida Claudete, suportar o peso que carregar no ventre uma menina assim, tão grande e aflita e espoleta.

Já era hora, meu bem, de você abrir esses seus olhos grandes e vivos para esse mundo. Eu escolhi que fosse assim. Numa noite fria, no dia que marca o início da estação mais fria do ano.

Bom, de lá pra cá, você sabe muito bem tudo o que aconteceu. Conforme crescia, nos tornávamos mais amigos, porque ao contrário do que muitos supõem, a razão não os impede de me conhecer, antes, os aproxima ainda mais de mim. E cá entre nós, você não mudou muito nesses 31 anos, às vezes, até penso ser ainda a minha Aninha espoleta de sempre, cheia de sonhos, esperanças, medos, frustrações e muita fé. E é justamente isso que quero pedir-lhe que conserve. Sabe, filhinha, a única coisa que não se pode macular é nossa essência!

Na verdade, eu a acordei, por isso, para relembrar-lhe de sua essência. E sim, tinha de ser hoje, quando você, segundo o calendário dos homens, completa mais um ano de vida.

Ah, Aninha, não deixem que corrompam sua essência. Eu mesmo a idealizei assim: meio doida, sincera ao extremo, doce, poeta, mulher, sensível, enfim, você sabe, sempre gostei de emoção.

E ele mais uma vez riu, e dessa vez foi como se seu riso forte e quente invadisse toda minha alma, mais uma vez, como uma segunda experiência do sopro da vida no Éden, e eu me senti plena, repleta de uma quentura doce, capaz de aquecer aquela noite congelante de início do inverno.

Abri finalmente os olhos, já era manhã. Não soube dizer onde ele estava, aliás, eu sempre sei e sempre o encontro no mesmo lugar, quando o busco com a singeleza de uma criança carente do colo amável de seu pai, Ele esteve, Ele está em mim!

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