Técnico da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo fez uma visita preliminar para levantar informações históricas
Na sexta-feira, 2, o Clube Recreativo e Beneficente 13 de Maio recebeu a visita de um representante do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) do estado de São Paulo para iniciar um processo de análise que poderá resultar no tombamento do clube como Patrimônio Cultural Imaterial Afro-Brasileiro. Com sede na Praça Coronel Jacinto Osório, o clube funciona em parceria com a Arcab (Associação Recreativa e Cultural Afro-Brasileira).
Mário Augusto Medeiros da Silva é técnico da Unidade de Preservação do Patrimônio Histórico (UPPH), uma das Unidades da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, que dá apoio técnico e administrativo ao Condephaat. Ele explicou que a visita é uma fase preliminar para conversar com representantes e conhecer a estrutura e a documentação para entender a história do clube e verificar quais são as possibilidades de preservação do ponto de vista estadual.
Esse processo deriva de um pedido da Comissão Estadual de Clubes Sociais Negros ao Condephaat, feito em 2011, solicitando o tombamento de 22 clubes, entre eles o CRB 13 de Maio. “Em 2012, houve um encontro dos clubes paulistas em Jundiaí para discutir esse processo”, explicou Mário ao Jornal Em Dia. A partir de então, Mário começou a fazer visitas técnicas com uma colega arquiteta nos clubes, priorizando os mais antigos do estado.
Bragança Paulista foi o quinto município visitado. De acordo com Mário, o próximo passo é escrever um parecer com as informações coletadas para apresentar aos 27 conselheiros do Condephaat, que representam as universidades públicas USP, Unesp e Unicamp, secretarias estaduais e representantes da sociedade civil. O Conselho irá analisar o parecer e, se der uma resposta positiva, haverá um aprofundamento dos estudos do clube para tombamento.
A previsão de encaminhamento do parecer é até o final do ano. O técnico disse que é importante a colaboração do poder público, imprensa, escolas, universidades, grupos e pessoas da cidade para enriquecer as informações sobre o clube. “Temos tido muita dificuldade para encontrar trabalhos sobre clubes negros do estado”, afirmou. Fotografias, documentos, depoimentos, pesquisas, teses, artigos e publicações em geral ajudam a compor o levantamento.
Estiveram presentes durante a visita técnica a fundadora e coordenadora geral da Arcab e mantenedora do CRB 13 de Maio, Izilda Toledo; a filha de Izilda e arte educadora, Agnes Toledo; o coordenador do núcleo de Bragança Paulista da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde, José Severino da Silva; a documentalista e representante da Câmara Municipal no Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural de Bra-gança Paulista (Condephac), Carmen Lúcia Frias; o vereador Valdo Rodrigues e o chefe da Divisão de Cultura da Secretaria de Cultura e Turismo de Bragança Paulista, Fernando Fagundes.
Izilda explicou que o tombamento será uma alavanca para consolidar melhor a história dos negros de Bragança Paulista, valorizando o seu papel social, político e cultural. A situação atual da Arcab e do CRB 13 de Maio é complicada, pois as dívidas e a falta de recursos e apoio dificultam a continuidade das atividades e a participação nos encontros da Comissão Estadual de Clubes Sociais Negros, que ocorrem cada vez em uma cidade diferente, conforme apontou Izilda. Além disso, o prédio doado ao clube encontra-se muito deteriorado, apesar de a construção ser de 1997.
A fundadora da Arcab tem a ideia de transformar o local em um centro cultural afro-brasileiro aberto a toda população. Ela acredita que o tombamento também poderá abrir portas para novas parcerias, entre elas, a tentativa de um convênio com universidades para fazer um mapeamento de locais em Bragança Paulista com potencial turístico que revelam a cultura afro-brasileira e contam a história dos negros.
Carmen Lúcia irá ajudar no levantamento de documentos históricos e disse que acha importante que a Arcab tenha uma cadeira no Condephac. Fernando Fagundes contou que está fazendo um levantamento histórico para a comemoração do aniversário de Bragança Paulista e irá aproveitar para reunir também a história dos negros na cidade. Ele disse ainda, que pretende realizar uma reunião em breve com pessoas de movimentos negros do município para discutir possibilidades que valorizem mais a cultura afro-brasileira.
SOBRE O CLUBE 13 DE MAIO E A ARCAB
Remanescente do Clube dos Escravos, o Clube Recreativo e Beneficente 13 de Maio foi fundado em 15 de Novembro de 1934, tendo sua sede inicial à Rua Cel. Teófilo Leme. Ao longo dos anos, o clube foi espaço de festas, peças teatrais, bailes e outros eventos culturais.
O Clube dos Escravos foi fundado em 1881 em Bragança Paulista e tinha sede em uma casa na Rua Santa Clara. O clube durou poucos anos, conta-se que por causa de obstáculos criados por escravocratas. Se tivesse continuidade, poderia ser considerado o segundo clube social negro mais antigo do Brasil.
A Arcab, fundada em 22 de janeiro de 1988, tem o objetivo de valorizar a cultura negra no contexto social brasileiro, promovendo reuniões e atividades de caráter estético, cívico, cultural, artístico e recreativo, visando a uma perfeita interação da comunidade com a sociedade e a conscientização no combate à discriminação racial e social no país. Por não possuir sede própria, Izilda compôs parceria com o CRB 13 de Maio, passando a ser sua mantenedora.
A associação se encontra regulamentada estatutariamente no novo Código Civil e é referência da cultura negra de Bragança Paulista, responsável por promover oficinas de hip hop, maracatu, dança afro, artesanato, percussão, capoeira, turismo étnico, iniciação ao teatro, entre outros projetos.
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