Casos de estupro: Delegado afirma que não há motivo para pânico e apela que população tenha responsabilidade na divulgação de dados

Matéria publicada na edição de 22/03/2015

Nessa semana, uma onda de pânico se instalou em Bragança Paulista com a possibilidade de que um estuprador estivesse agindo na região do Lago do Taboão. Essa informação foi propagada pelas redes sociais, especialmente pelo Facebook, onde pessoas chegaram a divulgar fotos de possíveis suspeitos e características do veículo com o qual o suposto criminoso agia. Ocorre que as informações não eram verdadeiras.

Nessa sexta-feira, 20, o Jornal Em Dia conversou com o delegado titular da DIG (Delegacia de Investigações Gerais), Sandro Montanari Ramos Vasconcellos, que esclareceu os fatos.

Apesar de um caso de estupro ter sido registrado na quarta-feira, 18, na região da Vila Aparecida, o delegado afirmou que não há motivo para pânico, pois os casos de estupro que têm ocorrido na cidade, ao menos a princípio, não têm relação um com o outro. E, falando especificamente do último estupro, o delegado declarou que se trata de um caso pontual.

ESTUPRO

O QUE DIZ A LEI

Já no início da conversa com a reportagem, o delegado titular da DIG esclareceu o que é o estupro de acordo com a lei vigente. “Primeiro, é importante fazer uma breve explicação. Quando se fala em estupro, houve uma modificação da lei há cerca de seis anos. O estupro, que era considerado um crime só praticado por homens contra mulheres, mudou. Antigamente, eu só poderia falar em estupro com conjunção carnal entre homem e mulher. Hoje, estupro não é mais isso. Hoje é qualquer tipo de penetração, seja em homem ou mulher, ou qualquer tipo de ato libidinoso, qualquer tipo de bolinagem é considerado estupro também. Isso tudo está no artigo 213 do Código Penal Brasileiro”, explicou.

Em seguida, Sandro afirmou que desde o início do ano até a última sexta-feira, 20, foram registrados nove estupros na cidade. O delegado ressaltou, porém, que alguns casos se confundem com violência doméstica e que em outros, numa investigação mais profunda, foi possível constatar que não houve conjunção carnal, “apenas uma bolinagem”. Alguns autores relacionados a esses registros já foram identificados e estão respondendo criminalmente pelo que fizeram, de acordo com o delegado.

Conforme apontou Sandro, até agora, foram quatro as ocorrências em que o estupro se consumou. “Posso dizer que houve um estupro nessa semana, na Vila Aparecida, foi um caso de estupro consumado, a vítima foi ouvida por mim. Houve o do Campinho, na Bragança/Itatiba. Houve outro no Parque dos Estados. E houve ainda um caso no Jardim São José, em que a pessoa também foi pega por um carro e em que o autor dialoga com a vítima dizendo “Estou fazendo isso porque fulano de tal fez isso com a minha mulher”. Então, são casos esparsos, para os quais foram instaurados inquéritos policiais, foram verificados os locais. O que posso adiantar é que são casos em que o modo de atuação foi diferente um do outro, não existe uma sequência de atos entre uma mesma pessoa praticando esses crimes. As características físicas apontadas pelas vítimas não batem entre si, o que me leva a crer, pelo menos até esse momento, que quem praticou esses crimes são pessoas distintas”, declarou.

REDES SOCIAIS X INFORMAÇÕES OFICIAIS

O delegado da DIG informou que estupro é um crime complicado, mas enfatizou que trabalha para apurar e esclarecer quem são os autores das últimas ocorrências.

Sandro descarta a possibilidade de haver na cidade um maníaco, um estuprador em série. “Tivemos um caso serial, que prendemos há dois meses, que é o Lerão, que fez crimes em série na Avenida Norte-Sul, ligando a Vila Aparecida. Mas ele foi e continua preso”, garantiu.

O delegado também alertou a população quanto à importância de se checar informações antes de repassá-las nas redes sociais. “A Polícia Civil não trabalha com achismo, ela trabalha com fatos e evidências. Eu não posso trabalhar com achismo ou conjectura, nós vamos do crime ao criminoso, numa sequência lógica. Tomei conhecimento de retratos falados colocados na rede social, inclusive apontando veículos que a pessoa pode ter usado, mas todas as informações são inoficiosas. A Polícia Civil jamais vai trabalhar com uma divulgação em rede social, salvo a identificação concreta, como nós fizemos com o Lerão. O Lerão, quando foi possível a prisão dele, aí sim pedimos um apelo para a população, mostramos o rosto do cidadão e como ele poderia agir. E nunca vamos incentivar o enfrentamento. Todas as informações que circularam nas redes sociais, posso dizer com a maior certeza do mundo, não são oficiais”, frisou.

Sandro ainda lembrou do fato da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, que foi agredida por dezenas de moradores de uma comunidade no Guarujá, litoral de São Paulo, em maio de 2014, devido à divulgação em rede social de um retrato falado de uma mulher que realizava rituais de magia negra com crianças sequestradas. Fabiane não resistiu aos ferimentos, na ocasião, e morreu.

“As investigações têm origem aqui na Delegacia de Investigações Gerais. Nenhuma informação passada na rede social é oficial, é tudo inoficioso e irresponsavelmente colocado no Face. Temos que evitar esse tipo de comportamento. Faço um apelo para que a população bragantina não dê muito valor a questões que não sejam oficiais. O que é oficial nós vamos passar para a imprensa de acordo com o que tem que ser. Tudo o que já foi dito nesses últimos dias, inclusive apontando características do carro usado, é um absurdo, porque coloca os proprietários de carros dessa natureza como suspeitos. Podem ser depredados, as consequências disso são muito graves, por isso, a gente tem que tomar muito cuidado”, afirmou Sandro Montanari.

Em relação ao último estupro, ocorrido na Vila Aparecida, o delegado disse que duas equipes de investigadores trabalham para esclarecer e identificar o autor. “Inclusive nesse momento (sexta-feira à tarde), estamos fazendo diligências deste caso e nosso objetivo é realmente investigar, esclarecer e prender esse criminoso. Ele praticou um ato horrível, é um crime terrível e a gente vai tentar atenuar a dor da vítima, que teve a sua integridade física e sexual violada”, disse.

TENTATIVA DE ESTUPRO NO JARDIM DO SUL POR ENCANADOR NA VERDADE NÃO TEM CARACTERÍSTICAS DESSE CRIME

No dia 1º de março, foi registrado um boletim de ocorrência de tentativa de estupro no Jardim do Sul, próximo à USF (Universidade São Francisco). Porém, conforme esclareceu o delegado Sandro Montanari, a ocorrência está sendo tratada como tentativa de roubo, pois não há elementos que a justifiquem como outro crime.

De acordo com Sandro, o histórico do boletim de ocorrência foi baseado em informações de terceiros e não propriamente da vítima, que só foi ouvida cerca de 15 dias após o ocorrido, quando então deu sua versão do fato. “O homem se identificou realmente como um encanador, a pedido dela mesmo, para verificar goteiras na casa, e ela, quando estava apontando as goteiras, foi surpreendida por ele, que a atacou, deu uma chave de braço nela, querendo a imobilizar, mas ela conseguiu se desvencilhar, acabou gritando, e ele ficou apavorado, até porque estava num condomínio, e então ele fugiu”, contou o delegado.

Diante dessas informações, a polícia trata a ocorrência como tentativa de roubo. “Então, é o que eu tenho. Em virtude disso, não posso afirmar qual era a intenção do agente. Ele poderia estar lá para roubar, para estuprar, cometer outros crimes previstos na lei, mas não tenho condições de afirmar. Então, trabalhamos nesse caso em específico mais com uma hipótese de tentativa de roubo do que propriamente um caso de estupro porque em nenhum momento ela foi abusada, bolinada, teve suas partes íntimas tocadas. Em nenhum momento ele demonstrou que estava querendo praticar um ato libidinoso com ela. Isso não foi colocado pela vítima”, enfatizou Sandro.

Apesar disso, muitos boatos circularam na cidade sobre essa ocorrência, motivo pelo qual o delegado ressaltou novamente a importância de se checar os fatos antes de divulgá-los. “É importante dizer também que uma mentira contada cem vezes, se torna verdade. E aí ela vai causando temor, as pessoas vão criando lendas em cima disso. É o que falei, a polícia não trabalha com achismo, com conjectura, trabalha com fatos concretos, reais. Para isso, temos o instrumento de investigação, que vai verificar o que está acontecendo. Temos toda uma técnica de oitiva, de interrogatório para puxar realmente a história como ela é de verdade para que não vire um telefone sem fio onde algo que aparentemente não é nada vire um crime absurdo”, alertou.

NÃO EXISTE CAUSA PARA PÂNICO

O titular da DIG reforçou ao Jornal Em Dia que não há fatos e evidências que levem a polícia a lidar com a hipótese de que haja um criminoso em série agindo na cidade.

“A gente não é Deus, não está monitorando o tempo todo, todo mundo, trabalhamos com fatos e evidências, mas eu poderia dizer que, com tudo o que foi apurado até agora, não existe um criminoso em série. E quando existiu, essa pessoa que fez crimes de estupro em série foi presa e continua presa (referindo-se a Rogério Francisco de Campos, vulgo “Lerão”, preso em 23 de janeiro de 2014). No tocante à rede social, primeiro, é importante agir com responsabilidade, jamais colocar fotos de pessoas que nem se sabe o que está acontecendo, isso pode gerar um problema muito grande, porque se tem uma pessoa parecida com o retrato falado ela pode morrer linchada. Existe causa para pânico? Posso afirmar que não. A polícia está atenta, está fazendo o trabalho dela, vamos investigar e a gente espera que o mais rápido possível a gente resolva, especialmente, esse último estupro, que para mim é pontual. Tenho informações que ainda não posso dar, mas a gente vai trabalhando, sempre do crime ao criminoso, nunca do criminoso ao crime”, esclareceu.

Sandro também afirmou que a Polícia Militar e a Guarda Civil, responsáveis pelo policiamento ostensivo, já foram notificadas quanto aos casos de estupro e foi solicitado que elas façam rondas nos lugares que estão sendo apontados como mais problemáticos.

“Em relação à Polícia Civil, ela tem por objetivo investigar, esclarecer e prender. Até pela lógica, tenho como premissa o sigilo, a discrição, vou fazer meu trabalho de forma discreta, sigilosa e vamos tentando num esquema sequencial chegar aos autores dos crimes”, concluiu o delegado Sandro Montanari Ramos Vasconcellos.

O MAIS RECENTE CASO DE ESTUPRO NA VILA APARECIDA

Na noite de quarta-feira, 18, uma mulher foi atendida na Santa Casa local com ferimentos graves no corpo e na região da cabeça, afirmando ter sido vítima de estupro.

A Polícia Militar, então, foi acionada e compareceu ao local. Apesar da dificuldade em relatar o que havia ocorrido, a vítima indicou onde era sua residência. Os policiais foram até lá e constataram que o imóvel estava todo revirado e que havia marcas de sangue espalhadas pelos cômodos.

Conforme as informações preliminares, a vítima informou que foi abordada quando saía de sua casa para trabalhar, por volta das 18h. Um homem a agarrou e apontou uma faca para seu pescoço, após sua tentativa de reação. Depois, ele a levou para o interior de um automóvel que estava estacionado nas proximidades e então colocou um pano em sua cabeça, amarrando-a e obrigando-a a voltar para sua casa.

Dentro da residência, a vítima sofreu agressões, teve seu cabelo cortado, foi estuprada e teve seu celular roubado.

Em seguida, o agressor fugiu e a vítima gritou por socorro. Foi então que vizinhos a levaram para a Santa Casa.

Peritos do Instituto de Criminalística foram acionados para vistoriar o imóvel e a DIG trabalha na investigação do caso.

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