Aprender cidadania por meio da dança é possível? Professor que atua há 15 anos em Bragança mostra que sim

Cidadania é o exercício dos direitos e deveres civis, políticos e sociais estabelecidos na constituição. Mas como transmitir esse conceito às pessoas? Você já pensou em fazer isso por meio da dança? Pois em Bragança Paulista o projeto Dança e Cidadania vem trabalhando com cerca de 400 pessoas, entre crianças, jovens, adultos e idosos, com o objetivo de fazer com que eles se tornem cidadãos felizes e de bem.

Tudo começou há cerca de 30 anos, quando Richard Braga Moreno, que ainda morava no litoral, tomou gosto pela dança e percebeu que tinha facilidade em aprender coreografias. Porém, ele não encontrava professores naquela época, com os quais pudesse aprender como dançar. Isso fez com que Richard procurasse, por si só, outras pessoas que também gostavam de dançar e ele acabou encontrando-as. Assim, Richard começou a montar seu próprio grupo e a criar seu próprio estilo de dança.
“Como não tive oportunidade de ter professores, fui errando, tentava fazer uma coisa e não dava certo, então, fazia de novo e, assim, sucessivamente, até eu criar a receita correta de como fazer, mas nunca desanimei”, conta Richard, que recebeu a reportagem do Jornal Em Dia em sua casa para falar sobre o projeto Dança e Cidadania.
A vontade de Richard em aprender e a falta de professores de dança fez com que ele frequentasse aulas de lutas em busca das coreografias de ataque e defesa, as quais ele ia implantando na dança.
Aos poucos, começaram aparecer convites para que o grupo se apresentasse. Mas o perigo da periferia do litoral trouxe Richard e sua família para Bragança Paulista, há 18 anos. “A cidade me acolheu muito bem, devo muito à cidade, até por isso que faço esse trabalho há tanto tempo, sem interrupções”, afirmou.
Contudo, conseguir espaço para mostrar seu trabalho em Bragança não foi tão fácil. No início, ele conseguiu que o mestre Enir, professor de capoeira, lhe cedesse um local para dar as aulas, mas não havia muitos interessados. O tempo acabou resolvendo esse problema e, agora, passados 15 anos, Richard afirma que muitas pessoas já passaram pelas aulas de dança de rua.
Ele conta ainda que o diferencial de seu trabalho é que não ensina dança para que os alunos se tornem profissionais da área, mas sim, para que se divirtam com a prática. “A gente trabalha justamente a autoestima, faço trabalho de inclusão, não tem restrição se a pessoa é alta, baixa, magra, gorda, branca, negra, católica, não importa, eu não quero ninguém profissional de dança comigo, eu quero cidadãos de bem, pessoas que se deem bem em grupo, que queiram se divertir com dança”, ressalta.
Apesar disso, Richard disse que aqueles que têm vontade de seguir no campo profissional com dança terão todo seu apoio.



COMO NASCEU O PROJETO



O projeto Dança e Cidadania surgiu com a subdivisão do grupo Beath of Dance. Richard explicou que o grupo inicial começou a fazer muitas apresentações e, durante elas, muitas pessoas procuravam os integrantes, demonstrando vontade de também integrar o Beath of Dance. De acordo com ele, foi assim que o grupo foi crescendo de tal forma que cada um da formação principal, tinha um grupo paralelo.
“Alguns continuam trabalhando com dança até hoje”, contou o professor.
Mas o projeto depende de parcerias, especialmente para a definição de locais em que possa atuar. Por isso, segundo Richard, cada ano é uma nova batalha. “Quando temos apoio, conseguimos fazer um trabalho maior”, disse.
Neste ano, Richard teve a oportunidade de apresentar o projeto na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, que o aprovou. “Tenho projeto nesse ramo há muito tempo, sei como fazer funcionar e atender a população. Houve outros projetos de dança, mas foi contemplado o street dance”, explicou.
Assim, atualmente, o projeto Dança e Cidadania está sendo desenvolvido em cinco polos, com a seguinte programação:
- segunda-feira, no Espaço do Adolescente, no Jardim São Lourenço;
- terça-feira, na Igreja Nossa Senhora da Esperança, no Parque dos Estados;
- quarta-feira, no posto de saúde do Henedina Cortez;
- quinta-feira, no posto de saúde do CDHU Saada Nader Abi Chedid;
- sexta-feira, no Ceasinha, no Jardim da Fraternidade, lugar onde tudo começou.
As aulas acontecem, nesses locais, das 9h às 11h e das 13h às 15h. Mas há aulas extras, às quartas-feiras, das 19h às 21h, na Igreja Tabernáculo de Jesus, e às quartas e sextas, das 18h às 21h, no Ceasinha, onde se pratica o break dance, uma espécie de complemento do street dance, de acordo com  Richard.
Os cerca de 400 alunos, além de aprenderem a dançar, aprendem a conviver com as diferenças e melhorar a autoestima, o que acarreta melhorias na escola e na família.
“Ensinamos que em primeiro lugar, vem a família, segundo lugar, escola, terceiro lugar, trabalho, quarto, religião e depois vem a dança. Tem que estar bem nas outras quatro para poder fazer a dança com a gente”, destaca o professor.
Richard considera muito importante a quebra de paradigmas, pois, na dança, segundo ele, não deve haver barreiras. “É muito gostoso a questão de se divertir com a dança. Sofri muito isso quando pequeno. Vejo muitas pessoas que têm vontade de dançar, mas, às vezes, por causa do seu biótipo físico, desistem. Na verdade, quero quebrar essa barreira do impossível para quem não tem o biótipo, para quem mora mal ou para quem come mal ou para quem é alto, baixo. Às vezes a pessoa tem um potencial muito grande, mas pode perder a oportunidade de exercer a função porque teve uma barreira inicial. Então, quero provar que qualquer pessoa dança. Só precisa estar disposta. Em 15 minutos, qualquer um dança”, garantiu.
O projeto Dança e Cidadania não atua apenas com crianças e jovens, mas também com adultos e idosos. Richard salienta que os integrantes da terceira idade são muito mais pontuais que os mais jovens. “Hoje, o jovem está meio disperso, por causa da internet, dessa modernidade toda, então, eles estão mais ociosos, não estão mais tão preocupados com o corpo. O pessoal da terceira idade está mais preocupado com o corpo do que com tecnologia. Mas também tem um grande número de jovens que participa e eles estão trazendo outros jovens”, afirmou.
O desafio da atualidade, pelo que os fatos indicam, não é apenas tirar os jovens das ruas, mas tirá-los da frente dos computadores e de outros equipamentos tecnológicos, do tempo ocioso.
Ao longo dos 15 anos, Richard conta que foi possível ver mudanças de comportamentos nos jovens que passaram pelas aulas de street dance. Ele ressalta que durante as aulas já é possível perceber “o cidadão que o aluno vai ser”. Justamente por isso, ele e os demais professores do grupo trabalham com atenção especial àqueles que estão mais dispersos.
Quatro professores, além de Richard (Robertinho, Tiago, Róbson, e Maicon), e seis instrutores (Wanderlei Jr., Fernando, Alice, Sara, Isabeli e Flávia) atuam no projeto atualmente. Richard ainda dá aulas em Piracaia e já desenvolveu trabalho em Atibaia, mas afirma que sua prioridade é o município em que vive, Bragança Paulista.
Assim, Richard agradeceu a todos os professores e instrutores, aos parceiros que colaboram para a realização do projeto Dança e Cidadania, como os postos de saúde, igrejas, a Secretaria de Agronegócios pela cessão do Ceasinha e, especialmente, a Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, pela aprovação do projeto neste ano.
Ele ainda ressalta que as portas estão sendo abertas a novos alunos, basta procurar os locais mencionados, nos horários programados. “É uma cultura que não pode acabar”, argumentou, deixando uma mensagem a todos os leitores: “Acreditem em qualquer sonho que você tenha, porque nós somos capazes de fazer tudo o que a gente quer. Independentemente de raça, de cor, de credo, de religião, de biótipo físico, principalmente, de idade, nós somos capazes, então, acreditem naquilo que vocês quiserem, pois vocês podem chegar lá”.

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