Ele é dotado daquela raríssima preocupação afetiva que melhor qualifica o ser humano, especialmente na relação com os amigos. Muito magro e baixo, olhos vivos e rastreadores, bigodes e cavanhaque de mandarim, não aguentou a repressão política contínua da ditadura do governo chinês – e deixou a Universidade de Pequim exilando-se no Brasil a partir dos anos 90.
Fomos colegas de Universidade (ele lecionando Métodos Quantitativos e eu Logística Reversa), além de vizinhos de rua, entretanto, a amizade continua firme e forte tanto quanto o seu atropelado português escrito e falado! “Meu mulher viu, semana passada, seu segunda filho entrando no carro. Ele disse que filho anda muito depressa, quase correndo. Você precisa mandar ver no médico como anda fígado de segunda filho”.
O recado chegou-me por e-mail com um anexo: “Conselho de Chinês”. E o remetente foi ele mesmo: o meu colega e amigo Fan Liang-Pin. Agora, traduzindo, a mulher dele, Deng Yingchao, professora de balé clássico, ficou preocupada com a saúde de minha filha Ana, que mora sozinha, por isso o recado.
Coisa de amigo. No recado, bem-humorado, está contida toda uma abordagem lúdica e essencialmente filosófica: “Há apenas duas coisas com que você deve se preocupar: se você está bem ou se está doente. Se está bem, não há nada com que se preocupar. Se está doente, há duas coisas com que se preocupar: se você vai se curar ou se vai morrer. Se vai se curar, não há nada com que se preocupar. Mas, se vai morrer, há duas coisas com que se preocupar: se vai para o céu ou para o inferno. Se vai para o céu, não há nada com que se preocupar. Agora, se você vai para o inferno, estará tão ocupado em cumprimentar velhos conhecidos que nem terá tempo em se preocupar. Então, para que se preocupar?”.
Paulo Augusto de Podestá Botelho é consultor de empresas e escritor.
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