
A foto viral que circulou essa semana pela internet da menina síria que rende-se ao confundir uma câmera com uma arma me fez refletir e lembrar do Nazareno. Talvez pareça não fazer nenhum sentido, e eu reconheço que às vezes minha mente exagera, mas aquela menina era pra mim o retrato do próprio Cristo, rendido, entregue por completo em sua inocência à mira implacável de nosso ódio sem medida.
Naquela sexta-feira horrorosa, Cristo, o Deus encarnado, não passava de uma criança indefesa, que como criança, havia se entregado incondicionalmente aos desígnios de seu Pai e agora se via desamparada por Ele.
O Deus de Israel abandonara seu próprio filho à mercê de homens injustos e sanguinários, e não interferiu quando eles o espancaram e o pregaram numa cruz vexatória.
A menina e o Cristo são igualmente alvos de nossa incapacidade de amar, de nosso ódio gratuito.
E eu me pergunto que armas eu mesma ando empunhando contra o meu próximo. E eu me pergunto quantas cenas como aquela da pequena síria se repetem diariamente nos mais variados recônditos do mundo, sem que “viralizem” na internet ou sequer virem notícia.
Quantas vezes Cristo ainda é assassinado em nome de interesses mesquinhos ou barganhado a troco de umas míseras moedas, que nem de longe se assemelham à riqueza da Eternidade. O vendem em templos suntuosos ou nas esquinas imundas, onde crianças têm sua inocência adulterada. O matam toda vez que apontam uma arma contra seu semelhante, sendo ela, muitas vezes, a própria língua.
Aquela sexta-feira se repete diuturnamente, e não há nela a beleza, ainda que sombria daquela em que o amor do Pai se manifestou de maneira insana e definitiva: “Está consumado!”
A câmera registra a rendição da menina síria, mas quantas outras rendições nos fogem à percepção das retinas cansadas pelo descaso?
Quanto de Cristo ainda resiste em nós? Quanto dEle já cedeu lugar a vaidades bobas e ambições passageiras?
O Cristo e a menina síria nos ensinam a humildade. Ambos se rendem, não contestam, nem sequer proferem qualquer palavra contra seus algozes.
Somos nossos próprios algozes, somos o feroz algoz de Cristo, o assassinamos toda vez que nos permitimos assistir a uma cena como a da menina síria sem esboçar qualquer indignação. O assassinamos quando cedemos seu lugar à gula, ao consumismo exacerbado e delegamos à bendita celebração da Páscoa o lugar ridículo de apenas mais um feriado prolongado.
Ele ressurgiu e isso, por si só, justifica a felicidade de estarmos nós também vivos. Afinal, existimos nEle e para Ele.
E apesar de estarmos, quase todos tomados pelo vírus do torpor, é como se eu pudesse ouvi-lo dizer suavemente à menininha síria:
- Filhinha, renda-se, eles não sabem o que fazem...
Feliz Páscoa!!!
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