Neste sábado, 25, é celebrado o Dia Nacional do Escritor. A data foi instituída após o sucesso do I Festival do Escritor Brasileiro, realizado em 1960. Desde então, literatos dos quatro cantos do país ganharam um dia de comemoração só para eles e passaram a ser homenageados por sua contribuição à cultura e à educação por meio do dom da palavra.
Para falar sobre sua trajetória, experiências e opiniões sobre o cenário literário, o Jornal Em Dia entrevistou Henriette Effenberger, que nasceu e reside em Bragança Paulista. Ela é romancista, contista, memorialista, poeta e escreve também literatura infantil, além de ser diretora de eventos na Ases (Associação de Escritores de Bragança Paulista). Confira!
Jornal Em Dia: Nos conte um pouco sobre sua carreira como escritora e as principais obras que marcaram sua trajetória.
Henriette: Embora eu escreva desde que me entendo por gente, considero que minha carreira de escritora começou efetivamente com a fundação da Ases, em 1992. Com o objetivo de criar uma entidade que congregasse escritores bragantinos, Lóla Prata procurou apoio no então Departamento de Cultura da Prefeitura de Bragança Paulista e na Pró-Reitoria Comunitária da Universidade São Francisco. Por intermédio da USF, que costumava promover concursos literários, Lóla teve acesso ao meu nome e me convidou para fazer parte da comissão que iria organizar as primeiras reuniões. Até então, eu não me considerava uma escritora, apenas uma pessoa que gostava de escrever e esporadicamente participava de alguns concursos literários, com resultados positivos. A convivência com os demais escritores que formaram a Ases naquele momento, a publicação de trabalhos em coletâneas e antologias de vencedores em concursos literários me incentivaram a editar meu primeiro livro, um romance, escrito em parceria com a também escritora da Ases e minha colega de Banco, Maria Dulce Kattar Louro e assim, em 2002, lançamos A Ilha dos Anjos. Depois disso, já em carreira solo, lancei em 2008, o infantil As aventuras do Superagora e no mesmo ano o livro de contos Linhas Tortas, que continha exclusivamente contos premiados em concursos literários nacionais e internacionais e teve na quarta capa a apresentação de Ignácio Loyola Brandão. Escrevi também livros como memorialista: Sociedade Sinfônica Amadores da Arte Musical – 80 anos de acordes em harmonia, 70 anos do Sindicato do Comércio de Bragança Paulista e, em parceria com o escritor Norberto de Moraes Alves, Aeroclube de Bragança Paulista – Uma trajetória nas asas do tempo. Em 2014, venci o Concurso Nacional João de Barro de Literatura Infantil e tive o conto infantil Vida de sabiá – o que sabiam os sabiás além de assobiar, editado pela Fundação Cultural de Belo Horizonte. Em 2018, saiu pela Editora Penalux o livro de conto Fissuras, também composto por contos premiados em concursos literários, com prefácio de Rosângela Vieira da Rocha e apresentação de Maria Valéria Rezende, o que muito me honra.

Henriette no lançamento do livro Fissuras, em novembro de 2018, com Maria Thereza Ortiz, que foi sua professora de português no Ensino Fundamental
Jornal Em Dia: Quando e como surgiu o seu interesse pela escrita?
Henriette: O interesse pela escrita surgiu, é claro, por intermédio de leituras. Desde muito pequena, sempre li muito. Mesmo antes de estar alfabetizada, me lembro de minha mãe e de minhas tias me contarem histórias e a minha predileta era O lobo e os sete cabritinhos. Minha mãe dizia que lera tantas vezes a história para mim que eu, apesar de não saber ler, tinha decorado o livro e contava a história apontando para as ilustrações, como se estivesse lendo. E nunca mais parei de ler. Quando eu tinha por volta de nove, dez anos, fui apresentada à obra de Monteiro Lobato e aí praticamente me mudei para o Sítio do Pica-pau amarelo. Acho que li todos os contos de fadas, depois na adolescência a famosa (na época) Biblioteca das Moças, depois os grandes clássicos da literatura nacional e estrangeira e nunca mais parei. Na escola, minhas redações eram muito elogiadas pelos professores e, então, ainda na adolescência, passei a escrever, principalmente crônicas e poemas. Contos, romances e livros infantis só comecei a escrever já na fase adulta.
Jornal Em Dia: Qual a sua história e contribuição na Ases?
Henriette: Costumo dizer que a minha história literária e a da Ases, até certo ponto, se confundem, pois não seria a escritora que sou, não fosse pela convivência e o aprendizado com os demais membros. Como disse acima, sou sócia pioneira da Ases, participei desde a primeira reunião onde se pensava em criar uma associação que nem tinha nome ainda. Participei da elaboração dos estatutos e fiz parte de todas as diretorias da Ases, nos mais diversos cargos, inclusive, ocupei a presidência por duas gestões consecutivas.
Jornal Em Dia: Um de seus últimos trabalhos, “Fissuras”, teve muita repercussão positiva tanto em vendas como em críticas. Como surgiu e o que representa essa obra?
Henriette: Sim, Fissuras é um livro de contos que me deu (ainda dá) muitas alegrias. Recebi resenhas excelentes de escritores que respeito muito e o livro vendeu bem, tendo em vista o difícil mercado editorial brasileiro. O Fissuras surgiu do meu desejo de reunir num livro contos premiados em concursos literários, que estavam publicados em antologias e coletâneas esparsas e que tinham entre si uma temática em comum: um olhar sobre as dores de pessoas que a sociedade torna invisíveis, aliás, são histórias sobre os invisíveis em nossa sociedade e é a eles que dedico o livro. O “Fissuras” do título pode ser entendido como a gíria usada popularmente no sentido de desejar muito determinada coisa, como no sentido de rachaduras, frestas, etc.

Fissuras pode ser encontrado em sites como o da Editora Penalux (https://www.editorapenalux.com.br/loja/fissuras) e o da Amazon (https://www.amazon.com.br/Fissuras-Henriette-Effenberger/dp/855833420X)
Jornal Em Dia: No geral, você acredita que o brasileiro escreve e lê pouco? Acredita que esses hábitos deveriam ser mais incentivados? De que forma?
Henriette: É o que se diz em voz corrente. Se compararmos nossos hábitos de leitura com os dos europeus e até mesmo de argentinos e uruguaios se chega fácil a essa conclusão, dada a enorme discrepância do número de livrarias que existem nas cidades brasileiras comparadas com as europeias ou argentinas. Não podemos nos esquecer do grande número de analfabetos que ainda existe no Brasil e principalmente do que chamamos de analfabetos funcionais, aquela pessoa que lê e não entende o que está escrito. Ou quando entende tem dificuldade em interpretar o texto e incorporá-lo ao seu cotidiano.
A leitura é mesmo um hábito, no meu caso quase um vício. E hábitos só se adquirem com rotinas. É absolutamente inócuo dar um livrinho a uma criança sem despertar nela o prazer pelo livro. Eu tenho a convicção que só pais e/ou professores leitores conseguem incentivar a leitura. A criança imita os pais. Se ela nunca vê o pai ou a mãe com um livro na mão, duvido muitíssimo que o livro irá despertar o interesse dela. No meu ponto de vista, a pior coisa que a escola ou um professor pode fazer é entregar um livro para uma criança na sexta-feira e dizer: na segunda você me conta a história. É evidente que a criança verá aquele livro como “lição de casa” e assim deixa de ser um prazer, para se tornar obrigação. Sou capaz de apostar que essa criança vai odiar livros!
Jornal Em Dia: O que escrever representa em sua vida?
Henriette: Representa “soltar meus demônios”. É na literatura que os personagens têm a absoluta liberdade de ser o que quiserem, de dizer o que pensam, de reclamar, de serem alegres ou depressivos, de cobrarem seus direitos, de ferirem, de escandalizarem.
Jornal Em Dia: Essa atividade tem te ajudado durante o período de quarentena? De que forma?
Henriette: No final do ano passado, eu tinha confidenciado a amigos, quase como uma brincadeira, que 2020 seria meu ano sabático. A pandemia praticamente me obrigou a isso. O isolamento social, as atividades apenas de modo virtual, esse horror de 80 mil brasileiros mortos em 120 dias, as pessoas ignorando as orientações científicas, o negacionismo por parte dos mandatários da nação tornam o coronavírus ainda mais virulento do que já é na essência. Mas a atividade literária e a convivência (mesmo virtual) com meus pares atenua sobremaneira o que poderia levar a um caos mental. Dou graças à literatura por isso. Tanto com relação à escrita, como à leitura. Descobri novos e incríveis autores nesse período. Acompanho as “lives” e os lançamentos virtuais, assim, ocupo meu tempo e meus pensamentos.
Jornal Em Dia: O viés feminista da sua obra já foi abordado em trabalhos acadêmicos. O que isso representa para você? E como você vê o papel da mulher enquanto escritora?
Henriette: Ter a obra como objeto de estudo numa universidade renomada como a Universidade Estadual de Londrina foi o maior prêmio que eu poderia receber, uma honraria que nunca sequer sonhei. No entanto, Sebastião Bonifácio Júnior, que me conhecia desde os tempos em que participávamos de uma mesma comunidade literária no antigo Orkut me deu essa grande alegria e essa honra. Para a monografia de conclusão do Curso de Especialização em Letras da UEL apresentou o seguinte tema: A ideologia da emancipação feminina nos contos de Henriette Effenberger e, posteriormente, concluiu o mestrado também com o estudo de minha obra com o título: Reprodução do patriarcado versus subversão feminina: a mulher representada nos contos de Henriette Effenberger. Eu divido essa honraria com as mulheres escritoras que me precederam, lutando mais que eu e, na verdade, abrindo caminho para as da minha geração, assim como eu espero abrir caminho para as futuras gerações de mulheres escritoras, neste mercado editorial que ainda é dominantemente masculino. Para enfrentar essa hegemonia do mercado, também faço parte do Coletivo Feminista Mulherio das Letras, criado em 2017.

A escritora ao lado do então mestrando Júnior, da orientadora do trabalho e das professoras doutoras que compuseram a banca
Jornal Em Dia: Em sua opinião, qual a importância de se estabelecer um dia nacional para a profissão de escritor?
Henriette: Uma data nacional é sempre um dia a ser comemorado e também é uma forma de dar visibilidade à profissão do escritor. Pela primeira vez, nos 28 anos de atividades da Ases, não realizaremos um evento público para comemorar a data. Em tempos de pandemia, optamos por um sarau virtual, exclusivo para nossos associados. Acredito que deveria ser também um dia de luta pelos direitos dos escritores, uma vez que, até onde sei, a profissão não é regulamentada.
Jornal Em Dia: Quais são seus próximos planos profissionais?
Henriette: Está no prelo, na Editora Telecazu, para ser lançada ainda este ano, uma novela juvenil (aventura e fantasia) para jovens de 12 a 16 anos, cujo título é Viagem aos três mundos: O puma, a serpente e o condor. E para o próximo ano, também esperando passar a pandemia, um romance.
Jornal Em Dia: Deixe um recado para o público que acompanha o seu trabalho e, assim como você, é apaixonado por literatura.
Henriette: Para o público, só uma recomendação: leiam! Leiam autores nacionais, leiam as mulheres escritoras, leiam as mulheres negras e, com certeza, um novo universo se abrirá, com ou sem coronavírus!
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