A jovem Emery Khoury tem apenas 24 anos, mas muita história pra contar. Natural de Mogi das Cruzes (SP), ela já viveu o abandono, a situação de rua e o preconceito, mas agora se prepara para fazer história e realizar um sonho de infância: cursar Medicina – e em grande estilo, em uma conceituada universidade da Argentina.
Mulher transexual, Emery conviveu com constantes agressões por parte do pai, machista e transfóbico. Sua mãe deixou a casa muito cedo, ela chegou a morar nas ruas para escapar do pai, e acabou indo parar em um orfanato com cerca de 10 anos. “Um dia ele me bateu muito, eu desmaiei e acordei no hospital com a Justiça tomando a minha guarda”, relembra.
No orfanato, Emery estudou, trabalhou, fez amigos e viveu até a sua maioridade. O processo de transição começou cedo, por volta de 12 anos, e foi um período “confuso”: ela variava entre usar roupas femininas e masculinas, teve de se consultar com psiquiatra e psicólogos e sentiu na pele o peso da discriminação.

Depois que saiu do orfanato, enfrentou as ruas, pois perdeu o emprego por ter assumido sua identidade de gênero e tinha pouquíssimo apoio. As coisas começaram a melhorar quando ela começou a namorar, aos 19 anos, e foi morar com o parceiro. O relacionamento, porém, não era aceito pela mãe do rapaz e eles acabaram terminando.
A essa altura, Emery trabalhava como secretária de um Centro Cultural em São Paulo. No entanto, após o término, não conseguiu custear suas despesas sozinha e acabou sendo abrigada pela Casa 1, projeto de acolhimento a pessoas LGBTQIA+ na cidade. Trabalhava durante o dia e fazia cursinho pré-vestibular à noite e aos finais de semana, tendo em mente a tão sonhada faculdade de Medicina.
No início de 2019, ela ficou mais próxima deste sonho. A jovem foi descoberta por uma marca de moda, a Paula Raia, que a convidou para fazer fotos – o casting também contava com famosas como Camila Pitanga e Glória Maria. Ao conhecer a história de Emery, Paula se sensibilizou e decidiu pagar toda a sua documentação para que ela cursasse Medicina na Universidade de Buenos Aires, que é pública. “Eu chorei muito, não conseguia dormir, era surreal; não era um caminho inteiro, mas era metade. Eu fiquei muito feliz, disse a Deus que, nem que fosse a última coisa que eu fizesse na terra, eu cursaria Medicina para curar as pessoas ou ajudar a amenizar a dor delas”, recorda-se.
No mesmo ano, porém, Emery passou no vestibular para Odontologia na Universidade de São Francisco, em Bragança Paulista, onde ganhou uma bolsa integral. Ela colocou o sonho de ser médica numa gaveta e começou o curso no interior. “Achei que seria uma coisa mais próxima da minha realidade, como eu precisava trabalhar durante o dia e não poderia estudar em período integral”, conta.
A princípio, ia e voltava todos os dias da faculdade, mas depois, pediu demissão do emprego e, com o dinheiro que havia guardado e a ajuda de amigos, passou a morar em Bragança. Os custos com aluguel e materiais ficaram altos demais e ela teve de deixar a faculdade e retornar para São Paulo. Foi acolhida novamente por uma casa de apoio, a Casa Florescer, onde está até hoje.

No momento, Emery trabalha na padaria de um supermercado e guarda recursos para retomar o sonho de ser médica e ir para a Argentina. “Eu sempre quis ser médica, fazer algo para ajudar as pessoas”, relata. Seu sonho é ser cirurgiã cardiologista pediátrica, para “cuidar das crianças” – e ela quer ser uma profissional referência. “Eu acredito que não vou ser qualquer médica, vou ser ‘a’ médica, uma médica exemplar, que vai além da profissão. Hoje, as pessoas veem a Medicina como status, para mim não: vai ser para ajudar as pessoas. Antes de ser uma boa profissional, tenho que ser um bom ser humano”, destaca.
Emery sempre gostou de estudar: fez aulas de inglês, espanhol e norueguês – e faz questão de demonstrar que vai muito além de sua transe-xualidade, mesmo que este seja um caminho árduo. “Eu sempre tive que me impor, mostrar que eu sou inteligente, que vou além do meu gênero e sou além do que eu vivo”, declara.
Para sua próxima empreitada, Emery decidiu criar, a partir da ideia de amigos, uma vaquinha virtual. Ela precisa de ajuda para custear moradia e alimentação por, pelo menos, seis meses, até que tenha permissão para trabalhar na Argentina. A meta é arrecadar, no mínimo, R$ 10.000 – ela conseguiu até agora, pouco mais de R$ 3.000. Os interessados podem colaborar fazendo sua doação pelo link: https://abacashi.com/p/medicinaemery. “Gostaria que as pessoas me ajudassem para que, no futuro, eu possa ajudar outras pessoas”, fala.
Para chegar até aqui, Emery contou com o apoio de muita gente que acreditou no seu propósito. “Gostaria de agradecer a todos que acreditaram em mim, nos meus sonhos, objetivos e projetos. Hoje, as pessoas não acreditam mais nos outros e, quando isso acontece, as coisas começam a dar mais do que certo”, avalia. Também foi preciso fé e otimismo para deixar o passado para trás e crer em um futuro diferente. “Eu sempre tive muita fé, em Deus e em mim. Ouvi de muita gente, quando criança que elas nunca passariam com uma médica como eu. Eu passei por muita coisa e agradeço a Deus por estar viva até hoje”, completa.
Emery olha para sua trajetória com orgulho e espera servir de exemplo para quem enfrenta dificuldades parecidas com as que vivenciou. “Tudo o que eu faço não é só pensando em mim, mas nas outras pessoas que têm um sonho – pessoas negras, trans, da periferia, que não têm condições ou apoio. Eu quero que elas se espelhem em mim, que elas acreditem que não sou só eu que consigo, que elas podem conseguir coisas ainda melhores”, diz.
Por falar em orgulho, no dia 28 de junho, foi celebrado o Dia do Orgulho LGBTQIA+, data repleta de simbologias e especial para Emery. “Ela significa a evolução de conquistarmos nosso próprio espaço. Antes, era muito difícil para as pessoas LGBTQIA+. O índice de assassinato ainda é alto, mas estamos conquistando nosso espaço na história e no mundo”, encerra, mostrando que é possível ter vez e voz em uma sociedade ainda cercada de preconceitos, mas que, a passos lentos, caminha para acolher e respeitar a diversidade.

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