No dia 17 de fevereiro, Quarta-Feira de Cinzas, começa, em todo o Brasil, a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021 (CFE-2021). Neste ano, a ação tem como tema: “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor” e o lema: “Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade” (Ef 2,14a).
Na noite de ontem, 8, a Diocese de Bragança Paulista apresentou a campanha para a imprensa bragantina. Estiveram presentes, na ocasião, o bispo diocesano de Bragança Paulista, Dom Sérgio Aparecido Colombo, o padre Francisco Gilson de Souza Lima, coordenador diocesano da ação evangelizadora, e também o reverendo Roberto Enzo Basílio, pastor da Igreja Presbiteriana Unida de Atibaia (IPU).
O padre Francisco abriu a noite falando sobre a história da Campanha da Fraternidade. Ele contou que, em 1961, três padres, responsáveis pela Cáritas no Brasil, idealizaram uma campanha com o objetivo de levantar fundos para assistir aos pobres. A ideia foi chamada de Campanha da Fraternidade, e realizada pela primeira vez na Quaresma de 1962, na cidade de Natal, no Rio Grande do Norte.
Com o sucesso da ação, no ano seguinte, 16 dioceses do Nordeste realizaram a Campanha da Fraternidade. Em 1964, foi lançada, a nível nacional, pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), a Campanha da Fraternidade, que tinha como tema: “Igreja em Renovação”.
A Campanha da Fraternidade nasceu sob o contexto do Concílio Vaticano II, que iniciou um tempo de renovação na pastoral da igreja. Por isso, a iniciativa, que acontece anualmente, sempre no período quaresmal, é um convite a conversão das pessoas à prática da justiça social, da solidariedade, da partilha e do amor ao próximo.
Desde 1980, os organizadores já sonhavam com uma ação ecumênica, que passou a acontecer pela primeira vez em 2000, com o tema: “Dignidade humana e paz: por um novo milênio sem exclusões”. A partir de então, a cada cinco anos, é realizada uma campanha que conta com a participação de igrejas de outras denominações cristãs. Diferentemente da Campanha da Fraternidade tradicional, a ação ecumênica não é de responsabilidade da CNBB, e sim, do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic).
Em sua fala, o bispo Dom Sérgio comentou que a campanha deste ano tem como objetivo geral convidar as comunidades de fé e pessoas de boa vontade a pensarem, avaliarem e identificarem caminhos para superar as polarizações e as violências por meio do diálogo amoroso, testemunhando a unidade na diversidade.
Dom Sérgio ressaltou que é preciso “construir pontes que unam em vez de muros que separem” e, para isso, unir todas as denominações cristãs em prol de um mesmo objetivo. “O compromisso de dialogar, que nos aproxima para podermos fazermos mais a experiência bonita de vivermos como filhos e filhos de Deus”, disse.
Citando a misericórdia divina, ele disse que Deus também exige de seus filhos a mesma fraternidade. “Essa fraternidade se faz com diálogo, do encontro, do respeito, na escuta, na solidariedade, na comunhão, respeitando as diferenças”, ponderou.
O bispo fez questão de afirmar que a Campanha da Fraternidade vem gerando cada vez mais repercussão, e que os organizadores estão dispostos a ouvir críticas ou sugestões, desde que elas sejam construtivas. “Estamos abertos para ouvir, avaliar e rever conceitos”, declarou.
A campanha ecumênica, afirmou o bispo, consiste no respeito e, sobretudo, no diálogo entre as religiões. “Cada igreja tem a sua história, sua tradição, seu modo de celebrar e compreender a fé. A comunhão não é anular uma igreja – a beleza está na história, na caminhada, na tradição, nos valores de cada uma. Ali habita o espírito de Deus, que não é tão pobre assim; ele gera tudo isso para gerar sua beleza, sabedoria e grandeza”, falou, mencionando que a comunicação entre as igrejas é um dos pontos mais incisivos defendidos pelo papa Francisco.
Antes de passar a palavra ao pastor da IPU, Dom Sérgio criticou o que chama de “fundamentalismo religioso que quer desmoralizar o trabalho da Campanha da Fraternidade Ecumênica” e fez mais uma reflexão acerca da importância do ecumenismo para uma sociedade mais fraterna. “O diálogo nos aproxima e o encontro com o Cristo é a nossa paz – se há desvirtuamento desses valores, não vamos construir a fraternidade: antes vamos desconstrui-la”, completou.

O reverendo Roberto, que participa do Conic desde 2015, endossou o discurso ecumênico do bispo católico, afirmando que “entender que a unidade em meio à diversidade e também em meio à adversidade é necessária e é uma construção difícil de todo dia”.
Roberto explicou que o ecumenismo não é uma palavra encontrada em seu uso literal na bíblia, mas que “o leitor atento vai perceber que as comunidades cristãs tinham suas diferenças ideológicas e até teológicas, que criavam polêmica” e, nesse sentido, “a fraternidade era a tônica do evangelismo na unidade da igreja no novo testamento”.
O pastor evangélico salientou que a religião, como todas as instituições, tem pessoas boas e ruins. “E quando se olha para as pessoas que fazem o mal, é um instrumento de opressão”, observou. Ele ainda disse que não se deve olhar para os momentos ruins da história, “em que algumas pessoas até bem intencionadas compreenderam mal a mensagem do evangelho e, em vez de unir, se separam”.
TEXTO-BASE
O texto-base da Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2021 se fundamenta em quatro pontos, “teológicos, bíblicos, sociais e pastorais para que tenha êxito”, de acordo com Dom Sérgio. “O apelo neste ano é para que juntos olhemos para Cristo”, enfatizou.
Segundo o bispo, o primeiro ponto é a pandemia de Covid-19, que “nos assustou, nos distanciou, nos empobreceu ainda mais, ceifou tantas vidas – e nesses tempos, cresceu a violência na família, entre as mulheres, pessoas negras, comunidade LGBTI+, e a retirada dos direitos das pessoas vulneráveis. A violência nunca será o caminho", defendeu.
A partir de então, vêm três verbos de ação. “O primeiro é o julgar. A campanha oferece às igrejas, às comunidades, uma reflexão que ajuda a compreender a palavra de Deus, que deve ser acolhida com alegria e experienciada na forma da partilha, da comunhão, da solidariedade que gera a paz, a paz que nasce no coração de Jesus”, comentou.
Outro pilar é o agir, em que Dom Sérgio citou as ações que a campanha ecumênica vem fazendo desde o ano de 2000, como as semanas de oração, ações de superação à violência, encontros pastorais e promoção de cuidados com a “casa comum”, ou seja, a natureza.
Por fim, é preciso encontrar uma forma de celebrar. “Cada comunidade, igreja, paróquia vai encontrar um modo de se organizar, de se reunir, com as crianças, os jovens, as famílias, onde fique claro: precisamos derrubar todo muro que separa, onde haja discriminação, ódio, rancor, indiferença, para darmos lugar a paz”, encerrou.
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