Florista, católico de nascimento e apaixonado por presépios: estas são algumas características de José Antonio Leme, de 60 anos, o “Zezinho”. Hoje, responsável por montar presépios em várias igrejas de Bragança Paulista, conta que a paixão por essa arte começou cedo, aos seis anos de idade. “Eu ganhei meu primeiro presépio nessa idade, porque pedi para a minha mãe. Desde essa época, eu adoro presépios”, relembra. Na época, nem ele nem a mãe sabiam montar a referência cristã, e contaram com a ajuda de um vizinho. De lá para cá, todos os natais de sua vida tiveram a presença de pelo menos um presépio. “Quando criança, eu exigia da minha mãe que ela montasse todo ano, e como ela sempre foi muito católica, fazia, e eu sigo essa tradição até hoje”, comenta.
Neste ano, Zezinho fez presépios nas igrejas da Vila Maria, do Rosário e de Santa Terezinha, mas em outros anos, decorou ainda mais locais - tudo isso de forma voluntária. Todos os anos, apesar de utilizar as mesmas imagens, ele faz uma criação diferente para cada igreja, o que ele afirma fazer com prazer e facilidade. “Em cada igreja que eu monto, é um presépio diferente. Não faço um projeto antes, tenho a ideia na hora e vou montando”, afirma, contando que usa no processo materiais como folhagem, papel pardo e juta.
Só na Igreja do Rosário, já são 40 anos se dedicando à montagem não só de presépios, como de andores para procissão e altares, sem cobrar qualquer valor. Em seus trabalhos, lembra-se, até hoje, do conselho dos avós, que também apreciavam a arte do presépio. “Lembro até hoje dos meus avós contando histórias e explicando sobre a montagem do processo. Eles diziam, por exemplo, que o boi e a vaca deveriam ser colocados do lado do Menino Jesus para aquecê-lo, pois ele nasceu no inverno, quando estava nevando, e o ‘bafo’ e o calor ajudavam a esquentar”, fala, enfatizando que carrega consigo a sabedoria dos mais velhos e seus conselhos.

Presépio da Igreja do Rosário, no Centro
O primeiro presépio que recebeu, há 54 anos, é guardado com carinho por ele, e durante muitos anos, foi chamado por famílias tradicionais de Bragança para montar a representação natalina em suas casas. Até hoje, recebe presépios de diversas pessoas e realiza diversas montagens com eles.
Com sua experiência, coloca criatividade nas produções, mas ressalta que elas são bastante tradicionais e que cada elemento tem sua importância e posição, que devem ser respeitadas.
Na véspera de Natal, ele também enfeita a igreja com flores, e salienta que o Menino Jesus – o sentido da festa – só é colocado no presépio na missa do dia 24 de dezembro, um dos momentos mais emocionantes da celebração. “O Natal não teria sentido se não tivesse a representação de Cristo no altar, que é o mais importante da data”, opina, acrescentando que essa representação traz muitos sentimentos positivos aos fieis. “O nascimento de Cristo nos incentiva a reviver de novo, a ter mais entusiasmo, a ser mais alegre, ter mais força pra viver dali para frente”, coloca.

Presépio da Paróquia Coração Imaculado de Maria, no Bairro Vila Maria
Além de ser um exercício de fé, a maior recompensa de seu trabalho é reavivar a fé das pessoas. “Acho que Deus me deu um dom, e enquanto for para animar a fé dos fiéis eu vou continuar montando”, garante. Segundo ele, uma de suas preocupações é a continuidade dessas tradições nas próximas gerações. “Eu ainda não encontrei um sucessor, alguém que queira aprender como eu quis. Ninguém nunca teve interesse em me procurar para aprender. Espero que essa tradição não acabe”, fala.
Ele comenta, ainda, que o espírito natalino está se perdendo, visto que antigamente, a data era sinônimo de união entre as famílias. “Antigamente, a família era muito ligada, hoje em dia, não existe mais aquela harmonia. Hoje em dia, está muito difícil, acredito que por conta da Internet, os jovens são muito independentes, muito ligados ao celular, esquecem o amor da família, a união. Hoje, são raras as famílias que se reúnem para uma ceia. Até mesmo os mais velhos hoje em dia não têm mais o mesmo entusiasmo que os meus avós tinham comigo”, pondera.
Justamente para evitar que tradições tão antigas percam o seu valor, Zezinho pretende continuar abrilhan-tando o Natal em diversas igrejas. “A tradição é o que motiva a fé”, coloca, acrescentando que o que move suas ações é o amor. “É como se fosse uma missão para mim, uma vocação, está no sangue. Tudo o que você faz na vida tem que gostar. Eu fui, por 20 anos, gerente de uma relojoaria, onde ganhava muito bem, e depois fui ser florista, que é um ramo mais artístico no qual eu me sinto mais feliz. O que vale é o gosto, é a alegria, pois quando fazemos com gosto, mesmo com sacrifício, vale a pena”, declara, dizendo que a maior recompensa é a satisfação ao ver que seu trabalho ajuda a manter viva a verdadeira essência do Natal.
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