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Toda vez que o Brasil entra em campo...

Por Ana Raquel Fernandes

 

Toda vez que o Brasil entra em campo, eu torço. Não consigo evitar. E nesses dias que antecederam o início da Copa do Mundo de Futebol, eu li e vi tanta coisa a respeito desse meu hábito, que quase, confesso, cheguei a cogitar ser ele nocivo. Mas tal qual a mãe que mesmo ciente dos atos ilícitos do filho, o adula e ama, eu continuo na minha sina de amar esse país ingrato e de amar também seu futebol.

Talvez seja mais ou menos assim: Sabe aquele filho que vai mal na escola, mas se dá bem nos esportes? Ué, ele não é motivo de orgulho pra mãe que o ama?

Não sei mais o que fazer com esse amor tresloucado que eu sinto por esse país de absurdos. E vocês bem sabem, meus queridos leitores, que não sou nenhuma alienada aos fatos atuais, nem aos antigos, que corroboraram para a criação desse país impensável. Não, eu sou ciente de todas as suas atrocidades, e mais que isso, eu também sou afetada por elas e as sinto na pele tal como você.

Mas, meus queridos, quando o Brasil entra em campo... Não sei explicar muito bem o que acontece. Suponho que volto a ser a menina-moleque de outrora, vestindo seus shorts e munida da sua bola de futebol. Bola esse que me causou um sério acidente na infância, quando tentei descer as escadas de casa com ela no meio das pernas. Síndrome de Garrincha? Mas eu não tinha as pernas tortas, infelizmente...

Imagine degraus apenas rebocados de cimento, sem piso. Imaginou? Pois é, eu os senti me arranhando toda, enquanto descia rolando.

Vai ver amar o Brasil como eu amo talvez seja um exercício quase impossível de equilíbrio, difícil e doloroso como a experiência com a escada.

Talvez meu amor por esse país sujo seja semelhante ao da mãe do Guri, de Chico Buarque. É um amor consciente dos crimes todos do ser amado, e ainda assim insistente em se fazer amor e amar, sem qualquer espécie de merecimento.

Mas o amor não é mesmo isso? Dom imerecido?

Ah, minha gente, quando o Brasil entra em campo... Eu sou a mãe esfaimada, sem ter com o que alimentar seus filhos, eu sou o doente no corredor do hospital, eu sou o professor mal pago, eu sou o injustiçado, o ladrão e o redentor, o político sem escrúpulos e a santa, eu sou tudo de que esse país é feito. Não, eu não me esqueço do que ele é feito. Mas, sobretudo, eu sou um amor insano, uma gana de vencer, um orgulho (que não faço questão nenhuma de reprimir), eu sou brasileira.

E eu finalizo esse texto, imaginando que muitos de vocês estejam indignados com essa minha declaração, mas eu não consigo ser diferente. Perdoem-me aqueles politizados a ponto de ignorar uma bela partida de futebol, perdoem-me...

Porque toda vez que o Brasil entra em campo, eu me vejo capaz de amar, feito mãe, o melhor e o pior dele.

Perdoem-me...

 

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões: sub-ver-siva@hotmail.com

 

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