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Eu não sou camioneira

Por Ana Raquel Fernandes

 

Faça-me um favor antes de seguir com a leitura. Vá até a lata de lixo mais próxima e deposite lá todos os seus pré-conceitos. Todos aqueles pré-conceitos que a simples leitura do título desse texto pode sugerir.

Jogou? Então, comecemos o texto dessa semana:

Estamos sem combustível. E o que ainda resta em meu carro, confesso, estou economizando para a volta ao trabalho ou alguma emergência, por isso resolvi descer até a feira a pé hoje. Eu tenho essa vantagem de morar a um morro da feira, morro íngreme, por sinal. E sempre gostei de ir à feira. Tudo nela sempre me encantou desde a menininha, desde os gritos acalorados dos feirantes até a multiplicidade de cores, cheiros e sabores que se apresentam ao longo das barracas enfileiradas.

Mal começo a descer o morro, e já me deparo com uma fila enorme de carros. Mas, por que, eu me pergunto, se o posto nem está aberto ainda e os cones sinalizam que não há previsão de reabertura.

Desci em meio a falatórios e espera, e me senti quase que ilustre por estar caminhando, ao invés de estar também com o carro na fila esperançosa. Quem me viu, podia pensar: - Olha, essa moça apoia a greve dos camioneiros. Ou então: - Nossa, ela está pensando no próximo e não se dignou a ficar na fila para entupir o carro de combustível, sem aparente urgência.

Mas sabem, não é nada disso. Eu sou como a maioria de vocês. Trabalho como a maioria de vocês, e preciso sim do carro para viajar todo dia para Vargem. As aulas no momento estão suspensas, é fato, mas me doeu um pouco ouvir de uma mulher, que comprava agasalhos em uma barraca, que professor é tudo folgado mesmo, e que se ela estava indo trabalhar, por que eles ficavam em casa...?

A fala dela, não sei se fruto de ignorância ou mero recalque, mas a fala dela traduz muito do que se tornou esse país que amo tanto. Nos tornamos inimigos enquanto povo. Trataram de auxiliar-nos, dividindo-nos em classes e sub-classes imaginárias em todos os segmentos profissionais ao longo de nosso história permissiva e conturbada.

Parece mesmo que o intento de formar um povo, que não é povo, se cumpriu, e por essa razão não me surpreendem as filas nos postos, nem tão pouco a fala daquela senhora.

A despeito disso tudo, comprei muita coisa, e a pé, o peso das sacolas parece triplicar, se somado ao meu próprio corpinho.

As sacolas já começavam a “cortar” minhas mãos, quando decidi comprar uma daquelas sacolonas, aquelas bem simples, feitas de saco de ração ou algo do tipo. Cinco reais.

Ótimo, o peso não diminuíra, mas pelo menos agora poderia suportar todo aquele peso com um pouco mais de conforto. E sabem, acho que é isso que temos feito a respeito do Brasil, nós todos, trabalhadores de todas as classes e espécies, nós temos desde sempre suportado o peso desse país, enorme, esmagadoramente grande. E estamos cansados.

O Brasil pesa em mim tal qual as sacolas da feira. E se eu ainda insisto em carregá-lo é porque meu coração subversivo ainda não desistiu dele. Eu insisto na esperança, da mesma maneira que insisto em carregar sacolas pesadas, mesmo quando minha mãe me orienta a não fazê-lo.

E eu sinceramente não sei até quando minhas mãos e meu coração irão suportar. Talvez esse fardo se torne mais leve quando verdadeiramente aprendamos a dividi-lo, ou quando esse país pesado e que tanto amo for de alguma forma mais justo, mais correto, mais igual.

Até lá, eu sigo carregando sacolas e vendo a fila se acumular morro acima. Eu não sou camioneira. Eu sou professora. Eu sou brasileira.

 

Ana Raquel Fernandes é professora de Língua Portuguesa, subversiva. Críticas e sugestões: sub-ver-siva@hotmail.com

 

 

 

 

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