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Mulheres, negras e mães: responsabilidade e dificuldades são ainda maiores para elas, que apesar de tudo, garantem valer a pena

Matéria publicada na edição de 12 de maio de 2018

 

Mulheres, negras e mães. Se ser mulher já implica em inúmeras dificuldades no Brasil, como ganhar salários menores do que os dos homens, trilhar um caminho muito mais longo para chegar a cargos de chefias, acumular jornadas entre trabalho, estudo e tarefas domésticas, ser uma mulher negra tem um peso ainda maior, em razão do racismo que ainda teima em existir.

Neste domingo, 13, além de ser comemorado o Dia das Mães, o Brasil celebra os 130 anos de abolição da escravatura. Contudo, infelizmente, não há quase nada a se comemorar, já que os números apontam que a desigualdade racial no país ainda é muito grande e, seja no dia a dia ou nas redes sociais, é possível presenciar o preconceito contra negros frequentemente.

Isso num país que tem como sua padroeira uma santa negra, Nossa Senhora Aparecida, e cuja população negra vem aumentando ano após ano, chegando já a ser maioria no Brasil.

Mas, voltando a falar das mulheres negras, quando a maternidade chega, a responsabilidade aumenta um pouco mais, mas elas garantem que todo esforço vale a pena.

O Jornal Em Dia conversou com Janaína Matias, Flávia Rodrigues Dias e Sara Andrade de Souza Ramiro e elas contaram um pouco sobre as suas experiências de vida, em especial, a partir da maternidade. Confira:

JANAÍNA MATIAS, MÃE DO ARTHUR MIGUEL

Janaína Matias tem 41 anos e é mãe do Arthur Miguel, de quase três anos. Ela contou que planejou a gravidez, fez várias tentativas e até um tratamento simples para realizar o sonho de ser mãe.

Quando o teste deu positivo, a alegria foi tremenda. “Foi muito emocionante. Na verdade, eu nem desconfiava, mas resolvi comprar um teste porque já era comum eu fazer isso. Eu fazia isso há alguns meses de tanta ansiedade de querer engravidar, de querer ter o Arthur. Aí eu fiz o teste e quando vi, deu positivo. Eu lembro que meu marido estava deitado na cama e eu não conseguia nem falar, eu gritava, ria, pulava. Pra mim, foi muito emocionante porque eu desejei muito mesmo”, contou.

Quanto ao nome do filho, Janaína disse que já tinha em mente o segundo nome, Miguel, e depois acabou optando por colocar Arthur Miguel.

A gravidez, segundo ela, foi tranquila, apesar de ter tido náuseas durante todas as 38 semanas. Isso não a impediu de continuar trabalhando, fazendo trabalhos sociais na rua e depois passou a fazer trabalho interno na Polícia Militar, onde trabalha.

Como neste domingo, 13, o Brasil celebra os 130 anos da abolição da escravatura, a reportagem quis saber se Janaína já vivenciou, na sua infância, adolescência, ou agora com seu filho, alguma situação de discriminação ou preconceito racial.

“É difícil eu dizer que nunca passei por isso, até durante a minha infância, posso relembrar alguns fatos daquela coisa de cor, de falar do cabelo, mas eu nunca tive muito problema com isso, porque sempre me aceitei muito bem. Sempre tive essa coisa de me assumir como eu sou, mas o racismo existe”, relatou.

Janaína disse que sempre andou em grupos de etnias variadas, assim, tem amigas brancas, loiras, japonesas, de todos os tipos e nunca teve problema com isso.

“Acho que a infância é o momento pra quem sofre se aceitar, se impor, e também para quem comete a discriminação começar a agir, ainda que de forma inocente. No caso da criança, acho que muitas vezes ela acaba fazendo na inocência. Já os adultos sabem o que estão fazendo, já têm um pouco mais de maldade, às vezes, querem até magoar mesmo, atingir”, considerou.

Mas ela reforçou que sempre lidou muito bem com a questão e que não se lembra de uma ocasião que tenha sofrido preconceito já na fase adulta. “Na minha fase adulta, eu já não tive tanto problema, na minha profissão, não me lembro de um fato em que eu fui excluída ou deixei de participar de algum evento ou alguém falou da minha cor, não me lembro mesmo”, afirmou.

A mãe do Arthur Miguel, porém, se preocupa em empoderá-lo para enfrentar possíveis situações de preconceito ao longo da vida. “É uma preocupação imediata. Sempre digo pra ele que ele é lindo, que o cabelo dele é lindo, pra que ele conheça mesmo a raça, a cultura dele, até mesmo a religião. O pai dele é do candomblé, então, ele gosta muito, se envolve muito. Creio que ele vai ter menos problemas do que eu, porque ele já se aceita muito mais do que eu”, opinou.

O bate-papo com Janaína também abordou a questão dos discursos de ódio gratuito que vêm se tornando comuns nas redes sociais. Ela comentou que, nesse caso, há dois lados para se preocupar. O primeiro seria ensinar o filho a não praticar esse tipo de ação, explicando a importância de ele aceitar as diferenças. O segundo seria prepará-lo para não se abalar diante de alguma situação dessas com ele próprio.

“Tem os dois lados. Primeiro, penso que é importante ensiná-lo a não cometer esse tipo de delito, de injúria, de maldade até mesmo, ele precisa aprender a aceitar os outros com as diferenças, independentemente da cor, da altura, é importante que ele saiba disso. Ele convive muito comigo nas minhas atividades, no meu dia a dia, então, ele já tem muito disso. Se você perguntar pra ele o que ele é, ele fala que é polícia. Por outro lado, eu acho importante fortalecê-lo, ele estar preparado para qualquer situação e não se abalar. Ele saber que tem a cultura dele, que se ele gosta da música tal ele vai ouvir, não precisa ser discriminado pela música, pela raça, enfim, ele tem que se aceitar”, observou a mãe do Arthur Miguel.

Assunto que também está muito presente atualmente quando o tema é maternidade e como cuidar dos filhos pequenos é o uso de aparelhos eletrônicos e das redes sociais. Sobre isso, Janaína disse que assim como outras crianças da sua idade, Arthur Miguel já sabe mexer nos aparelhos eletrônicos, como celular, mas ela procura incentivá-lo a buscar outras opções de lazer.

“Ele está começando a entrar nessa onda. Hoje mesmo estava mostrando para minha mãe que ele pega o joguinho e fala “Eu vou te ensinar”. Apesar de eu ter tentado poupá-lo o máximo possível, não tem como, ele está começando já a conhecer, a saber mexer no celular, saber que lá tem joguinho. No quarto dele mesmo, tem televisão, então, ele fica ali, às vezes pede por um desenho específico e sabe que ali vai encontrar. Mas eu procuro não deixar muito no celular, incentivo ele a brincar, correr. A gente tem que trabalhar isso. Porque nós já estamos ligados a isso, se a gente não parar e colocar essa criançada pra gastar energia, fica complicado. Daí todo mundo vai ficar conectado. Tem que exercitar, tem que ser criança”, considerou.

Janaína também comentou que, para ela, a experiência da maternidade foi muito gratificante. Por isso, acredita que todas as mulheres deveriam passar por isso. “Tenham filhos, é uma oportunidade única, é um sentimento único, maravilhoso, então, tenham realmente, nem que seja um, pra sentir essa emoção, pra cuidar, pra ver que é seu, dar carinho e atenção, que é o que eles mais precisam, eles precisam de muita atenção mesmo, especialmente nos dias de hoje. Se você não dá esse abraço, esse braço, tem sempre alguém que vai querer oferecer”, alertou.

Como policial militar, Janaína atua há 11 anos com o JCC (Jovens Construindo a Cidadania), trabalhando dentro das escolas com os adolescentes. Com isso, pode se considerar um pouco mãe desses jovens.

“Eu falo que são meus filhos. Às vezes, encontro com alguns na rua e eles falam que se lembram de mim de palestras que dei nas escolas. Tem muitas pessoas que hoje são adultas e que na época que eram adolescentes tiveram aulas comigo e se lembram disso. Então, me considero “mãezona” deles mesmo. Entrei agora numa fase que estou trabalhando com o Proerd (Programa Educacional de Resistência às Drogas) também. A faixa etária é de 10 anos. Então, são bebês para mim. Muitos não têm em casa e querem um abraço da gente, um carinho, por isso, acabo sendo “mãezona” mesmo. Por isso acho que demorei tanto para ter o Arthur Miguel, porque era muito filho pra cuidar já”, brincou.

Por fim, Janaína deixou votos de felicidades a todas as mães neste dia especial: “Que Deus abençoe todas as mães do mundo, elas são necessárias, são essenciais, independente se são de sangue ou de coração, são mães. Uma vez que você se torna mãe, você quer cuidar o tempo todo, não quer nem que ele cresça, quer que fique sempre nos seus braços. À minha mãe, em especial, Benedita, que além de ser minha mãe e das minhas irmãs, também é um pouco mãe do Arthur, é uma super guerreira. E que todas as mães sejam muito felizes nas suas escolhas. Feliz Dia das Mães!”.

FLÁVIA RODRIGUES DIAS, MÃE DA ISABELLA

O Jornal Em Dia também conversou com Flávia Rodrigues Dias, que tem 38 anos e é mãe da Isabella, de 7 anos.

Com estabilidade na vida profissional e pessoal, ela decidiu que estava na hora de ser mãe. Então, após três ou quatro meses dessa decisão, engravidou. A notícia trouxe muita alegria a todos.

“Nossa, quando eu descobri, e descobri o sexo, aí foi incrível, porque a sua vida toma um rumo, ou rosa ou azul, e a minha foi rosa. Pensei a partir dali que teria uma companheira, uma amiga, a mini Flavinha, chamam ela assim. Foi tudo pra mim. Ela é minha motivação, minha força para seguir em frente, tudo o que eu faço na minha vida, desde que a Isabella nasceu é sempre pensando nela, no bem-estar dela, nos estudos dela, no que ela vai ser como pessoa, como ser humano, é uma motivação a mais. Minha filha é uma bênção na minha vida”, disse.

Flávia contou que trabalhou durante toda a gestação. “A gravidez foi tranquila, só no finalzinho que tive um pouco de pressão alta e diabetes gestacional. Trabalhei até o último dia. Trabalhei até sexta-feira e a Isabella nasceu no domingo e eu ia dirigindo daqui até Atibaia, trabalhava num restaurante lá, sempre pensando que gravidez não é doença e que precisava trabalhar o máximo possível para depois poder ficar mais tempo com ela. Foi tudo tranquilo graças a Deus”, lembrou.

Como Flávia precisava voltar ao trabalho, Isabella acabou indo para a escola bem cedo. “Depois que ela nasceu, só fiquei quatro meses de licença e já voltei a trabalhar. Isso foi de doer o coração, mas não me arrependo porque pra ela também foi bom, ela já foi pra escola cedo. Eu tinha medo de levar ela pra escola e ela ficar chorando, mas ela nem teve essa fase porque ela já se conhece dentro da escola, desde os quatro meses. Até hoje ela está na mesma escola”, contou.

Sobre ter vivenciado situações de preconceito por ser negra, Flávia declarou que já passou por várias ocasiões. “Com a minha filha ainda não vivenciei, mas já preparo ela, a gente conversa muito em casa sobre as diferenças, para que ela, quando acontecer, porque vai acontecer, é natural, infelizmente, ela saiba se defender, se colocar e até explicar para a pessoa que a cor da pele, cabelo, olhos, não afeta ela e nem a pessoa, a essência da pessoa está dentro dela. Mas eu sofri sim, sofro até hoje, a gente percebe pelos olhares das pessoas, se você vai numa festa bacana, com pessoas da alta sociedade, sempre tem um que olha como se falasse “o que você está fazendo aqui”, “quem te convidou”, “quem é ela”, “da onde veio”. Mas isso não me abala”, garantiu.

Ela também mencionou que durante a infância o principal local onde sentia o preconceito das pessoas era a escola. “Na escola, a gente recebia apelido de coleguinha, acho que isso acontece até hoje, mas nunca me abalei com isso. Sempre tive essa base de casa, com a minha mãe e meu pai sempre nos ensinando que o negro tinha que batalhar para conquistar as suas coisas, que o negro é lindo, a cor da pele dele é linda, independente do que os outros acham. E hoje estão tão misturadas as raças no Brasil que não dá mais para você dizer que uma pessoa não tenha um passado de sangue negro na família, ninguém sabe. A miscigenação é muito grande”, apontou.

Para a mãe de Isabella, as situações de preconceito que viveu serviram e ainda servem de combustível para seguir em frente, sempre batalhando por melhores oportunidades. “Não é fácil. Magoou, mas não me abalou. Acaba me servindo de combustível para eu continuar em frente, continuar batalhando e conquistando as minhas coisas, sem depender de ninguém, e sem ter vergonha de quem eu sou, da onde eu vim. A gente não pode mudar o passado dos negros, eles sempre foram muito sofridos, até hoje eles têm menos oportunidades, muitos mal têm o que comer na casa, mas também tem muita gente fazendo a diferença, estudando, mesmo em escola pública e depois indo lá e passando em universidades federais. Não podemos ficar sentados, reclamando, falando que somos prejudicados ou que estamos para trás. A gente pode arregaçar as mangas e sair correndo, melhorar o mundo futuramente para os nossos filhos”, comentou.

Diante de sua experiência de vida, Flávia considera importante preparar a filha para as possíveis situações de preconceito que poderá enfrentar ao longo da vida. “Não tem como eu estar com ela em todos os lugares, em todos os momentos, ela já está com sete anos, daqui para frente ela vai entender muitas coisas. Quando alguém questionar a cor de pele dela, ela tem que saber se defender, saber que ela é negra, a família inteira dela é negra, que ela é amada, e que a gente ama a nossa cor, o nosso cabelo, o nosso jeito. Ela ama os cachos dela. Acho que se cada família preparar o seu filho para as diferenças que a gente vai encontrar lá fora, a gente vai crescer melhor, até porque não tem só a diferença da cor de pele, tem as diferenças das raças, das limitações, a gente tem que preparar para tudo”, afirmou.

Flávia acredita que a geração atual vai lidar melhor com o preconceito e as questões raciais do que a dela. Isso porque quando era criança era mais difícil que os pais falassem com os filhos em casa sobre preconceito. “Não se falava do que a gente sofria na escola ou do que era xingado na rua. Acho que se falasse, as pessoas respeitavam muito mais, não só o negro mas o ser humano mesmo”, opinou.

Os discursos de ódio pelas redes sociais, na opinião de Flávia, são feitos por pessoas que não estão de bem com si mesmas. “O que a gente tem que fazer é orientar o filho, a filha da gente, a não entrar nesse ódio, a não dar bola mesmo, porque a gente sabe o que a gente é e consegue seguir em frente. A gente fica sabendo de casos de artistas, mas quanta gente passa por isso e a gente nem fica sabendo”, comentou, citando os ataques sofridos por Titi, filha adotiva dos atores Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank.

“Eles poderiam ter adotado qualquer outra criança, de qualquer outra cor de pele, que não traria tanta polêmica assim”, considerou Flávia.

Sobre o uso de redes sociais pela filha, Flávia disse que evita que ela use, mas quando usa, está sempre atenta ao conteúdo que está sendo visto por Isabella.

“Eu protejo muito ela, acho ainda muito cedo para isso. Fui ter acesso à rede social, internet, muito tarde. A gente assusta de ver hoje em dia a facilidade e a agilidade que eles, tão pequenos, têm. Minha filha mexe no meu celular de um jeito que nem eu sei mexer. Então, controlo bastante, prefiro que vá brincar com outras coisas, ler, até brincar na rua mesmo. Hoje, você não vê as crianças brincando na rua, mesmo numa rua ranqüila, numa praça, é muito difícil”, apontou.

A mãe de Isabella também deu a sua visão da maternidade: “A maternidade é linda, emocionante. Acho que é um dos presentes mais lindos que Deus pode dar para qualquer mulher. É um amor que a gente carrega no peito para a vida toda, é eterno. A gente pode ter ex-marido, ex-amigo, mas a gente nunca vai ter ex-filho, é um amor permanente, de tamanho infinito, que a gente carrega para a vida toda. E a gente vai acompanhando, sonhando com eles, cada fase, cada crescimento, cada detalhe, cada conquista, porque a gente quer que eles sejam felizes, que não sofram, então a gente faz de tudo”.

Ao final, Flávia deixou uma mensagem para as mães: “Quero agradecer a minha mãe, em especial, por ser essa mãe maravilhosa, que está sempre comigo, em todos os momentos, de alegrias e aflições, sempre tem uma palavra para acalmar. Sou muito grata a ela por ela ter me ensinado a ser tão forte, tão otimista. A mãe que sou hoje devo a ela. Para as mães em geral, um Feliz Dia das Mães para todas, que elas continuem sempre ensinando os filhos no caminho do bem, sem demonstrar fraqueza para eles”.

SARA ANDRADE DE SOUZA RAMIRO, MÃE DO MIGUEL E DO PEDRO

Sara Andrade de Souza Ramiro tem 37 anos e é mãe do Miguel, de 5 anos, e do Pedro, de 3 anos. Nenhum dos dois filhos foi planejado, mas ela disse que sempre quis ser mãe.

“Apesar de não ter planejado, sempre quis muito ser mãe. Quando conheci meu marido, eu tinha 30 anos. Eu tinha um mioma na época, tinha dificuldade para engravidar. Aí fiz uma cirurgia para a retirada desse mioma. E foi rápido, em torno de um ano depois que eu fiz a retirada do mioma eu já engravidei do Miguel. Aí a gente ainda namorava, não tinha casado ainda, aí a gente casou, eu estava com seis meses de gravidez, e então veio o Miguel”, detalhou, acrescentando: “Depois de um ano e dez meses veio o Pedro, que também não foi planejado, veio de sopetão. Mas foi bom. No começo me perguntei se ia dar conta porque o Miguel ainda usava fraldas quando o Pedro nasceu, mas deu tudo certo”.

Os dois foram para a creche bem cedo e em período integral. “Eles brigam por tudo, mas brincam muito também, são muito unidos”, contou Sara.

A mãe de Miguel e Pedro falou também sobre a experiência da gravidez. “A gravidez do Miguel foi tranquila, não tive nada, mas ele nasceu prematuro, com sete meses, mas eu não tinha dor, nada, simplesmente estourou a bolsa, eu fui pro hospital e ele nasceu. Na gravidez do Pedro, já tive infecção de urina, tive de ficar internada duas semanas, porque a infecção era muito alta. Depois que passou isso, foi tranquilo, só tive muito enjoo, era demais. Da primeira vez não tive nada. Da segunda, teve até um caso interessante. Meu marido tinha trocado de carro e era o nosso primeiro carro zero km e eu não conseguia entrar no carro por causa do cheiro, aquilo me enjoava tanto. Eu andava com sabonete da Natura para não sentir o cheiro do carro e hoje não posso ver sabonete da Natura”, comentou, aos risos.

Sara declarou que durante as duas gestações sofreu situações de preconceito. Na primeira vez, foi quando a bolsa estourou e ela foi para o hospital. A médica que a atendeu não deu muitas informações sobre o que iria ocorrer. “Cheguei ao hospital umas cinco horas da manhã, e tinha uma médica lá, loira, bonita, e ela me examinou, viu que a bolsa tinha estourado e disse que a criança ia nascer. Eu quis saber como seria, porque era meu primeiro filho, ela só respondeu: “Não sei. A hora que for pra nascer você vai saber”. E ela me deixou lá num canto, acho que ela queria tentar um parto normal, apesar de eu ter avisado que eu tinha feito uma cirurgia e que eu não podia fazer o parto normal. Sei que fiquei tão nervosa na época que liguei para o meu médico e ele foi lá. Ele falou com ela, falou também com o outro médico que ia entrar porque ira trocar de plantão. Mas ela me deixou lá, não sei se por preconceito, mas pode ter sido”, considerou.

Já na segunda gravidez, um comentário desagradável foi feito por uma colega de trabalho. “Eu estava trabalhando e uma pessoa que trabalhava comigo chegou e falou: “Você está grávida de novo?”. Ela quis saber o que era, eu contei que era um menino e ela completou: “Eu só espero que essa criança tenha pai, né”. O que ela tinha a ver com isso? E, outra, toda criança tem pai, apesar de ter muitos que não assumem. Mas eu sei o que ela quis dizer. A mulher negra grávida já é vista como mãe solteira, independente de ser. E eu não era. Eu casei na igreja, no civil, tudo direitinho. Os dois filhos são do mesmo pai. Mas na visão de algumas pessoas só porque sou negra deveria ser mãe solteira, não devia trabalhar. As pessoas julgam muito. Se ela é mãe solteira, mas teve condições de ter o filho, e ela cria, trabalha, qual é o problema? Achei muito discri-minatório. Ela nunca faria uma pergunta dessas para uma mulher branca, loira, dos olhos azuis, por exemplo. Não é uma pergunta normal de se fazer. Fiquei até meio sem ação, sem resposta”, relatou.

Sara acredita que comentários como esse são feitos porque as pessoas não esperam que um negro seja bem-sucedido na vida. “Ela me conhecia desde muito nova, então sabia que comecei a trabalhar com 12 anos, que tive uma vida sacrificada, ajudava em casa. Até por isso tive filho mais tarde, trabalhei bastante, comprei minha casa, meu carro, fui fazendo a minha vida, mas as pessoas não esperam que você faça isso, principalmente sendo negra. Isso é normal para um branco, trabalhar e construir as coisas. No decorrer da vida, a gente percebe o preconceito. Mas não guardo mágoas. A gente precisa de cotas para ter acesso às coisas, acho que isso está tão ultrapassado, que deveria ter igualdade, mas não tem, então as cotas são necessárias muitas vezes. Na hora de você procurar um emprego, a questão da pele ainda é decisiva, é vista como um diferencial, mas tenho fé que isso ainda vai mudar”, disse.

A mãe de Miguel e Pedro apontou que a fase que os filhos estão é muito bonita, porque não há preconceito entre as crianças. “Acho que conforme eles forem crescendo, a gente tem que direcionar, mostrar o que tem de bom e o que tem de ruim ao nosso redor. Hoje, eles são muito pequenos, não têm noção de nada, e eles estão numa fase que é ótima, não existe preconceito entre crianças, nunca vi isso. Eles se relacionam muito bem. Mas sei que isso (discriminação) vai acontecer. Meus irmãos, que também são negros, já foram parados pela polícia inúmeras vezes, só para “levar geral”, para ver se tem alguma coisa dentro do carro, só pelo fato de ser negro, porque se tiver que parar um negro e um branco, com certeza é o negro que vai ser parado. Aconteceu muito isso com eles. Acho que é minha obrigação passar para eles que existe o preconceito porque com certeza vão passar alguma coisa, principalmente na escola. Quando eu tinha uns 12 anos, me chamavam de “neguinha”. Muita gente usa essa palavra de uma forma carinhosa, mas na escola não era, era para tirar sarro mesmo. Mas eu não me importava. Espero que eles também não se importem com isso, deixem essas coisas de lado”, desejou.

Sara também comentou o caso de discriminação racial sofrido por Titi, filha dos atores Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank. “Acho que a internet é um avanço tecnológico para todos nós. Hoje, boa parte das pessoas não vive sem, mas acho que é preciso podar. Porque tem alguns fatos negativos, a gente vê aquele casal que tem a filha negra. Vivem atacando a menina, umas coisas desnecessárias, por que as pessoas se preocupam tanto com o outro? Como será que está a vida delas? Acho que a gente tem que se preocupar e ver como está a nossa vida primeiro para depois ver a vida do outro. Ataques desnecessários, você não está sendo nem provocado na internet, vai atacar por quê?”, questionou.

Na opinião de Sara, é preciso ensinar os filhos a respeitar o próximo. “A gente, no papel de mãe, de pai, tem que dar educação, porque um pouco disso é falta de educação, de orientação, você tem que ensinar a respeitar o próximo, o colega, o professor, a gente tem que ensiná-los a respeitar e a exigir respeito, acho que isso é papel dos pais, educação é em casa”, avaliou.

O uso de aparelhos eletrônicos e das redes sociais deve ser feito sempre com supervisão dos pais ou responsáveis, defendeu Sara. “Esse negócio de internet a gente não pode deixar à solta, a gente tem que estar visualizando, acompanhando o que está acontecendo. Tem algumas coisas que não é legal que eles vejam, até mesmo desenhos direcionados a crianças, que não considero boa influência. Eles já usam tablets, celular. Eu também deixo eles sem usar, quando têm algum problema de comportamento. Mas eles também gostam de outras atividades, como jogar bola, brincar de outras coisas. A gente intercala”, contou.

Para a mãe de Miguel e Pedro, todas as mulheres deveriam fazer a experiência da maternidade. “Fui muito feliz com a maternidade, é uma coisa que eu queria muito, então, para mim, foi a realização de um sonho, acho que toda mulher tem de passar por isso porque a gente se sente mais completa, é um ser que saiu de dentro da gente e que a gente ama acima de qualquer coisa, acho que não tem amor maior. Para as mulheres que não têm filhos ainda, recomendo que tenham. Claro que não é mil maravilhas, a gente se dedica muito, principalmente quando eles são muito pequenos, às vezes, o mundo está dormindo e você está acordada. Só o sorriso deles parece que já valeu tudo. Sou muito feliz e recomendo, acho que toda mulher tem de passar por isso. É muito legal”, aconselhou.

Sara deixou, então, uma mensagem especial às mães: “Desejo um Feliz Dia das Mães para todas as mães, especialmente para a minha, Marisa, que passou por um problema muito difícil, teve câncer de mama e superou tudo com muita força, teve de fazer radioterapia, mas agora ela concluiu e está bem. Parabenizo-a principalmente pela força que ela teve no momento tão difícil que ela passou e ela superou, graças a Deus. Que todos peguem este dia que é tão especial e abracem seus filhos, fiquem próximos deles e tenham sempre eles a seu lado porque acho que a gente cria um amigo, um companheiro, é esse tipo de vínculo que eu espero criar com os meus. Então, desejo um Feliz Dia das Mães para todas as mães, que sejam muito felizes, que todos os filhos sigam o caminho ideal, o caminho correto, ou aquilo que a gente acredita como sendo ideal e que todos sejam muito felizes”.

 

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